fit ^ m Wmw 1/ v., / / £■1- ECOM OMICAS D A AGADEMIA REAL DAS SCIENCIAS D E L I S B O A, PARA O ADIANTAMENTO D A AGRICULTURA, DAS ARTES, E DA INDUSTRIA EM PORTUGAL, E SUAS CONQUISTAS. Nifi utile eji quod facimns , Jlidta ejt gloria, T O M O II. L I S B O A NA OFFICINA DA MESMA AGADEMIA. ANNO M. D G C. X C. Cm licema da Real Meza da Commijfao Geral fobre • £X4- me , e Cenfura dos Linos. / BRITANI KjiicmJ M E M O R I A Sobre a preferencia que entre nos mercce o ejlaheleci- mento dos Mercados ao ujo das Feiras de anno para o Commercio intrinfeco» PoR Thomaz Antonio de Villa-Nova Portugal. Author da obra intitulada Le Magijlrat Citoyen da por demonflrado , que as Feiras nao indicao hum eftado iiorente de Commercio , mas moftrao que eile iie opprimiJo , e he pequeno. O tumulto de alguns dias , que apparentemente admira , fo ofFerece a reflexao hum commercio momentaneo , a que fe fegue hum largo efpajo dc ociofidade : como de qualquer ma- quina , que fe movefle de anno em anno , feria illufao capacitar-fe que tinha hum gyro aiftivo. A Hiftoria do Commercio confirma efte fentimento : na ultima Epoclia , que le conta desde a invafao dos Barbaros na Europa , ate a deicuberra da India por D. Vafco da Gama ; quando parou todo o Commercio, ate que fobre as ruinas do Imperio fe forao ellabelecen- do as novas Monarquias ; eile principiou por meio de grandes Feiras. As Potencias maritimas delle tempo con- duziao em frotas de iiuns para oiitros pOrtos os gene- ros do feu Paiz , e dos feus alliados j que depois palTa- vao para Feiras , aonde concorriao os pdvos a trocar , oil prover-fe dos que precifavao (i) . Tom. II. ^ A Os (i) Devo fazer difi'eren9a de Prsfas de Commercio a Fei- r.-.s. Pra9as de Commercio florecerao muirns em todo efte tcm- Fo fucceflivamente. Vineu ioi praja ' dos Vandalos , deilriiida a Memorias Os Vcnczianos prindpiarao a commercial- com o fal das fuas marinlias : quaiuio CaHlodoro Miniflio de Tlicodorico qui/, la-zer conduzir vinlios , c azcitcs de Illria para Ravciina , na Carta cm que pcdio para iflb navies aos Vcnczianos , cxplica-ic , dizcndo : Ha de cuf- tar-vos pouco , pois vos corrcis cfpa^os qiiafi infiniius; as vofTas barcas parccc que correm as terras vizinhas por meio dos campos ; c aflim as voll'as marinhas vos pro- duzem todos os fruros. Tcmos dos (icnovczes outra prova. No ultimo in- ccndio de Gcnova , fcito pc!os Saracenos (i) , que efpc- rarao a occaliad dc tcr laJiido a fio;a , a viiiganja que ci cm 7y6 pclos DliMmarqiiczes , o feu Commcrcio pi (Ton para Juliniim : c(la fiorcoio ace j;00 , iol tres vczes rcnclid.i por Sucnothon , ou .Suciio;ic , porqiic a ella le acolhiao os nialtci- torcs dc Dinamarca : pcla iiia riiina cntrou a llorcccr Wisby , que fcndo tambcni tk'ftruida , pa'Ioii o Commcrcio p.ira Dan- tzick , e Lubcck cm 1170. Lotiofia foi jHa9a dos Ollrogodos, qucimada em 12(J^. Birca proxiiv.a a Uplal dos Normanos. Ale- xandria , AIcpo , c Ccuta dos Saracenos , c outras. As Feiras porcm ou (c rcnovarao tcndo fido cxtin6}as pe- la irrup9a6 dos Barbaros , c (lovcrno fciid.il , que as conddc- rava como hum ob|edo dc prcza ; ou tivcrao dcpois dillo o feu primciro cRahflccimcnio- Illo he qucrtao ■■, porOm ainda que parcfa pclos cxcmplos da cclcbre Fc!ra da Paleft'na no Carvalho de Mambrc , que Co.iR.intino M. <''iiz exunsjuir i da Feira dc Zurich , chainada Forfm Til'crii ; clas de lorum ^ul' //I, e lic^^ium Lcpi^li , nas CLdlias Circrior y c Ulterior ^ deque falla Sigonio nas fuas antiguidades ; de ali;umn;; das Feiras de Flandrcs , cuja origcm , diz Sociro , Ic auiibuia a Toraldo Rei dos Tlh'Htons , que fao as Feiras de ufo antiquiilin.o : comtu- do he mais provavcl a opiniao que fegue Chambers Dicciou. Univ. , pois a idea quj hoje formamos das Feiras confiderando-as hum direito Real , com ccnos privile[;ios , rcgulamtutos , e Jui- zcs , moilra hum eftabclccimento modcrno ; tcncte fido aqucilas ou Alercados , propriamcntc N/indiiLC , ou concurfos irrcgulares dc ncp;ociantC3 : o i]uc indica tambcm a mud.in^a de fi^nitica jao d4 palavra NnutliHiC. (1) liiltoria dc Vcnczi , torn. i. pag. 141). ECONOMICAS. ^ elles tomdrao , quando no cliegvir ao porto virao a rui- na da fua Cidade , c forao cm icu alcancc ; moftra que commerciavao por mcio dc frotas , c que eftas viagcjis durava6 pouco tempo. A cftes fe fcgulrao ( i ) os de Florenga , dc Piza , dc Barcelona , c outros j fern lem- brar os Arabcs , cujo comn:crcio , ainda que foi o maior , por cliegarcm a fer fenliorcs daHclpai;ha, Af'-i- ca , e Afia , comiudo fao contados no niimero daquelles; que invadirao a Europa. Nos interval los de paz cflabclcciao-fe , ou renova- vao-fc algumas Fciras : Dagobeno irii'tituio algumas; Car- Jos Al. nos (.apitularcs, dc 809 Icgislou a rclpcito del- las i porcai iflo durava tao pouco , que fo podcmos con- tar o cftabclcciincnto das Feiras dcsdc Balduino o Mojo Condc de Flandres em 948 , que cibbclcc en do-as cm Bruges , Coutray , Turhult , Callcl , e outras , fez da Flandres o cciuro do Commcrcio de toda a Europa. Ainda ate cfle tempo fe ufava cm Flandres a troca tlos generos , e nao fe negociava por compra , e venda. Em 1 164 o Imperador Frcderico deo graftdcs ifcn- f oes ( 2 ) aos Mcrcadorcs Flamengos , que extendcrao o Commcrcio por todo o Rhcno , c Gcrmania. Mas ncftc m.'lino anno tcve origem cm Bremen a confederajao das Cidades Hanfeaticas ; c os Condes de Flandres revogan- do depois os privilegios das Feiras , veio a paffar pa- ra cfta Confederacao o Commcrcio, e Bruges a ficar huma das liias quatro Fracas , ou Einporios principaes. Efte foi o piimoiro fyUcma regular de Commcrcio : o que dos i'eiis Picbilcitos deo origem ao primeiro Co- digo de Marinha , intitulado Jus Lubeccnfe (3) : e as A ii lu- (i) Hijioir. Fniv. par tiiic Suciet. de Gens de Let ties. Hiftor. de (icnov. pag. 9. (1) Soeiro. Annalcs de Flandres. an, 948. 844. 1164. (^) Digo o primeiro Codigo , e nao primcir.is Lcis. Du- vida-fe quaes folfcin as primciras Lcis depois da dccadcncia do Iniperlo Romano , que oblcrvou as l.eis Rhodias, Os iiiie pcrtcndcm quj foitem as Lcis dc Olcron , ^uc hojc fcj-ue 4 Memoiias luzes ii que dco can la , fizciao que fc cftabcIccelTem por toda a parte novas Feiras , como cm Francfort cm 135-0-, cm Leao por 1419 ^ S. Dionyfio cm 1472 ; c iia Hcf- panha , aonde , dcpois da cxpulfao dos Arabes, fc igno- ra c]ual foi o primciro eilabclccinicino , e ic arnibuc em gcra! a Affonlb o Sabio , que fez por no ieu Codigo d.ts Partidr.s (1)0 niaior privilegio. Mandou , que os Mercndores que fbllem roubados , indo as PViras , fof- J'cm indeminlados pelas Cam.eras , ou pelo Senhor do territorio , quando o nao pudeffcm ler pelo delin- quenrc. Aos progrclTos do Commcrcio le icguio a divifao das Feiias por mais vczcs no anno , e leguio-fe a intio- ducjao dos mercados , que ainda que erao de iifo anriga', e proprio dos Romanes , com o nome de Ninjdifi^ , n:i6 puderao elhibelecer-fe em qiianto o Commcrcio precifava dos privilegios concedidos ds Feiras , nem tinlia huma tal frequencia , que intercilaHe as vcndas de todas as i'e- manas. Savary (2) notando que a Feira de S. Bartholomeu de Londrcs , que era de 15 dias , fc rcduzio a 3 dias j que le Ihe leguio o eicabclccimcnto de mais de 20 mer- cados i e que actualmente Jie hum Commcrcio conrinuo ) admira-fe de que a Fcira decaJiiflb : pox^em ifib he hu- ina coiifequcncia natural do maior gyro dcfTe Commer- cio. Os a IngJ.itcrra, as actribuerh a Richardo I. ; o que loce a grr.n- de anciguidadc : dcilcs he Arrhuro Duck da Amkcridade do Dircio Civil. Ourros dizcm fcrem as Leis de Wisl.y , a que Grocio faz gnndcs clogios j o que fcgue Rcinoldo Kurick , ^us Hmifcanaau. Os Pkbifciros Gcdancnfcs , ou de Dantzick tainbem fau do grande anti^uidadc. Ucpois deltas he que fao as Leis do:? Codigo> , ^ns Lnbcccnfe : Jus Pruthcnicuvt : Jus Dnnicwn : Statnta Hantb.'ir^ciifut : Jtis Maritimum de Carlos V. : c outros mais , que tern todos grande contormidade na Legis- Ia9a6. (i) Liv. 4. tit. 7. pirr. 5. ( 2 ) Divflfon. dc Com. j; Foirc )i. E C O N M I C A S. 5" Os generos da primeira neceflkiade tern hum confu- mo conrinuo ^ e preciTao da frequencia dos mercados ; e ell:a traz a occaliao de comprar os outros generos : fo refta para as Feiras o concurfo para os generos de luxo , ou aquelle , a que convida o entretenimento ; e como ifto nao he principal , mas acceilbrio , hao de os merca- dos fazer diminuir as Feiras de anno. AiTim hum Commercio que principiava introduzio as Feiras , ma is frequenre eftabeleceo os mercados , e frequentifiimo fez hum commercio continuado. A Hol- landa , como diz o referido Anonymo , nao tern Feiras , porque todo o Eftado he huma Feira pela aiflividade do leu Commercio. * Segue-fe dillo , que o vermos eftabelecidos merca- dos em muitas terras do Reino , nos deve dar hum.a idea vantajoia do noflb commercio intrinleco ; mas o vermos que em razao dellcs fe diniinuem as Feiras (a excepcao das roaiores ) , nao he hum argumento de de- cadencia 5 mas huma prova de maior acfliividade. lilo nao poderia fer, fe eifencialmente elks nao folll'em mais van- tajoibs : e cm examinar quaes fejao effas vantagens fajo confifcir o objecfto della Memoria. Prefentao-fe as feguintes : lerem com mais foceg0 3 poderem regular-fe mellior ; darem mais confumo , e cir- culacao ; tcrem precos mais ccnlbnies , e mais modi- eos , cxtrahirem os fjuclos de todas as cftagoes do an- no j e iijiereffarem mais a cultura , e induftria , do que OS generos de luxe. Devo expor eftas rasoeso I. Os Negociantes , que principiarao as grandes Fei- i-as , forao os que depois do tempo barbaro introduzlrao OS efpertaculos , para que elles attrahilTem concurfo em que diftrahiirem as fuas mercadorias : ainda ha rcilos def- te ufo , que fez huma queilao de Policia fe deviao con- fcntir-fe 3 mas prevalece a liberdade das Feiras. Files ocio- fcs , C " Memohias fos , c iniiitos malfcitores que concorreni is Feiras , fd^ zcin c]uc c.ii toilis ha furtos , c dcfordcns. O (]uc na5 lucccilo nos mcrcados , os ptWos ncgocc.uj com Icguran- ya ; iiart /ad tao cxpoflos a pcrdas , roubos , c liviamen- tos dc crimes cjiic os arniiiiad y c mais (]ue tiido nad le coftiimart a pcrdcr o tempo, occupa-l'ii US o nccellario pa- ra comjuar, c vender, o que cvita a occafiid da iiido- leiicia , vicio perigoro nos i)dvos em razao do clima. II. Podcm rcgulai-fe mcllior ; nao por aquelle moiio de regular, que opprimc o Commercio , mas por aquelle, que dirige o C.omnicrciaiite : reputa-fe dillicil aflignar cites limites , mas nad impollivel ; e iieUe objcdo })are- ce que pdde di/er-le : C^ie o qiierer regular por Policia as compras , c vendas ; per Pofturas o tempo de vender j impedir ccr- tos gcneros porque lad proprios de ourros mercados ; fer rigoroh) lohre os que le cliamad Atravelliidorcs ; defti- tiar cerios higires contra o ulo , ou elcollia dos vcndc- dorcs , ol>rigar a vender a ellas , ou aquellas pclldas com prcFcrencia ; privilegiar certas corpora^^dos para compra- icm primeiro : que ilto nad lie regular , mas oppiimir. K o t]ue pL'rtence ds Almotacaria:; , aos 'l'er(;os do^ gc- ju-ros , ;i contriliuifad ilas Liceni^as das Camaras , dos 'i'errados , das Poitagons , c ainda das Sizas , fad c vha- rafOf! que nad opprimiriad pouco. Porc^m o quo entra propriamentc debaixo do iioiii.e i\c Policia , como providcnciar os monopolios , lirar os mantimentos corruptos , cafligar os roubos , cnib.irafar as violencias , lie favorecer o (Commercio ; porque lie firmar a fcguran^a mutua do vcndedor, e comprador; e a uiilidade rcciproca de hum , c outro , he que iuftciita o concuifo. 'i'udo illo he facil Jios mcrcados. III. ECONOMICAS. 7 III. EJlcs dao inaior confiimo , e circula9a6 , por ifTo mefino que i\\6 iiiais ficqucntcs , e rcpctcm cada fcmana o que nas Feiras fc fax dc anno em anno. Nao pofib fcguir a opiniad do AutJior i/a Or^Icui Natural das So- cwclach's , que rcputa por idea falla , que a clrculayao intrinfcca fcja vantajolh ao Commercio. Pois le os ge- jicros , dcpois de Juiina grande circula^ao , ainda cftao a preco dc concurrcneia para cxportar-le y efta divifao dos iiUdcnbs por muitos he uiil ao Eftado. Nem o Com- iiicrcio lioje (e faz por troca , c cfcambo , mas por com- pra , e vcnda ; c ncftas o dinhciro nad paflii ordinaria- mcnte dc Juima para outra mno icm intercfrc: coiilequcn- tcmcnte , qiianto maior for a circulacao , maior lucro Il- ea cnirc OS povos. He Jiuma j-)roYa , como diz Hallcr , de que todo o Ellado vive , e trabalJia. IV. Scguc-fc dcfla circulacao frequente ferem os prcyos mais conftdntcs. A divcrlidadc dos prejos cm exccflb Fora da iua proporjj^io he dc muito danino : infimos na6 indcmnilao ao Lavrador , e Artilhi ; muito altos lao onc- rolbs ao.> compradorcs , c infupportavcis aos pobrcs. Pq- rcm coiiio nos mcrcados pode com facilidadc Iiavcr rcfer- va dc liumas para outras icmanas ; os prccos , tanto pcia concurrcncia dos vendcdorcs , como peJa prccil'ao dus compradorcs , fcgucm J;uma tnrifa mais conilantc, c igual. Ncfta igualdade , como a abundancja permancn- tc iguala os pre^os a riqucza dos pcWos , icmpre cs prc- cos lao cm propoi^ao. K dcntro dcfla propor^ao , cllcs fa6 nos mcrcados inais commodos : as Feiras prccffao gaRos de tranf portc , que OS mcrcados nao tern , c como ao valor do gcrero ha dc unir-lc o cuflo da viagcm , fao os prc^^bs nas Fei- ras V MEMOKtAf ras mais fubiJos. Elb carcflia nao uiilifh ao vcndctlor , {)orc]uc na6 lie lobrc o gcncro , mas I'obrc as ilcfpczas. i i'c pcrdc , f(> a frcouciicia Jos mercadoii lie mic p6de coin o gyro liiavlfir-llic a pcida , c a dcrpo/a do traiif- portc. rort|iic as Fciias ioiao cllabclccidas cariialmfruc , c naC I'cgiiulas pclas l*r(n'inciis : os nicrcatlos occoircm no fcgiiiutc dia a trcs , on tju.uro Icguas dc diltancia. V. Dido ircfmo precede a vantngcm dc dnr cxtracfa6 aos frutHos de todas as clla^'oes do anno , ourro giandc util dos mercados. () habitante do campo quando npiita nielhor os ilus Fiin.'los , e p(')de conf'crvalos au' o tem- po dc bom ]Mr(j*o , eniart lie que vivc cm abundanc'a , c laz a cultiira das terras , como Lavrador alionadf) : mas como a niaior parte i\\6 de fbrtiiiia mediocre , de- pendcm da fretpieneia dos mercados para na occafiart vendeiem !'<) a por^'ao de IVui-nos , ciijo pre^'o Ihc he neceflaritj. N.is Fcinis j)recifari.i vender loila a qiinnrida- de i]uc lliL- exceilc o gallo annuo , e peider o (.|uc po- dia iuciar lobre o pieyo. Se nefta perda rem iguil lucro o c|ue compra , i(To nafi balla j porque o vendedor lie que deve ier I'lvore- cido direi^iaiiieiue , e iiart o compiador. () vcmledor ou vende os generos da fua cultuia , ou da fua indullria , ou do feu ncgocio : de qualqucr modo eflc he o feu cl- tabeiecimento , c o ju'iblico interclVa , que cada C^id:uia6 no leu eftabelecimeiuo tenlia os lucros ])olTivcis. Huma vc'z que os prefos I'ejaf) propoicionados ao valor adlual dos genenjs , que procede ila coinl>inarar) total das de(- pezas , abunilancia , conlumo , e riqueza da Na^":i6 , o que le conlegue indiredamente dando lugar a coricui- reiicia , e lirando os monopolios , cfta lavorecido o com- prador. A vend. I liequcnte nos mercados he o quo lia vida a cultuia , e d iiulullria. A cultura naii prolpeia li) pe- la la abundancia dos primciros friiclos , como trigos , "Vi- nhos ^ azeitc , ike. j mas pcla abuiidai)cia dos fViidog das liortas , pomares , c fcmclhantcs objcctos da ccono- mia domellica , cuja vcnda coiirimiada Jic que Icrve ao Lavrador para as dcfpezas diarias , c llic poupa os ou- tros frudlos para compras dc novos I'lmdos , ciiltiuas, nc- gocio , &c. Scm iilo as terras n:\6 produziriao tudo o que podcni produzir. O merino proccdc na indullria ; a continua vend j excita a continuo traballio j c o coiujimo lucro a novas oiitrcprczas. Huma Fibrica nao prolpcra feiu ifto , a que lb chama Brazos auxiliares. Se o dono dc Jiunia ra- brica intcntaire recebcr todos os lucros , comprando as lans , ou linlios , fazendo-os fiar , tecer , tingir , c de- pois p6r cm negocio , pouco le podia con liar da ilia cn- trcprcza. A experiencja inoftra que nos pai/cs aondc ha induftria , e entre nos nas Provincias aomle florcce , ella Jic po|)ular ; e as grandes Fabricas fao para as obras de mais delicadc/a , para os ultimos preparos , e para o gyro do ncgocio. E os niercados iad a bafe deftc gyro : a ellcs concorrem os p()vos com as prhnciras materias , com as fiacoes , com os tecidos : o relultado he inimenib, porque os brajos Tao muitos , c fao liyrcs. VL Alem dido , os mcrcados fad proprlos para cftcs ebjedtos dc cultura , c induftria ; as Feiras para os obje- ftos do luxo. As noflas Provincias precifao do Commcr- cio dc cconomia , ganhando , ainda que pouco , frcquen- tcmente : c nao podem com o (^ommercio do luxo , nem com as fuas dcfpczas , c por illo iJies iao ma is utcis os mcrcados. Eu nao pertcndo cntrar na celebrc qucftao Ibbre o luxo , que talvcz uunca cliegara a decidir-fe. As dcfpc- zas do luxo fao as vezes taes , que fazem o bem de iium Povo inteiro. O luxo fez cavar o lago dc Mcris , e le- 'Xem. 11. ^ vau- ip M E Rl O R I A g vantac as Ryraniides, : o primeiro objedo , por que fe- gurou a i^crtilidadc do Egypto , he hum monumciito pode no melmo dia voltar para fua cafa. As Villas , e Terras mais populofas do nolTo paiz como eftao nefta diftancia , os mercados fao optimamente pro- porcionados j e os dias tambem , porque fe difpoem fe- guidos para haver gyro de huns para outros. He qucftao fc o devem fer nos Domingos ? Conftan- tino o Grande eftabeleceo-os nos Domingos , como con- fta de huma lapide (i) . Carlos Magno prohibio-os aos Domingos , nos Capitulares de 809. Entre nos nao lia ufo certo , mas a experiencia moftra , que elles nao prof- perao neftes dias onde nao ha Romagens : efte ufo de devojao , cujo fim he fagrado , nao fe deve miftu- rar com hum fim profano. He por iflb melhor o ufo commum de ferem nos dias de trabalho , fem que de- va lamentar-fe , que elfe dia fe perca para a cultura. A llic. (2) O Senhor U. Joao III. em 1557 m-^ntlon > q«e os mo- radorcs de Lisboa que rlvcircm rcndas de frudos , alem da dirtancia de 10 leguas , deixaffcm o tcrgo nas Terras. Efta Lei , que he puticular , provavelmcnte daria origem a cftc ulo ; a'iuclics i]ue comprehendia , forao-fe ifentando por diverfos ti- tulos i pailbu a pr.iticar-fc com os outros. (3) Kc^irn. da Camera d'.' Lisboa j dado cm 1(^71, § lu Economical i^ CommeVcio pela quantidade do tributo , porqiie efta he regulada pelo Legislador , fegundo as for^as do Eftado : deilroe-o pelas vexajoes , e pelos exceflbs , porque eftes fao dirigidcs pelos executores ; deftroe-o ainda pelas tor- malidades que fao necelTarias , e embara^os para as fa- tisfazer (i). A quantidade do tributo da portagem he tal , que nada opprime o Commercio ; mas a lua firre- cadajao embaraga muito. Como he taixado com varieda- de em cada Foral , e a cada genero de mercadorias , naf- ce diflo a confufao , e nao faber aquelle que paga a quantia que deve : como he taixado a reaes ;, e a ceitis, moeda que hoje nao corre , nafce difto o exceflb com que OS rendeiros cobrao o quintuple do que fe deve : precifa manifello , que faz perda de tempo : tern pena de perdimento de fazenda , que nao he proporcionada a fraude de hum real : e os privilegiados precifao ter cartas de vifinhanga , o que excede no feu cufto o pa- gamento de muitos annos. Tem porem os Foraes huma difpoiicao em beneficio do Commercio : ifentao as mercadorias que fe iiliporta- rem havendo igual exportajao ; mas na pratica nao fe Ihe conhece o utll , porque como o incommodo da ar- recada^ao he maior que o valor do tributo , o eflimulo fe defvanece em razao do embarajo. Dos meios que fe tem procurado para fe ifentarem OS mercados , parece o melhor , o unir-fe o feu com- pute ao Cabejao das Sizas : ficando por iffo todas as Terras privilegiadas , fe paga o mefmo , poupando-fe hu- ma divcrfa arrecadajao. Faz tambem regra fobre as Sizas , que fe nao pa- gao na maior parte dos noflbs mercados. O fyftema dos Encabecamentos he o modo de arrecadacao mais perfei- to que pode imaginr.r-le : traz razoes famofas o Author do Tratado Des Corps Politiques ( 2) , propondc-o co- mo (i) VEfprit dcs Loix , iiv. 20. cap. i^. (2 ) Liv. 6. cap. 5. T4 Memorias mo projeflo feu. Como por efte fyftema os povos em pagan io o computo lad fenhores das Sizas : he do Iba arbicrio arrccadalas das vendas nos mercados , a que cha- m:i6 Correntes ; c tem ulado dellc a efte rcipeito , fa- zeiido ailliii dos mercados outras rantas Feiras francas. Eis-aqui as razoes , que devem perfuadir ainda nos que reltao. Elles indemnifao-fe da quantia deltas Sizas , por- quc recebem outro tanto no maior prejo , por que ven- djin OS feu- fru^-'los , e no menor , por que comprao os dc fora. O mcrcador accrefcenta ao cufto dos generos a quantia dos tribucos , e o Lavrador diminue-a ; por ilTo todos ostributos, que fe pagao em huma Terra , lao fempre pagos pelos moradores della : aflim Jie igual aos povos cobrarem eftas Sizas , ou nao. Ucililao a quantia que ha dc cobrar o rendeiro , que , fazendo difto o leu officio , precila alguns lucros , alem da renda que entrega para os p6vos. E utiiifao o tempo que perdem no pagamento , no manifefto , nas contcllafdes judiciaes ; o augmento que por efta liberda- de tern os mercados ; e o que do augmento dclles re- lulta a cultura , e induftria , que he incalculavel. Ultimamente , poderiao contar-fe entre os embara- 50S as Ahnotafarias , e taixas dos gencros , fe a nof- la Lcgislaca6 nao tivefle geralmente ifentado ja a maior parte deiles. Nos poucos em que ainda exiftem , fao ne- cellarias , ejuftas quando hum vendedor pode abufar da ■precifao do povo ; mas nos mercados donde ha concur- rcncia , pouco fervem para regular o prego judo : por- que efte fegue a fua tarifa natural , e nao o arbitrio da Almotajaria. Se a taixa he alta , os vendcdores di- minuem conforme o confumo , e concurrencia ; fe he baixa , defamparao o mercado. Eftas vantagens , e efta liberdadc he que tern fei- ro profperar os noflbs mercados. As nolTas Feiras na6 tern eftas razoes de utilidade , e foffVcm mais deftes em- bara^Oi : teui decaliido , e diminuinio necelTariamente aquel- ECONOMICAS. rjT aquellas , a que circunftancias particulares nao fizerem eflen- cialmente intereflantes : por iffo pertendi moftrar que os mercados he que mereciao a prefereneia , e a nofla ob- fervajao ; pois elles he que podem chegar o Commer- cio intrinfeco aquelle grao deadlividade, que he proprio de huma Najao que principalmente depende da fua Agri- cultura* ME- iG Memorias M E M O R I A Sobre a Cultura das Vinhas de Portugal. PoR Constantino Botelho de Lacerda Lobo. INTRODUCqAO. PAra moftiar em lium ponto de villa toda a doutrina defta Alemoria , a divide cm cinco partes , na I. tra- to dos piincipios da vegetajao das cepas , e efcolha do terreno ; na II. da pianta^ao , e cultura dos bacellos ; na III. dos trabalhos annuaes , {que fe cmpregao nas Vi- nhas ; na IV. das cautclas neccilarias para o mclhoramen- to , e conferva fao das cepas ; na V. dos difFerentes gc- neros de Vinhas , que lia em Portugal. E como a theo- rica necelTaria para a fatisfafao defte aflumpto nao po- de fer acommodada a intelligencia de todos os Lavra- dores , por iflb no fim de cada huma das partes efta- belecerei algumas regras praticas fimplices , e claras de- duzidas da doutrina expofta , e applicaveis , o mais que me for polTivel , as differences Provincias deile Rcino. PAR^ E c IS 6 M I c X sT ly P A R T E I. C A P I T U L O I, Das principios da vegeta^ao das cepas^ § I' AAnalyfe Chymica defcobie nas videiras faes , oleos , mucilagens , refinas , agua , e terra vegetal , logo a fua nutrijao deve fer relativa a eftes principios ; po- r^m como I'ao tenuillimos os vafos por onde fobem as particulas Jiiuritivas , por ifTo todos os corpos , que fa- virem de niitrica6 as cepas devem fer taes , que fe pof- fao reduzir a mitn vapor : logo f6mente a agua , e tu- do o que a melhia diffolve, as materias inflammaveis , e o gaz mepliytico conftituein o verdadeiro nmrimento das cepas. § II. Porem eftas particulas nutrltivas devem fer em hu- ma conveniente proporgao, porque o exceflb , ou falta das mefmas caufara dam no as cepas , e ao fru(fto , ou fendo imperfeito , ou produzindo hum vinlio de interior qualidade (i). § III. As cepas aindaqne fao huns corpos organizados , naa tcm corao os animaes em fi mefmas hum principio iii- trinfeco do movimento dos feus fluidos ; logo fao ne- ceflarias caufas externas , que o poflTao produzir. Eftes Tom. 11. C agen- ( I ) Quando as vmhas recebem huma humidade fuperflua procedida ou dos annos ferem muito chuvofos , ou da nacure- za , e fituagao do terreno , os vinhos fempre fad de ma ^jua- lidade , e degenerao em multaa cnfermidades. agentes nao poJem fer outros fenaq os faes , a humlcla<* ce, c o ar modificado coin o caior. * Os faes attenuando, e diyidindo humas particulas^ c reduzifidd outras a Jiuma fubftancia faponacea fao tam- bem confiderados iuins inllriimcntos mecliauicos , que fa- zem mais pronipta a Hutrigao , e vegetajao das cepas (i). Hmna proporcionada huinidade lie tnmbeni mult<> CTcncial para a vegctafao , e nutrijao das cepas (2) y as quaes na6 f6 pelas raizes a recebcm do terreno , mas fanibem veftidas com as fuas follias abibrbem a agua da atmosfera com huma forja maior do que as ouiras arvorcs ; e fendo calculada a forja , com que as outras Srvores chupao a humidade atmosferica , maior do que aquolla que caufa a preflao de huma columna de agua de fere pes de altura , claro fica fer muito maior a lorja com que as videiras tirao do ar a humidade, e os tntiis adubos atmosfericos. Daqui faciimente fe pode dar a razao , porque nas fendas dos rochedos fe obfer- 7a6 cepas muito vigorofas.. O (i) Entre os faes o acido cretofo , ou cnz mephytico influe tn\vro na vegctafao das cepas , porc]ue das arvores fao eftas ■aqucllas, que rranfpirao huma grandc quantidadc de ar puro ( fegundo as experiencias de Ingenhousz ) , o qual pela maior parte he devido a decompofifao do gaz mephytico , logo efte he abforbido pelos poros Inhalanres das cepas , e decompofto' ^elis mcfmas. Daqui fica facil concluir , que o mefmo nao I6- •jmeite contribue para fua nutrifao, mas lambem facilita o mo- *tmento dos feus fuccos. (2) Memorias de Agricultara da Real Acadcmia das Sciencias. ^e Lisboa pag. 142. §.2. E tion avantageufe du midi , negligeant toutes les autres ; on en T cultive la partie la plus balTe jufques a la hauteur de deux a cent pieds tout au plus. Sur tout le terrein deftmc .vox vi- » gnes , on eleve de petits murs a hauteur d'appui a la diitan- "» ce de quaere a cinq pieds , les uns au-deCus dcs autres. Ces 31 murs fervent a plufieurs fins, car primierement . en arretanc 31 les terresj ils esnpechen^les vignes d'etre dcchauflces 3 en i4 M E M R I A f § XV. He tanibem conveniente , que os fobreditos terreno*^ fiqucm abrigados dos ventos fortes o mais que puder icr , porqut* I. quel)ra6 as varas das cepas , de que fe ici^ue grave damno tanto a eilas , como ao fi u*flo , inuito pnncipalmcnte nas vinhas novas , II. arrancao muitas vczes as videiras ; III. no tempo da florelcencia lanjao por terra o p6 fecundance dos ellames. § XVI. Como com prefcrencia fc devem efcolher para a plnntajao das cepas aquellcs terrenos de declivio , que toren-. expoftos aos raios do Sol o mais tempo que he poiTiv^el , rica claro que le devem excluir aquelles que fo- rem fombrios , ou por eftarem ccrcados de muitos arro- redos , ou de moiites levantados muito circumviliiihos, c que interrompem os raios do Sol. Porque no primei- ro cafo falta o calor neceflario para fe formar perfeita- mente o muco das uvas , e as coiitinuas exhala^oes , que iancao fora os fobreditos arvoredos , carregao a vinlia de muita humidade j e por ilfo ficao mais facilmente lu- jeiros ao damno que Ihes pode caufar a geada. No fe- gundo cafo as cepas fobem muito, eo viniio he de in- ferior qualidade (r). Sao igualmente fombrias as ladei- ras )) fecond lieu ils retiennent les caux des pluies , qui fans ce- )i la auroicnc coule fur la terre fans la penetrer ; en fin ils » augmencent aux ccpi line plus grandc chalcur. 11 eft vrai que )i comme ces murs font faits de pierres fcclies , c'eft-a-dirc fim- 1) mctriqucment arrangces fans chaux ni mortier , ils s'en ccroulent « qiicK]ne fois dans Ics grofles pluies , mais Ic mal eft bientot J) reparc. n (i) He o vinho dc inferior qualidade nno fo pelo pouco ca- lor , que tern cites terrene; , mas tambcm por fe carregarem a^s cepas de muita humia efcolha do terreno em quanta a fit a natureza, § XVIII. NA6 f6;nente fe deve attender a iitua^ao do ter- reno , mas tambem a fua natureza j por illb de- vecno> advcrtir , que a terra no eftado terrellre , e iem que forme novas combinajoes com outras fubftancias nao podj entrar pjlos poras das cepas , e fubir pelos valbs tcnuifTi.nos das mefmas : logo lie incapaz de Ihe dar nu- § XIX. Logo as fublancias, que podem alimentar as cepas, ou "por eitas fao abforbidas da atmosfera , ou l"e achao depofitadas no terreno , procedidas parte da decompofi- ^ao dos aaimaes , e vcgetaes , parte porque as tern re- colliido da atmosfera. § XX. Como eftas fubdaticias que nutrem as cepas, e adian- tao a Ilia vegetajao , fe contcm em maior quantidade iia terra vegetal , fegue-fe , que efta convem mais que as outras para a plantafao das cepas , I. pelos faes (i) , oleos , e fubllancias gazofas , que contem ; II. como he muito porofa , he mais peoetrada pclo calor , e da hu- ma facil cntrada as particulas nutrientes j IIL o lavra- dor tC'iSo feito alg'rn\3 jonadas , c obfervado ifto mcfmo que digo. iS!.i5 OJtr.ts coTlti mc hivcr o melmo inconvenience , porque orJ:luric^•^^c^re Oi LavraJores olhao mais para a quantidade do vinSo , do que pira a qualiddde.. (i) Pro/a-le iilo mefmo pelas experiencias dc Home, refe- fidas no feu Traiado Dos prncipios da vt^eta.'ao, Qbfervou , qiic a terra vegetal mifturada com o nitro dctonava , e que a mefmi cooi o vina^rc cffervclciai. e tazia huma fubftancU neucra. E c R 6 M I cr A s. a/ dor com a cultura della faz huma defpeza inuito menof (i). § XXI. Deftes principios podemos legitfmamente concliiir , que devem fer efcolhidos para a planta^ao das ccpas aquelles teiTenos , que na6 lomente tiverem huma con- veniente fituagao , mas que forem tambem formados d.e terra vegetal , muito principalmente fe for de huma cor negra , e Ian jar de fi hum cheiro agradavel (2) j porque efta terra (3) tem maior quantidade de particuJas nutri- tivas , e como abforbe muito os raios do Sol , faz aug- mentar o calor do terreno. Porem fe a terra for dema- fiadamente folta (4) ( chamada por Linneo Humus pau- perata) , nao convem fazer nefta a plantajao , fern que primeiro feja corrigida j ou quando iflo feja muito dif- ficultofo ao lavrador , deve eite efcolher aquella planta , que for mais acommodada a natureza do tereno. D ii Se- (i) n Sed hoc in totum ad illud , quod vineis praccipue eft 'Didoneum, proprle confider^alidade ■■, porque le o terreno he conveniente , mas nao he iavoravei ciima , os vinhos fao de muito inferigr C|ualidade ^ i^o Memorxas preferir-fe os fobrediros terrcnos a outros quaesquer. Ac- cvefcc mais o lerein muitos dcftcs , que prodiizcm vinlias excellentcs , abfolutamejue cilercis para outro qualqucT frinflo. Eu teiilio villo terras povoadas de cepas vigo- rolas J que certamcnte na6 erao capazes de crear o mais infignificantc dos nolTos arbuftos. § XXVI. Como OS terrenos magros com as propriedades rc- feridas lao os mais convenicntcs para a plantajao das cepas cm Pormgal, nao fo por produzirem vinlios mais generofos , mas porque ate muiras vezes lao incapazcs de dar ourro qualquer tVudo , podemos concluir por Jium legitime corollario , que as planicies (ainda que lejao for- madas de terra vegetal ) vizinJias dos rios , ribeiras , ou outras quaesquer , aonde fe coiiTerva huma natural frefcu- ra , OS terrenos argiliaccos • ( i ) , ou barrentos (o que tu- e muitas vezes as uvas nao chegao aamaJurecer, como acon- tece em muitos Lus^ares delle Reino , que vulgarmcnte chamaio terras frias , ou terras de ferra. Sc porem o clima he favora- vel , e a natureza do terreno nao he conveniente , os vinhos fao muito fracos , e de pouca durafao , como aquclles que dao as cepas creadas nas terras humidas , e campos regadios. Logo o cultivador que atcender mais para a boa qualidade do vinho, do que para a quantidade , antes de plantar as cepas deve conlultar a natureza do terreno , clima , e eftado da atmof- fera. (i) Nasladeiras, aonde houver argilla mifturada emjufta pro- por9a6 com a terra vegetal , fe poJem plantar as cepas , e ifto mefmo coifelTa Colum. lib. ?. cap. ii. § f>. » Crerofa humus n utilis habetur viri , nam per fe ipla creta , qua utuntur figuli , « quamque argillam vocant , inimicillima eft.i) He pois util a argil- la mifturada , porque fendo pura, caufa muitos damnos , como refore Colum, lib. ^. cap. it. § 2. « Tradit Julius Graccinus per « denfam humumcelcftcis aquas non forberc , ncc facile perflari , » facillimc pcrrumpi , &prxberc rinias , quibus fol ad radices ilir- a ptum penetrct. » E ci o N b M I c A s. 9.1 tudo vulgarmente chamao terras fortes , e de fiihftancia) nao devem fer efcolliidos para a plaiuajao das ctpas. § XXVII. Para nos convencer mais dcfta verdade, bafta C6 re- fledir , que nas terras fortes falta o calor neccllario pa- ra a perfeicao do fucco , por ferem ciilxrtas com os multos ramos das videiras j conferva-fe Jiuina humidade fupertlua , e maior do que necclTitao as cepas (i), por- que a eltas pouca mais Ihes bafta do que aquelia , que recebem da atmosfera. Donde acontece , que o vinho he iim em maior quantidade (2) ^ mas muito fraco , e degcnera ordinariamente em varias enfermidades. Loga podemos eftabeleccr como huma regra geral , que os cam- pos J e vallcs , que podem produzir figo , milho , ceva- dii , hortalices , e muitas paftagens nao devem fer occu- pados com viniias , porque eftas criao-fe muito bcm nas terras magras , que fao incapazes de dar os referidos frurtos (3) . § XXVIII. Em confequencia difto poiTo afErmar , que o ccflu- me (i) Muito principalmente fe os annes fao chuvofos. (2) )) Fere autem omni ftaiu locorum cainpeftria largius vinum , i led jucundius afferunt collina. « Colum. lib. :^. cap. 2. § <^. (^) i\'os terrenos formados de ocras , muito principal mtnte de barro vermelho , de que ha n,uitos nefte Rcino, nao convem plantar as cepas , fern que primeiro feia5 rorrigidos. Ifto mef- ir»o aHirma Colum. lib. 5. cap. 11. § 5;. )) 'Nigrum larren & ru- » tilum fabulonem, qui {it humidae tcrrac permixtus probaverunc » Antiqui : nam carbunculofum agrum , nili ftercore juves ,macrasi » vineas elricere dixerunt. Gravis eft rnbrica , & ad comprchen-- j dendum radicibus iniqua. Sed alit eadem vitem , cum tenuir , 3) verum eil in opere diillcilior , quod neque humentcm fodere pof- j) fis , quod fit glutinofiifima ; nee nimium liccam , quia ultra tna<- 9. dutn praedura. u 5a M E M O P T A q me introdr.zido em Portug.il do plantarem muitas das vi- niias no> tcrrenos forte.-;, e campos que podem produzir trigo , cevada , milho , legumes, he nocivo ao bcm pu- blico (i) , c aos proprietarios , porque aquclle interellU na (i) O Senhor Rci D. Jofc, attendcnio as cxtraorJin.uias di- minui96es que fe tinh>i6 teiro na lavoura do pao , jK-la dcior- denada cubifa do5 que ( Icm reflcxao , nem diftCrnimtnto ) rem plancajo com bacellos 05 campos , que antes proJuziao grandes quancidades de trigos , cevadas , milhos , e legumes , por Icrcin p ira dies tao naturaes , como improprioi pira as vi- n(ia<; , que uas terras dc canipo fo produzem vaihos vcrdos , e riiias , OS quaes pela lua fraqueza , nao podem fazer conta aos mclmo; por qjem Tao tabricados ■■, nem dcixar de caular hum.i perniciofa , e coufideravel talta nas lementeiras de pao tanto jTiais neceilarias , que carecendo o Reino delte quotidiano ali- mento de tal forma , que he precifo que para elle fe tranfpor- te doi paizes eftrangeiros em grandes quantidades : Manaou , que todas as vinhas , que le tivelfem plantado nas margens , e campinas do Tejo , e em terras dc Paul , ou Lifiria , desde o rio de Sacavem ate Villa-Nova da Rainha , achando-fe da ef- trada piblica , que vai da Povoa de D. Martinho para a ban- da do Sul , e rio Tejo , folTem logo arrancadas , e reduzidas a terras de pio no termo de tres mezes , contados do dia da pu- blica9ao defta Lei , dcbaixo da pena do perdimento das terras a favor de quern as denunciar, para as ficar fabricando, ou ar- rendando em beneficio feu por tempo de nove annos , obri- gando-fe a arrancar ri fua cufta as fobreditas vinhas , para as ter- ras dellas ferem reduzidas a terras de pao. Item. Mandon , que o melmo fe praticalTe identicamente , e debaixo das mefmas penas , com as vinhas , com que fe tem oc- cupido as margcns do Tejo , e campinas de Vallada , de San- tarem , e da Golega com prejuizo , e efcandalo publico. ftem. Mandou , que o mefmo allima ordenado fe obfervalTe identicamente em tudo , e por tudo a refpeito das margens , e campinas dos rios Mondego , e Vouga , e nas mais terras que forem do Paul , e Lifiria , e por iiTo tao proprias para pao , como incapazes de produzir vinhos de boa Lei. Item. Mandou , que os Corrcgedores , e Ouvidoves das Co- imrcas deftes Rcinos , nas Corrcifoes , que lizerem , inqui- rao annualmente fobre elle abufo, e o fa9ao emendar na for- Economical. 33 na maior abundancia dcs rcferidos frucftcs ( drs quaes carece muito o Reino defoima, que para efle lao tian- fportados dos pajzes eflrangeiios em grande quartidadc) , e eftes com os rrefmcs tem irais fegura a fua iubiUlen- cia , e plaiitando as vinhas ras terras magras tcrao fim menor quantidade devinho^ mas ecmpcnlada ccm a iua jnaior reputagao , qualidade , e extracjao. § XXIX. Nas tres Provincias do Norte tenho eu vifto prati- cado efte abufo. Em Tras-os Montes , e Beira ie cbfer- vao muitas terras fortes capazes de prodiizir trigo , ce- vada , milho , e legumes iinicamente cccupadss ccm vi- nhas. Os proprietarios dtftas , que fomente Ihes lembra ter maior quantidade de vinlio , engan^ao-fe certam.ente nos feus verdadeiros interefles (i) , facriticando as vinhas OS feus melhores terrenos , e deixando muitas vezcs in- cultas as terras magras. Tom. II. E § ma affima declarada. Alvara de z6 de Outubro de 17(35. E co- rro a excep9a6 defte Alvara foi depois derogada por outro de 18 de Fevereiro de 1766., fica fendo geral a dilpoiijao da refe- rida Lei. (i) O Invrador tin f.uma folida ricjueza das terras fortes re- duzidas a pao , porque dnqui coihe o trigo , o milho , a ceva- da , o linho , o painfo , os legumes , as borralices , augmen- tao-fe OS paftos , crefce o numcro dos rebnnhos , tem final- mente a fua cafa farta , e abundante. Das vinhas , que occu- pao fomente as fobreditas terras , recolhe- hum vinl o muiso fraco , e em alguns fitios ra5 ruim. que nao podendo confer- var-fe por alguns mezes fern que dcgencre em vmagre de ma. qualidade , eftima que Iho comprem por hum n-odico pre^o , que muivas vezes nao paga as defpezas da culrura , e nos an- nos chuvofos , as uvas das fobrediras vinhas Jipodrecem de ral forma , que o lavradoi n.io pode receber proveico algum ck> fea terreno. *» MemoiiiaS' § XXX. He grande o abiifo na maior parte da Provlncia do Minho , aonde os melhores terrenos fao occupados com dirterentes efpccics dc vidciias cafadas com os feus car- valhos ( que vulgarmcute chamao vinlias de enforcado. He elLa pratica adoptada pelos Invradorcs da dita Provin- cia , porque deftc modo recolhcm huma maior quantida- de dc vinlio , fern fazer outra defpeza mais do que a ■da vindima, e p6da , a qual em muitos lugares fomen- te fc faz de dous em dous annos. § XXXI. Ainda nos annos dc mais calor os vinhos da maior parte do Minho fao muito fracos , e mais inferiores , ■que aquelles das vinhas fortes das outras Provincias , de forma que o vinlio , que fe tira de huma ccpa cafada com a fua arvore , nunca ja mais pode iguahir na bon- dade aquelle de huma vinha baixa , fendo iguaes as cir- cunftancias \ e para dar huma clara dcmonftrajao della verdade , bafta attendcr as feguintes reflexoes. - I. Nas vinhas de enforcado como as uvas eftao mui- to cubertas com as folhas das arvores , e com as fuas proprias , nao podem receber direcftamente os raios do Sol , e por confcqucncia nunca chegao a amadurccer per- feitamcnte , nem tao bem como as uvas das vinhas bai- xas , e vizinhas da terra , que rccebem melhor a reflexao dos raios do Sol. II. As videiras abforbem a humidade da atmosfera mais , do que as outras arvores , e em maior quantida- de de noitc , do que de dia ; efte abforbimento he na razao da maior , ou menor fuperricie , que aprefentao as folhas : logo crefcendo o niimero das varas , crefce a fupcrficie , e na mefma razao recebcm as cepas a hu- midade da atmosfera. Ordinariamente iuima videira ca- fa-. E C O W O M I C A Si ^f fada com a fua arvore , ainda fendo podada , fica com dez partes mais de varas , do qiie fica a videira baixa , e proxima a terra , e por confequcncia aquella ha de abforber dez pnrtes mais de liiimidade , do que cfta , e na mefma razao ha de diminuir a qualidade do vir nho. III. Nas vinhas de enforcado como as varas nao fao incurvadas , fica o canal do iucco em liiiha reda , logo iiefta direcfao Tubira o melmo imperfeito , e mal dige- rido. Ifto le prova pelas vides , que por acafo fe ape- gao as arvores , que ainda mefmo nas terras magras cof- tumao algumas vezes fubir mais de 20 pahnos de altura. Nas vinhas baixas como as vides ie dcbrao em forma de fimicirculo , ou de tres quartos de clrculo , eita ope- racao modera muito a veliemencia do fucco , e elle ad- quire maior perfeijao. IV. As terras fortes das vinhas de enforcado como fao frequentes vezes regadas , e muito aflbmbradas com as arvores , tern hum calor muito menor , do que as mei^ mas terras fortes das viniias baixas. § XXXII. Logo comparando as vinhas de enforcado de gran-« de parte do Minho com as vinhas baixas das outras Pro- vincias , dadas circunilancias iguaes ( ifto he , plantadas tambem em terras fortes , e fendo igual o clima ) aquel- las hao de produzir hum vinho muito mais inferior , do que eftas , e afiim he que fe obferva , porque elle dege- nera em varias enfermidades mais facilmente , que o vi- nho das vinhas baixas. He neceffario hum grande mime-"- ro de pipas para tirar huma de agua ardente da infiaia qualidade , e o refto que fica defte confumo nao pode ter outro , fenao aquelle que Ihe dao os lavradores da Provincia. Ifto deve-fe entender nos annos feccos , por- que nos chuvofos he o vinho hum genero tao inutil , que para iiada ferve. Eii § ^5 M E M O R I A S § XXXIII. Defies campos occupados com os carvalhos cakdos com as fuas videiras, ainda recolhem os lavradores algum milho , que entrc os mclaios coftuniao lemear , porem le €l? ditos campos nao ciliveircm cruzados com o excefll- vo mimero de arvores , podiao com a mcfma defpeza ter quail metade mais de pao cm huns lugares , e o do- bro cm outros ; logo os Javradores do Minho perdem huma graiide parte das Tuas mais Iblidas riquczas com as viiihas de enforcado , as quaes produzcm hum gcne- ro de que o Reino nao precil'a , e em algumas partes tao ruim _, que dclle nao fe pode fazer ufo algum. § XXXIV. Como he racionavel , que o lavrador procure tirar do feu campo a maior , e mais fegura utilidade , que for poflivel , e as latadas , ou cepas cafadas com as fuas ar- vores pollas a roda dos campos nao diminucm quad na- da a lavH^ura do pao , e fempre caufao alguma utilidade ao lavrador (i) ; por iilb fao dignos de louvor aqucUes proprietarios , que a roda dos terrenos fortes , e mais proprios para a lavoura do pao , fazem plantar videiras, que fao mais accommodadas a natureza da terra , e as difpoem de forma, que caufem ao campo a menor fom- bra (i) No tcrmo de Al.ifoes de huma e outra parte do Vouga tenho obfervado as videiras com as fuas arvores a roda dos campos. Deftes colhcm milho , trigo , linho , legumes , e hor- talices ; daquellas hum vinho vcrde , do tjual fe fazem necef- farias mais de de?. pipas para rirar huma de agua ardente de prova de azeire , fegundo a informagao que no mez de ]unh^ ac 1789. me deo o Alambicador da Fabrica do mefmo AlafoeSk Advertindo porcm , que efte vinho he crcado em terrenos en- xutos , e bem fituados , e fern diivida de mclhor qu^lidade que ajquelle da maior parte do Minho. E C 1* M I c A §. ^ l)ra que for poffivel : excepto quando o campo he de muitos quinhoeiros , porque adoptando cada hum delles efla pnitica,, cahe-fe no mefmo abufo de fe dhninuir muito fenfivelmente a lavoura do pao. De toda a dou- triua exporta fe podem deduzir as feguintes Regras geraes. R E G R A L As cepas abforvem a humidade da atmosfera mais , que as outras arvores j por iifo fe criao entre as fendas dos rochedos. R E G R A II. Como as videiras recebem muita humidade da atfnof-* fera podemos dizer , que para produzirem vinhos gene- rofos nao precifao fenao de calor , porque nos annos feccos OS vinhos fao de melhor qualidade. R E G R A III. Ha lugares em Portugal proprios para a cultura das vinhas , e ha outros aonde as uvas nunca chegao a ama- durecer. R E G R A IV. Nos lugares proprios para a cultura das vinhas , nin- guem faja a plantajao das cepas precipitadamente fern pi'imeiro e^olher a fituagao mais convenientc , que de- ve fer aquella , onde o Sol durar o mais tempo que he poflivel. R E G R A V. Moftra a obfervacad feita ncfte Reino , que as la- deiras viradas ao Nafcente , e ao Meio dia , ou fejao vizinhas do mar , rios , e ribeiras , ou fe achem diftan- tes , devem fer efcolhidas para a plantacao , olhando os la- 3? ' M E M O R r A s lavradores mals d boa quilidadc do vinho , do qu3 4^ fui maior quantidade. R E G R A VI. Nos fitios nonde liouvcrem vinhas , que produzao vinlios de optima qualidade , bafta que o lavrador exa- mine le Jie Icmclhante a naturezvi da terra i calb leja , (em mais outro cxame , j^ode o lavrador fazer a plan- tajao das cepas. R E G R A VII. As terras magras , pedragofas , e de area ( fcndo mifturada em conveniente proporcao ) devem ler prefe- ridas para a culiura das vinhas , porque com eflas lucra ordinariamente mais o lavrador , do que com outro quajquer fruClio j que das mcfmas terras pofTi recolher j havendo principalmenre muitas que produzcm cepas vi- gorolas , e incapazes de crear o mais infignificance dos noil OS arbullos. R E G R A VIII. As terras fortes capazes de produzir trigo , cevada , m.ilho , linho , legumes , e hortalices , nao devem ler oc- cupadas com vinhas , porque com eftas dimiTiue-le a la- voura do pao , os lavradores privao-fe de huma riqusza mais Iblida , e o bem commum do Reinc^ fente hum gravilTuiio detrimento. R E G R A IX. S.' em alguns lugares da Provincia da Beira , e Tras-os Aloiites foflem arrancadas as vinhas plantadas nos territories aflima referidos , occupando-fe fdmente com as ditas vinhas as terras magras , e pedragoias , cref- E -C O N OM I C A S ap Ct'efceria mais a riqueza daquelles povos , e teriao mais fegura a lua fubiiilencia. R E G R A X. Se OS melhores cainpos do Minho nao ellivelTem occupados com Jium exceffivo niimero de carvalhos jun^ tos com as fuas videiras , fem aiigmentar a defpeza , cref- ceria muito a lavoura do pao naquella Provincia. R E G R A XI. As videiras cafadas com as fuas arvores , as parrei- ras , ou lata das poftas a rod a dos campos , e terrenes ^fortes , caiifao utilidade ao lavrador , c nao fazein hu- ma diminuijao muito fenfivel na lavoura do pao. ■ ■^— . II , P A R T E ir. C A P I T U L O IV. Do tempo , e preparagao do terreno para a plantacaS do bacello. § XXXV. EScolhida a fituajao do terreno , e a fua differente natureza , fegue-fe a plantacao , a qual nao fera feita J fem primeiro fazer efcolha do tempo conveniente. § XXXVI. Nos terrenos fortes , e frios , querendo nclles fazef a plantagao das cepas , fera feita em Feverciro , Marco (i) ' fo- (i) Porcjue fendo ffeita no Outono , os ditos terrenes confer^ ■^■:^ M E M o R I A s fobrcvindo dcpois grandes calorcs , ferao regadas as novas ccpas com a agua da chuva , podcndo Icr (i) , a ialtar cl- ta , outra qualqucr. § XXXVII. Scndo porcm magros c fcccos , fe fara a fcbrcdita plantafao cm Outubro , e Novembro ccmo bem adver- teai Columella, Palladio, e Virgilio (2), porque eftes toiTcnos como nao confervao a liumidade yor miiito tem- po , nao apodrcccm as i.ovas ccpas , mas antes icctbtin por lodo o invcino as inliucncias da aimosfera. § XXXVIII. Determinado o tempo , dcvc-fc prlmciro que tudo preparar o teneno dcllinado para a plantacpo j por ilTo couvem olhar para o eftado cm que prtlentemcnte fe acha , porque le eftlvcr inculto j rin-eir?mente fe deve lavrar (3) algumas vezcs ; 1. paraque aiicnuando-fe , e di- variao em il todas as aguas do inverno, as c^uaes encharcadas , facjimenre fariao apodrccer o bacello. (i) A agiia he hum i;rande dilTolvente das particulas nutritl- vas , QUO conrcm a armosfera. (2^ )) Sequirur opus vineae conferendx , (]uac vel Vere , vel Au- » rumno tcmpellive deponitur. Vere melius , (i ant phivius , aiit 3) trigidus llatus Cxli elt , aut ager pinguis , aiit cnn-pcftris , Sc I uliginofa planiciesi rurfns autunino fi ficca , fi calida eft aeris . »qua!iras, li civilis , atque aridus campus ; fi maccr, prTnip- M nifve collis. Vernsc politionis dies fere qnadraginta lunt ab idi- 3) bus Februarii ufquc in xquinoc^lium , rurfus aunm-nalis ab idi- 5) bus Oi.4obris in calendas Dccembris. » Colum. lib. 5. Ci!p. 14. § T. Palladio m Mcnfe Fcbruario lib. ^. rit. 9. § i. in Wcrvfe Marrio lib. 4. tir. i. § 4. E Vire. Gccrg. 11. 51.5^. dia Optima vive^is fntio eji , cum vcrc ruhemi Candida vcnit avis , loncis invifa coltdnis. Prima vel awttmni fub frigora , cum rapidus Sol Nondnm hycmcm cotitigit cquis , jam prxtcrit £jlas>^ (0 ...... . Tir ram nudto ante vwncntu E c o TT M I c A s; 41 dlvidlndo-fe o terreno, fique efte no eftado de receber as influencias da atmosfera j II. perecem as planras , ^ue poderiao roubar o nutrimento as novas cepas ; III. eilas mais facilmente eftendem as fuas raizes j IV. dimi- nue-fe muito a defpefa da plantacao. § XXXIX. Nao fe deve attender fomente fe o terreno he in- culto , mas tambem examinar fe o mefmp he compoilo de differentes bancos de terra : fe aquella do banco in- ferior for muito apertada , ou barrenta , ou demafiada- mente foJta , nefte cazo fe fara a miilura de forma , que o terreno fique com Jiuma moderada uniao das fuas par- ticulas, (i) § XL. Se houverem bancos de pedra logo immediatos a fu- perficie do terreno , fendo efte inciinado mais de qua- renta graos lie conveniente que fe rompao primeiro os vallados , e com a pedra , que for fahindo (e formarao paredes em ccrtas diftancias , as quaes devem fer deter- minada-s pelo lavrador iegundo a inclinacao do terreno ; advertindo porem que nos referidos intervallos deve li- car a terra fenfivclmente inclinada paraque mais facilmen- te fe dilfipe a humidade. § XLI. Eftes terrcnos incultos diz Columella que ainda fe devem preferir aos cultivai^js , porquc eftes tem ja per- Tom, 11. F di- Excoquere , 'b' magnos fcrobihts concidere monies i Ante fnfmatns Aauiloni ojiendere glehas ^ ^Y^m Utum infoaias vitis genus. . . Virg. Georg. III. 25-9. (i) Ifto fe praticara havendo neceflidade ; porque fe o ban- co fuperior , que conflinie a fiiperficie do terreno for conve- niente para boa vegecajao das cepas , fera fuperftua femeihantc miilura. ^1 "M 'E "MO R 1 A S." dido o mitrlmento , que em fi continliao , c cftii tamberh enlraquecida a prophcdade , que os mefmos tinhao de abforver as influencias da atmo^fera ; porcm deftcs flio OS peiores aquellcs aondc a viiiha tcm acabado pela fua muira velliicc , ranto pclo inconveniente ji rcferido , co- mo por Ic achar a terra aiuda cmbaragada com as raizes d4s ccpas veliias (i). § XLir. Eflas regras dos antigos Agricultores fobre o tem- po da plantajao do bacello , e preparafao do terreno lao faceis de executar ; porem ncftc Reino o tempo , que mais ordiuariamentc efjolhem os Agricultores lie defde o fini da vindima ( porque antes he impraticavel ) ate ao Natal, e ainda por todo o Janeiro, feja qualquer que for a natureza do terreno ; e no cazo de cfte cftar inculro , e cheio de arbiiftos , nao Ihe fazem commum- mente preparajao alguma. Dondc acontece , que em mui- tos annos fecca , ou apodrece a maior parte do bacello (2) , por nao elcolhcrem o tempo da plantacao relativo a naturcza do terreno , e /e retarda hum ou dois annos , por faltarcm com a pieparajao , que fe devia dar a ter- ra em que fe planta o bacello , no cazode eltar inculta, e clieia de arbuftos. §. (i) )) Illud aiitiqtiiflimum cenfemas rudcm potius ejigendiim i5agrum, fi fit taculcas , r|i)am ul>i fwerit fegcs , aut arbuftiim. » Nam de Vinctis. oux lonj^o firti exolcveruiu , inter omncs .uicto- >> res conftitit pedima clTc , fi rc*rerc velimus , quod et infcrius )i (bliim pluribus radicibus fit impeditum , nc veluc irreticum , & « adhuc rron amiTcric virus, Sc cariem iUam vcruftacis, quibus j» hebetata qtrafi aliquibus venenis luimus torpcat. « Colurti, lib^ » 3. cap. II. § 2. (a) Se em Novembro plantao as ccpas cm terras , que con- fervcm muico a humidade , facilmente apodrcccm com as chn- ▼as do invcrno , e fe fazem a plaiuafao em Janeiro nas ter- Ms migras , e pcdragofas , e depois faltao r.s chuvaij , fccca * maior parte d% bacello. E C 57 b MIC ^^s. 43 § XLIII. - Querendo poietn que outra vez fejao plantados de vi^ nlia OS referidos terrenos , primeiramente devem fer arran- cadas algiimas cepas , que ainda nos mefmos fe encontra- rem , depois ferao cavados profundaniente de forma , que as raizes das cepas velhas , que nos fobreditos fe acha- rem enlajadas , fe arranquem , e juntas em diiferentes monticulos fe queimem , e logo os fobreditos terrenos fe cobrirao de ellerco , que depois fe mifturara com a terra dos mefmos ; e defle modo ficarao mais no eftado de melhor receber o beneficio da atmosfera. Em o anno feguinte fe praticara o meimo , e no imediato ; e le fa- ra a plantacao. (i) § XLIV. Se OS terrenos nao fomente forem incultos , n~$.s clieios de arvoredos , efles devem ler arrancados , e exportadas para fora do teneno, antes que fe faja a planracjo ., porque depois fe calca muito a terra , e fica inhabil pa- ra receber o beneficio do ar atmosferico. (2) F ii CA- (i) » Nam fi neceilitas facere cogit , prius quidquid eft re- » fiduae vitis exiirpari debet, deinde toium lolum llcco fimo, J) aut fi id non iir , alterius generis quam recentiflimo fterco- )) rari , atque ita converti , & diligeiuifiime refolTas omnes radices )) in fummum res^eri , arquc comburi : tunc rurfus , vel ftercore ve- )) rufto , quia non gignir hcrbas , vel de vepribus cgefta humo » paftinatum large conregi. « Colum. lib. ^. cap. 11. § 4. (2) )) Ac primum ex omni five arbuitivo , five filveftri loco , » quern vincis deftinaverimus , omnis frutex , atque arbor crui , 8c 55 fubmoveri debet, ne poftea foilorem moretur , neve jam paf- » tinatum folum jacenribus mollibus imprimatur, & exporcantium » ramos , atque truncos ingrelTu proculcetur. Neque enim parum » re fere fufpenfiirimum effe paftinatum , et fi fieri pollit veftig'o " » quoque inviolatum , ut mota scqualiter humus novelli feminis « radicibus , quamcumque in partem prorepferint , moUitcr cedat , ■ » ne incrcmenta duritic lua reverberet , fed renero velut nutncio JU - M E M O R I A S * C A P I T U L O V. Do modo como as ccpas fe devcm compajfar, § XLV. PHeparado que for o tcrrcno fe devcm trajar as fi- Iciras das ccpas , dc que o racfmo ha de conflar j as quaes devcm guardar dillancia determinada entrc fi j c elia mefma tambcm fe obfervani entrc as ccpas de ca- da huma das filciras j por iflb dcvcmos advertir que as ccpas devcm ficar compalfadas , porque deila pratica fe fegucm muitas , c graudes utilidades , I. As raizes fao huns dos principacs orgaos da nutrijao, as quaes nao en- contrando outras fubmini{lra6 as cepas maior quantida- 3ie de nutrimento j II. As videiras tendo hum efpajo ( v» g. ) quadruple do ordinario feni afTim o feu fru- iflo , porque o fucco , que ^c emprcgaria em formar ma- /deiras fuperfluas , redunda cm maior quanridadc de fru- ■dlo i III. A tranfpiracao he em razao da maior fuperficie das plantas \ feiido metade menor a fuperficie das cc- pas, mctadc mcnor fera a fua tranfpiracao, e por con- lequencia menor fera a perda do fucco ; IV. O ar , q Sol circulando livrementc as cepas nao foffrem que a hu- manidade fe demore por muito tempo , e dcfle modo f? acautelao os inconvenientcs da geada , e putrefajao , e as uvas adquirem Jiuma mais perfcita madureza (i).. A_ )) finu rccipiat, & cxielles admitr.iu imbres, cofquc alciuiis fe.- » minibus difpenfet , ac fnis omnibus partibus ad cducanjnm pro- J lem novani confpirec. ;) Colum. lib. .^. Cl.rp. i^. § 6. 7. Omnia jvit paribus tirimcris daiictifa viarmn : Non animitm modo ttti paj'cat profpedns inancm ; S:d quia non aliter vires dabit ommbiis iCqnns Tina ; ncqii: in va:imm potcnait fe cxtcndcre ra:ni. V'itz,. Ggor^. II. 284. E :c :n o m: 'i 'lb '^jC s. ■ ^ § XLVI. A diftancia , que deve haver entre huma e outra ce- pa J ha de fer de dois pes Francezes , (i) e quatro (2.) entre huma e outra fileira , defta pratica fe leguem as .utilidades ja referidas , e iilo mefmo fe confirma com .as feguintes oblervajoes ; por muitas deftas convencido JVLaupin , que as vinhas tendo as cepas muito juntas , je fem ordem produziao mais defpefa , e menor quanti- .dade de vinho , no anno de 1761. metteo todas as cepas .em quatro pes de diftancia entre huma, e outra, e nos .annos futuros a pezar de ter menos cepas teve mais vi^ nho , e as vinhas mais fortes (3). Mr^ ': (i) Tres palmos. (2) Seis palmos. • (^) « ]e fis eclarircir le refte an commencement d'Oi5lobre cTe )) 1760, & mettre autant que ccla fut polhble tous les ccps at 1) quatre pieds I'un de I'aurre en tous fens- Cctte operaiTon T) faite trop precipitamment , fut trcs-raal executee ; on confer- -» va de preference tous ies ceps qui fe troverent en alignement , » fans obferver s'ils etoient bons , ou mauvais. On en atracha J) beaucoup qn' il falhit laiiTer , la plus grande partie des ceps » fut plantee a trop peu de profondeur. Tout fut fait de manie- » re en fin qu' on ne pouvoit guere faire plus mal , cependant « en 1762. mes vignes pour le plus grand nombre pouiferent , » malgrc la fechercife d'annce , avec la plus grande force , 8c y> plus qu' aucun autre du canton. En 176^ ces vignes qui , a )) difterence d'annce precedente , avoient ete taillces a fruit com- ■» me a bois me donnerent les unes dans les autres , a raifoa T) dc I'annee , & de ce qui m' en reftoit autant que dans les » annces precedentes. Plufieurs pieces de vigne celles qui etoient 35 encore dans leur force, & qui par cette railon avoient moins )) fouffert da defaut du choix des ceps r me donnerent memc X plus qu^ en 1759, Be 1760 annees pourtant bien plus abori- 7) dantes qu' en 1^6^ , 8c GU les vignes avoient les srois quarts » dc ccps de plus. )) La meme chofe cfl: arrivee en 1764. Dans ces deux det- 7) niercs annees mes vignes poufTerent tcllement en bois , 8c 5) en fruit, elles etoient fi belles qu' on ne pouvoit les voir fans ■» etonnemenx. )i 4^ Memorias^ § XLVII. Mr. Tourqucux tcndo noticia do novo metliodo que tinha publicado Maupin a refpeito da cultura da vinha ic dcrenninou a fazcr a fcguinte tentativa. Dil'poz efte Mngillrado as ccpas em fileiras diftaiUes Intmas das ou- iras cjuatro pes , e cada huma das cepas diftava da im*- mediara dous p6s. Cortou todas as outras que nao en- travao em cfta difpofijao , e fe alguma das fobreditas ce- pas aflim difpoflas produzia fru^fto de inferior quajida- de era lanjada fora , e o ieu lugar lubftituido por algu- ma das vifinlnis , que leria arrancada lenao tivcfTe efle ufo. Os efFeitos , que fc feguirao defta experiencia , fa6 rcfcridos em huma Curta que o dito Tourqueux efcreveo a Maupin como fe pode ver na nota (i). Def- (i) Paris le 7 Dcccmbre 1782. :i ]e voudrois bien , Monfieur , pouvoir voiis donner avec exa- )) ditiide ce detail que vous me dcnianJcs fur le produic de la « vigne , que je fais culciver fuivant \ os principes ; mais de- ); pais quatre annees , oblige de pafler a Fontainebleau le mois )) d'Oi5lobre je n'ai pu me trouver chez moi dans les temps des )) vendanges. Je ne puis done vous communiqucr que Ics obler- •0 vations generales que j' ai faites moi meme dans les primic- )) res annees. )) L'anciene vigne , qui a etc cclaircie en votre prefence , n eft plantee dans une terre forte trcs-foide , Sc rres-humide : » la partie edaircie qui eft jufte la moitic de la piece n'a rcju )) aucun engrais, I'antre moitie a ete fumee aiTez reguiicrement « de des annees I'un : la partie claire eft fituce plus tavorablc- «ment, & mieux expofee, que autre qui eft gence par I'ombre )) d'une avenue de ormes. ■^ La recolte de cette partie eclaircie a ete conftamment ," )) pendant cinq ou fix annees, plus abundante d'un cinquicme que n ccllc de la partie voifine , ou les ceps etoient cependant trois , )i ou quatre fols plus. J'ai remarquc que la maturetc du rai- )i (In ctolt plus tardive dans les rayons cUirs , quoiquc mieux exr » pofees a I'air, 3c au foleil. La vigueur des ceps, I'abondancp »de fevc, & la grolfcur des grapes de raifm etoient la caufe EfC.'O N o M I c A s. 47 § XLVIII. Defle methodo fe tira tambem huma grande vcnta- gem em ferem menores as defpefas , que le fazem na cultura das vinhas , porque menor quantidade de homcns fara a poda , e muito mcnos eflacas lerao iiecefl'arias. Ha fo hum inconveniente de amadurecerem as uvas mais tarde , porem efla diiFerenqa he de poucos dias , e nao embaraja que os vinhos fejao de boa qualidade. § XLIX. Qiierendo que as vinhas , que tlverem as cepas muito juntas, e lem ordem renhao a referida difpofi^ao, fe praticara eila do mo do feguinte. Depois que as ce- pas eftiverem fem as fuas eftacas , fe alinharao com lium cordel as tileiras em diftancia de quatro pes , marcando o referido alinhamento com eflacas poftas em cartas dif- tancias. Em cada huma das fileiras fe deixarao aquel- las cepas mais vigorofas , e que produzirem melhor fru- (fto , que eftiverem dentro do fobredito alinhamento dif- tando humas das outras dous pes ; e todo o mais efpa- ^o , que fepara tanto as ditas fileiras, como as cepas, licara livrc , e defembaracado. Se » de cet eifet facheux dans les annces tardives, Sc dan-s- les cli- « nuts froids comme !e mien. » Dans les terreins plus Icgeres , & des expofitions chau- » des , cet inconvenient ne fert d'aucune importance , mais je )) fiiis convaicu , que certe infiniment meilleure que cclle du « Pays pouvoit encore etre fenfiblement perfeiflionee , fur tout X par la taille , que nos vignerons executent en vrais automates, » Cette portion de vigne etoit perfaitcment belle cette an- X ncc ; je ne I'ai vii que verte , miais elle eft pervenue a unc 7) perfaite maturlte. On m' a dit qu' en mon abfence nos habi- >) tans venoient la voir, comme une curiofitc: A^r. /il'/tupin Ji fcut meritoit de la voir , quifqu' il en reccnno't I'aventage. » Quant a m6i ayant occafion de replanter inctllammcnt des )5 vignes , que j^ai dctruites dcpiiis deux ■ ann,c,ea, je ccnlerva- ? rai ccrccment la meme mechode. M E M R I k-^^ § L. 'iiny Se porem alguma d« de^^as a/Hm dlfpoftas for iHuI- to fraca , ou intriiflifera , c de ma qualidade , lera ar- rancada , e o feu lugar fubflituido pela mergulha de al- giima das vifinhas , que for vigorofa , e fruClifera j po- rem as covas diftinadas para a dita mergulha tera6 pou- co mais , ou mcnos feis pollegadas de Jargura , c palmo c meio de profundidade. § LI. Antes de fazcr a mergulha fe devem cortar todos aquellcs ramos velhos , que parecerem inutcis , mergu- Ihando deftes os meiios que poderem fer , porque ou nao hnjao raizes, ou com muira difficuldade. Tambein fomente fe devem dcixar aquellas raizes , que forem acommodadas a largura da cova , na qual fcrao eflendi- das cada iiuma feparadamente , e nao fobrepoftas ; de- pois fe lanjari terra, e cm primeiro lugar da fuperfi- cie J e illo ate a efpelfura de pouco mais de meio palmo. § LII. A diflancia j:( dcterminada diz Maupln que devd fer fempre conftante , qualquerque for o terreno , aon- de fe faja a plantacao : porem ilio de fcntijnento con- trario os antigos Agricultores , porque Paliadio ellabelc- ce como regra gcral , que a diftancia , em que devem fi- car as videiras humas a refpcito das outras , deve fer pro- porcionada a natureza do terreno , maior nas terras for- tes , menor nas magras , e pcdragofas (i) Columella he de parecer, que as ordens das videiras nas terras ma- (i) « Ubi pin^iiis eft narnra terr.irum maiora inter vires fpatia » relicjuemus ,ubi cxilis angufta. » Pallad. in Mens. Fcbr. tic.p- § to folo paftinaro difponunr , rcrnos pedes inter fingulas viies, » quoquoverfus dimictunt. » Pallad. in Wenf, Fcbr. lib. 5. cic« 3. § i^- , (6') Qiic fao tres pahr.os , finco poUegadas , e hum quarto.''' ',, Quod (i duos femis pedes inter vices relinqui placuerin,, Pal^*- lad. in Mcnf. Febr. lib. "5. tic. p. § iO. (7) ,, NonnuIIi tamen omnem vitem per dinos pedes in quin- ^, cuncem dilponunc, uc more novalium rerra cranfverfs advtr- J, fifque fulcis profcindacur. Id genus vineti non conducit Airri- j^jcolae, nifi ubi Ixtiilimo folo vicis ample incretr.ento cpalur^- j> §'<;• jj Colum. lib. 15. cap. 15.-^ ^, * fo Memorias polfa p6r cm pratica , e examine fe dclle fe pode feguir a udlidaUe , que rcfcre Alaiipia. § LIV. Os antigos cultivadores nao concordao ( como tenho inoftrado ) I'obre a diftancia , que deve hav^cr cntre as videiras , e por ilTo nao he para admirar que o mefmo aconte^a ainda hoje entrc nos , porque em alguns luga- res a dillancia que lica eiure cada huma das bacelleiras , he de quano ate linco palmos ( e cila pratica he a mais adoptada , e referida em Palladio ) , em outros Jie de feis pahiios. Ha tambem alguns Agricultorea , que dizem ter baceiladas muito vigorofas, lendo a dillancia entre cada huma das bacelleiras de feis palmos , e meio , e de fete o referem outros. Porem huma , ou outra expe- riencia , nao pode I'ervir de regra para todos os Paizes de Portugal proprios para a cultura das vinhas. § LV. O que podemos geralmente concluir he , que a dif- tancia entre cada videira deve ler maior nas terras for- tes, do que nas magras , porque naquellas , como as vi- deiras fe carrega6 de muitas varas , he necelfario que fi- quem mais diftantes para que melhor poffao amadurecer as uvas, ficando eftas mais expoftas aos raios do Sol ; nas terras magras deve diminuir a dillancia , mas fempre de forma, que fe obtenha a perfeita madureza das uvas;, e ainda que parega que daqui recebem as cepas pouca nutrijao , devemos advertir , que a maior parte della a. abforbem da atmosfera. § LVI. Quando porem nao houverem cepas vifinhas , que fc poira6 mergulliar, ou por ferem de ma qualidade , ou E C O N O M I C A S. 5t ou multo fracas ; os lugares vazios ferao nefte cafo fup- pridos pela plantajao dos baceilos que tiverem raizes , ou depois pela merguiha das cepas vizinhas aos melnios, porem que fiquem no alinhamento. Quando os fobredi- tos lugares vazios forem fubftituldos com os baceilos , fe Ihes deve ajuntar eilrume accommodado a natureza do ter- rene , para i'erem refarcidas daqueile nutrimentc^^ue-he, roubado pelas cepas vizinhas. ' , :ji^i/;.>;;- " C A P I T U L O VI. Da efcolha do bacello , e propriedades , que deve ter, § LVIL PReparado que feja o terreno, e marcadas as diftan- cias , em que as bacelleiras hao de fer collocadas , deve fazer-fe a efcolha deftas mefmas antes que fe de prin- eipio a plantajao. Primeiro que tudo devemos advertir, que ha dous generos de bacelib , hum que nao tern rai- zes , que vulgarmente chamao bacelkiros , e outro que as tern , chamado vulgarmente barbadas, Eftas fe devem preferir aquelles , porque foffrem mais facilmente as va- riajoes da atmosfera , crefcem com maior brevidade , -e produzem os fruclos mais tempeftivos (i). fj, (i) » Sationis autem duo funr genera , malleoli, vel viviradi- M cis , quod utrumtpe ab agricolis ufurpatur. Plurimis dotibus » prscitat viviradix. Nam minus interit , cum & calorem & fri- 3) gus , & ca:teras tempeftates propter firmitatem facilias fufti- » near. Deinde adolefcit marurius , ex quo evcnic , ur. celerius 3) quoque fit tempeftiva edcndis fruclibus. « Colum. liv. ^. cap. r4, $ 2. e :5. As barbadas devem ter as raizes bem nurridas , e- grolTas , e ferao cortadas todas aquellas , que forcm enrugadas. As novas cepas tendo .is vides grolTas , os vafos deftas como tern maior diametro , ' recebem mais nutriments , epor iflb brotao ramos mais vigorofos. 5^ M E M O R I A S ■ § LVIII. Devem-fc efcolliqr para bacellelras , I. aquellas vi- des. groHas , e maduras , que tivcrem o corticc , on cal- ca , muito unido , e rerplandccentc , a madeira firme , e (que. moilrein hum. verde claro no golpe que nas mef- mas fc fizer ; e terao luima igual grollura , e os olhos grofTos , e dillantcs : 11. devein fer elcolhidas de videi- ras fecundas ; porem nao devcmos julgar da fccundidade da videira pela multiplicidade das uvas , pode fer que efta dependa das muitas varas , que llie deixou o poda- dor i mas fim pelo maior niimero das uvas , que obfervamos em cada ramo , iiotando le de todas as va- ras brotao ramos com fruclo. § LIX. E para que a efcolha feja feita com maior acerto , quinze dias antes da vindima (i) deve-le vilitar a vi^ nha , donde fc pertende tirar o baceiio , e notar todas aquellas cepas , que tiverem mellior fruv."lo , e mais abun- dante : porem o anno , em que a collieita he mcdio^ Qre , he mais conveniente para a fobredita efcolha ; por- que a vinli.i de mi qualidade produz pouco fruiflo , im- pjrfeito , e mal iafonado : acontece porem o contrario Jia, viaha de boa qualidade. (i) » Vicis auc^ni ficrunda , cujus proJjcnicm ftudemus fubmit- » tcr- , non tanca.n icbec ea acilimari , quoJ uvas complures » cxigtt ; parcel cni.n cranci vallitatc id accidere, Sc frcqucncla pal- » ni'tum : ncc tain:;n eain fcracjm dixcrim , cujus fingulx uvae » ia fin^'ili:- far.nj:icis coiifpiciiincur. Sed fi per unumquemquc )> pampia'.i;n maior numerus uvarum dcpendcc ; fi ex fingulis gem- tt mis com;-)luribii> matcriis cum frutlu germinat. Colum. lib. ?. cap. 6. § z. )i Sod hoc figais pofuis per vindcmias eft nocandutn. a Pallid, lib. ]. tit. y. § 7- Economic" a s. 5-^5 § LX. Se a efcolha for feita depois de vindlma , convem obfervar fe os pes das uvas , que ficao unidos asvides, fao duros , curtos , e groflbs ; porque efte he hum argu-^ raento certo , que o fruClo he grofTo j bem nUtiido , e a cepa de boa qualidade. Tambem fe nao deve efcolher d' bacello daquellas cepas , que florecerem por duas vezcsif porque a legunda ilorefcencia embaraja o augmento do$ novos bagos ; nem daquellas em que o fru(^o amadurcrj^ ce muito primeiro , que nas outras , por ficar efte fujei-^ to ao damno dos anhnaes j nem daquellas que produf; zem o frucfto tardio , o qual fica expollo at'^irijup^i^^^ das tempellades (i). '*' ' '"" § LXI. Nao fomente deve fer fecunda a cepa donde fe tl- rao OS bacelleiros , mas tambem he conveniente que ef^ tes fejao efcolhidos das vides frudiferas ; por iflb fe d(2- vem defprezar aquelles que nafcem no tronco das ce- pas , e aquelles mais compridos , e vigorofos , que ordina- riamente fe achao nas exrremidades das varas do anno antecedente j porque as cepas futuras produzem depois muito meno/ fruao. Tambem fe nao devera efcolHet ^ OS bacellos , que tern por bale huma porgao de cepa ve- Iha , porque aleni do fobredito inconveniente , lambem efta mais facilmente apodrece (2) . ' ■ ■ ' ' ' 4 f.h-\ (i) Colum. lib. 5. cap. lo. § 8. 17. Pailad. in Menf. Fe- bruar. lib. ^. tit. 9. § 7. 8. (2) » Ad pangendum novellus palmes debet eligi , diiri in fe 51 nihil habens , & veteris farmenti , quia hoc purrefcente fsrpe » corrumpicur. » Pallad. in Menf. Februar. lib, 5. tit, p. § 7» f4 Mehokxas § LXII. Porem aluJn que as ccpas fejao fecundas , e as ba- eellciris tiradas das partes convenientes , na6 devcm ef- tas ler efcolhidas de vinlns muito edercardas , muito novas , oil m lito vellus ( i ) , nsiii aquellas que forem oiFe.idiJcis pela geada , o que fe pode experimental- , dando-iJics alguns golpes. § LXIII. Suppofto que os bacelleiros tenhao as proprledades ja rcFeridas , nao devem plantar-fe em terreno de infe- rior qualidaie , mis deve I'er efte melhor , ou ao mcnos igual ; porque feita a plantajao do fobredito terreno , como deile recebcm menos nutrimento , os bacelleiros facilmente degenerao. § LXIV. Tambem fe devem preferir as bacellefras do mefmo- jjaiz as dos paizes ellrangeiros ; porcm fe defies ie fizer a exportaf ao , fe devem plantar nos terrenos , aon- de o clima feja o mefmo, e igual (2) , e melhor a na« tu- (i) Nao fc devcm rir.-ir as b.icelleiras de vinhas que tenhad meno5 de fete annos , nem daquelhis que )a pafHio de quaren» M , oa fincoent.r annos , excepto quando a pezar difto as videi- ras cftao fortes , e vigorofas. (2) n Sed vitem , vol arboreni melius erit de exili ad pinguem' I trans fcrre ; nam- ft apingai rerra ad falitm exile tranfierintuti- T> Ics elTe non potsrunc. » Pallad. in Mcnf. Februar. lib. 5. tit. 9. § 5. Vitg. Georg. II. i6<;. ^t fiqitos hand ttlla viros vi^ilantia fngii , ylntc locum jimilem exquirunt , ttbi prima paretut Arboribtis figcs , eb' nuo mox digcjta Jcratur ^, Ms.>.v.anx ignQnin fwito ne feiiuna. maimiu E c O W O M I C A s. 5*5 tureza da terra ; porque fenao forem atieiididos eftes re- quifitos facilmente podem degencrar. § LXV. Ultimamente devem fer as bacellelras accommoda* das a natureza do terreno , porque as cepas nao prcdu- zem igualmente em todas as terras. A regra mais fim- pies , e facil , pela qual fe deve guiar o lavrador , con- fifte em examin ar fe o terreno he da mefma natureza , que aquelle das vinlias mais proximas , e achando , que o terreno he identico , deve aqui plantar aquellas bacel- lelras liradas das cepas , que nas vinhas proximas prc- duzera maior quantidade de uvas , mais maduras , e de melhor qualidade. Efta regra me parece mais facil de exe- cutar , do que a de Columella , a qual pode ter lugac nos fitios aonde nao houvercm outras vinhas. § LXVI. As bacelleiras nao fomente devem fer accommoda- das a natureza do terreno, mas tambem ao clima (i) . Aquelle que he mais quente, aonde a atmosfera he me- nos carregada de vapores , he o que mais convem para a plantagao da vinha capaz de produzir hum vinho mais generoio ; porem como nem fempre podem haver vinhcs da primeira qualidade , e os mais inferiores prcduzidos a roda dos campos , e em terras , que nao prejudicao a lavoura do pao fervem tambem de utilidade ao lavrador ; por iffo efte tem de fazer a plantajao em terrenes de differente clima , ao qual devem ler acccmmodadas ^s bacelleiras o mais que puder fer. (i) Plaiitando as bacelleiras aonde hajao vinhas proximas , e o clima o mefmo , deveremos fazer efcolha , fegundo a regra ailima dica. f6 Memorial § LXVII. Em confequencia difto juftamciitc advcrtcm os antl- gos Agricultores , que fe dove oliur ao prcfciitc cftado da atmosfera , porque em luins lugares Jic efta mais fcc- ca , cm ourros mais liumida ; cm Imiis paizes Jie o cli- nia mais quente , em outros mais frio j huns ellao mais fiijeiros aos ventos , e tempeftades , ourros lao mais fo- ccgados j per efte principio nos climas frios Tao conve- nieiucs , ou as cepas , das quaes o frutfto amadurece muiro primeiro , que nas outras , ou aque!!as que produ- zem uvas , que tem a peile dura , e que rcfiltem a gcada ; cftas mefmas tambem Te dcvem plantar nos climas de muitos ventos , e tempeftades ; nos paizes quentes com mais acerto fe devem plantar as cepas , que produzirem uvas de pelle- delgada , e tenra , as que dad fru^to , que facilmentc apodrcjc convem mais nos lugares feccos ; DOS Juimidoi; aqucllas , das quaes as uvas reiiftem mais a podridao j nos climas aonde cahe muita faraiva , iK]uelIas que tem as tbllias duras , e largas , para mais u:)mmodamonte defenderem o feu fru(flo ; ultimamente le o paiz tor loccgado qualquer cepa , que for de boa qua- lidade pode lervir , mas muito principalmente aquella que produzir bagos , que calicm com facilidade (i). : § LXVIIL A refpeito das differentes efpecies de cepas nada po- demos aHirmar com certeza , porque cada paiz tem di- verlas efpecies , e ainda aquellas , que fao exportadas' coftumao degeiierar j por. ilTo. na^ podemos dcterminar o-i nu.nero de lodas as efpecies , nem reterir os feus diffe- rentes nomes J porque vareao tanto, coino os paizes , os quaes- (t) Coliim, lib. ?. cap. i. 5 7. PalUd^ in. Mcnl". Fcbruar.. lib. 5. tit. i». §. Z, ?. E c K M I c A s. :5'7 quaes Ihe acloptao nomes particulares , fegundo os feus proprios collumes. § LXIX. 4 A refpeito das differentes efpecies , e variedad-es de cepas , como dos feus nomes triviaes , podemos affirmar que fao quafi innumeraveis , nao fo em Portugal , mas ain- da em qualquer pequena parte de cada Provincia , ccmo tudo fe pode ver na taboa , que aprefento de alguns lur- gares das tres Provincias do Norte. Em confequencia dif- to he muito difficultofo o determinar o numero das di- verfas efpecies , e variedades de videiras , de que fe com- poem todos os generos de vinhas defle Reino. § LXX. Para dar pois difto mefmo liuma prova mals cbra ', bafta advertir , que qualquer pequeno territorio de cada Provincia tcm efpecies de videiras que Ihe fao proprias , de forma , que tranfplantadas para outro ainda mefmp pouco diftante , facilmente coftumao degenerar. Os na- mes triviaes nao fo fao tao differentes , como cs lugares aonde fe cultivao vinhas em Portugal , mas tambem aquel- les que indicao certas elpecies de cepas em humas par- tes , em outras nao dao a entender as mefmas , e crdi- nariamente muitas efpecies tern diverfos nomes em ou- tros Jugares ( i ) • Tom. 11, H § (i) Na Provincia de Tras-os Montes aquclla efpccie de ce- pa , que em humas panes chamao Malv^lia , em outras bem proxin.as chamao Codega ; o que em humas p^artcs he ^''crde- Iho , em outras lie Gouveio ■■, o Cercial he em outros lugares Fol- gazao , e o Rabigato , Rabo de aino. Ourros nniiios cxtmplos po- dia referir fern fahir da melma Provincia , porcm iflo bafla pa- ra confirmar aquillo que tenho expolto. Daqui verho a con- cluir , que todas as opfervajoes feuas em qualc^uer Jus,ar deUc '5^ Memorias § LXXI. Todas eftas difficiildades erao j:i conhecidas dos an- tigos Agricultores , coiuo Colu.nella (i) , Palladio (2) , e Vjrgilio (5) ; e entre os modcnios Duhamel no feu Tra- tado das^ Arvores fruSliferas , pag. 264., conFelTa for gran- de o nil ncro das efpecies , e varicdades de cepas de que fe com poem as vinhas da Franja , as quaes nao le pro- poem delcrever , mas lb nente aquellas que fe cukiva6 €m alguns jurdins do mefmo Rcino (4) . Reino foSre a c[uanciiade , e qualidade do vinKo de cada efpe- cie de ccpi nao poJiao fervir fenao para o mefmo lugar, em quaruo tojos nao coTcordarem nos mefmos nomcs triviaes , por- qucdepoii coil; as obrerva96es feicas em cjualqucr parte de cada Provincia , poJiao fervir para todas aquellas, em que o clima , € a narureza do terreno folTem os mefmos. (O B Malta prxterea funt genera vitium , quarum nee nume- «rum, nee appellationes cum cerra fide referre polTumus. Quip- » pe univerfe regione> , regionumque pene fingulx pnrces habent 3> virium gjnera , qiix confuecudine fua nominant ; quaedam etiam * ftirpes cum locis vocabula mutaverunt ; quxdam propter muta- J> tione; locorum , ficut fupra diximus , etiam a qualitate fua difcef- * fcrunt ita , uc digaofci non pollint. » Colum. lib. 5. cap. 2. § 2.9. (i) n Vitium genera numerate non attinet. « Pallad. in Menf. Februar. lib. ^. tit. 9. § '},. (0 Virgil. Georg. II. lOj. Names triviaes Francezes. (4) Vitisacino parvOj fubrotundo , nigricante Morillon. prPf^coli. Viris acino medio , rotundo , ex albido fla- Chaflelas. vcfcencc . Vitis acino medio , rotundo , rubelo. ChafTelas rouge. Vitis acino medio j rotundo , albido , Mofcharo, ChafTelas mul- qoc. E c K M I c A s. $:$ § LXXII. Logo nefta materia nao pcdemcs dar ferao Iiima regra geral , que conlille cm plantar fcmprc aqucIlaG ba- celleiras que forem mais accommcdadas ao cJiira , e a iKitureza do terreho , efcolhendo fempre as que pioduzcm maior quantidade de uvas , e mais iabcrofas •, ccmo po- rem acontece haverem muitas efpecies de videiras , que em huns fitios fao muito fruc^iferas , e em outios nada produzcm , o prudente Javrador nao deve prcceder a plan- tajao do bacello fern primeiro ie iniormar da iua quali- dade (i) , averiguando fe as baceJIeiras fao tiradas de fitios iguaes cm tcdas as circunftancias aquelle , em que as penende plantar ; ou iera ainda nielhcr que o lavrador eiamine nos terrenes contiguos , e analogos H ii ao Vitis folio laciniato , acino medio, rotundoj Raifin d'Autrlche* albido. Vit's apiana , acino medio, fubrotundo, albido, Mufchat blanc. Mofchato. Vitis apiana, acino medio, fubrotundo, ni- Mufchat noir. gricante , Mofchato. Vitis apiana, acinamaximo , cvato, e viridi fla- vefcente , Mofchato Alexandrina. Vitis acino maximo , ovato , fature violaceo. Raifin d'Maroc. Vitis acino longillimo , cucumeri feri albido. Cornichon. Vitis apiana , acino medio , rotundo , ru'bro , Mufchat rouge. Mofchato. Vitis apiana , acino magno oblongo , viola- Mufchat violat, ceo , Mofchato. Vitis acino majore, ovato, e viridi flavefcen- Bourdelas. te Burdigalenfis. (i) « Cclfus ait nullum genus vitiumconferendum effenififama , » nullum diutius confervandum nifi experimento probatum , atque J) ubi multa invitabunt regionis commoda , ut nobilem vitcm con- )) feramus , generofam requiremus incjuit Julius Graicinus , ubi ni- » hll erit , aut non multum quod proritet , feracitatem p otius fe- » (|uemur. n Colum* lib. ^, cap. 2. § )I. 6o. Memorfas ao feu , quaes fad as videiras , que dao mais livas , e melhores , e diqui pode tirar o b.icello de que precifar DO cal'o de nao ter viveiro com as qualidadcs abaixo re- feridas. § LXXIII. Pelos mefmos fundamcntos ja referidos Palladlo ef- tabclcce lambem a fcguiine rcgra geral : O lavrador ou pertcnde tcr uvms para comer , ou para o vinJio ; no prlmeiro cafo dcvc plantar bjcelleiras , que produzao uvas de bagos grandcs , e duros , como fao entre nos as uvas Forraes , as C^'itaiis , o Mofcarel dc Jefus , o Dedo de dama , e ourras m.iis. No fegunio cafo , deve efco- Iher as videiras que dao uvas de pelle delgada , e faboro- fas , e muito principalmetite aquellas , a quern a flor ca- hir muito primeiro , que as outras (i) . § LXXIV. A fobredita efcolha nao fe deve confiar de outrem , c muito menos comprarem-fe as novas cepas a homens qu? com as mefmas querem negociar ; porem devera o proprierario fazer hum viveiro de cepas conhecidas , e accommodadas a natureza do terrcno , aondc fe perten- de fazcr a plantajao , porque ordinariamente fao expor- tadas para lugares aondc he difFerente a natureza da ter- ra , e a expofifao do territorio , por illb frequentemeu- te coflumao dcgcnerar (2) . (i) Pallad. in Meiif. Fcbruar. lib. 5. tit. 9. § 5. (z) » Ciii vineta facere cordi eft , prxcipiic caveat ne alienae » pot ins curse, qmm iux credere velit , neve mercetur viviradi- » cem, Sed i;cnu3 furcnli probatillimum domi conferat , faciatque B vitianu'n exquo pollit agrum vineis veftire ; qux peregrina ex )) divcrii regioic feinina transferuntur minus , funt familiaria nof- )> tro fo'.o , quim vernacula : eoque vcluti alienigena reformidam « m ir.ir im cxii , locique pofitioncfp. » Colum , lib. 5. cap. 4- § i» I Economicas 6i § LXXV. Tudo o que fe tern referido nefte capitulo he tao eflcncial , que l"e deve reputar como bafe , e fundamento da boa produc^ao , e confervajao das vinhas ; porem a maior parte dos proprietaries l6 tratao em iriultiplicar as cepas , fern fazer efcolha alguma , plantaudo tcdas aquellas cjue podem adquirir, fern ter feguranga da fua bondade j he pois bem certo , que as muitas ccpas , e fern efco- lha diminuem de tal forma a colJieita , que os proprie- tarios fao obrigados a deixar as fuas vinhas. CAPITULO VIL Da propaga^ao das Cepas* , § LXXVL PAra que melhor fe faja a efcolha das bacelleiras , devem os proprietarios procurar os meios de as con- feguir , folicitando a propaga§:a6 das cepas de melhor qua- lidade , e que forem mais accommodadas ao clima , e na- tureza do terreno , aondc fe pertende plantar o bacello. Ella propagajao fe pode fazer ou por fementes , ou fa- zendo hum viveiro , ou pela mergulha. Pelas fementes <]ue iivremente cahiao das videiras filveitres fe propaga- vao naturalmente as cepas antes do Diluvio ; poreui efte modo de propagar he mais demorado , e menos conve- niente ( i ) . § LXXVII. He^ melhor que os proprietarios facao hum viveiro , aonde fe poiTa^ crear todas aquellas bacelleiras chamadas bar^v: ^ (i) Sao neceffarlos , porpouco, doze annos para le fazer hu- J^a videira. 6i M E M O R I A S barbadas , que forcm neceHaiias para a plantafa6 ; po- rcm a natureza da terra" , em que o mcfmo I'e devc fa- zer , qucriao alguns que folTe forte , porque nefta crel- ceiu mais brevctnente as baccllciras, c ficao inais accoin- modadas p ua depois fe plantarcm ; porcm lie mais con- vcjiic'ite que a terra ncm Icja niuito forte , nem muito magra , porque as ccpas femprc fe hao de mudar dc lui- ma terra pcior para outra melhor , logo fe a mudanca for feita de Jiuma terra mediocre , para outra mais ma- gra , nao fera muira a ditfercnca que experimcntarao as novas cepas , e tcra graiidc progrelfo a fua vegetajao quuido forem mudadas para terra mais fertil ; por6in nunca fe fara o viveiro em terra muito magra , porque morrera a maior parte das cepas , e as que reftarem fe- rao incapazes para fe podercm exportar. Em confequen- cia diito , o terrene deftinado para o viveiro tera huma mediocre humidade , c a terra nem fera muito forte , nem muito magra. § LXXVIII. Nao f6mente devemos fazer efcolha da terra , mas tambsm das cepas , que fe houverc.n de plantar no vi- veiro , guardando todas as cautelas referidas no Capitulo antecedente : cm quanto ao modo de as plantar , fc pode fazer abrmdo regos (em humas partes cnamao vallados , cm outra s furribas) , do mefmo modo que le faz nas vi- Jihas , fon-ente com a unica diffcrenga que fera muito fuificiente , que cada rego tenha a largura de nove pol- legadas , e a diilancia entre huma , e outra cepa fera fo- mente de finco , ou feis pollegadas , e palfados que fo- rc^n tres annos fe podem transferir para outra parte ; e fe o proprierario praticar ifto mefmo todos os annos , palTaios os tres primeiros , tera fempre novas cepas de raizes para fazer a fua plantajao. E C O N O M 1 C A s. 6i § LXXIX. Nad fo o lavrador pode ter kirbadas , fazendo hum viveiro na forma referlda , mas tambem pela mergullna , a qual fe pratica do motio feguinte. Collumao muitas vezes nafcer na parte inferior das videiras algumas va- ras ; eftas fe mergulhao em huma pequena prcfundidade, e no anno feguinre todas eftas mergulhas fao outras tan- tas bacelieiras com raizes ; as quaes nao fe devem con- fervar por muito tempo no terreiio , para que nao rou- bem o nutrimento as cepas , mas devem fer logo muda- das para o lugar aonde houverem de ficar , naquelie tem- po , em que no dito lugar for mais conveniente fazer a plantacao. Nos viveiros porem podem-fe confervar as ba- celleiras tres , ou quatro annos ; porque o lavrador nefte Cafo nao attende a colheita , mas unicamente a propa- gajao ( I ) . § LXXX. Tambem fe pode fazer huma femelhante propaga- jao nas videii^as , que fe fuftenta nas arvores. Faz-fe hu- ma pequena ccila de vimes , a qual fe fuftenta na arvo- re aonde fe lirma a videira. Huma vide delta fe faz paflar pelo fundo da dita cefta , a qual fe enche de ter- ra : pailado que for hum anno tera raizes naquella par- (i) )i Eidem ratio in transferendo mallcolo , nam in fecundo » aurumno , fi cosli & loci qualitas pat! cur , commodiilime poft idus 1) Odobris exemptus conlerirur : fm autem aliqua terrse , vel aeris i) injuria repugnar , tcmpcftivitas ejus in proximum ver diiiercur : » necjue diurius in vineis relinquendus elt , ne foli vires abiu- » mai , & ordinaria fcmina inteitet : mx quanto celerius libera- y> ra funt confortio viviradicum , tanro facilius convaJclcunr. Ai in t leminario licet trimam , atque etiam qu.idrimam vitem rel'e6tam , » vel angulte putatam cultodire : quoMiam non coniuliiur yinde- » niiae. » Coluni. lib. 4. cap. 16. § i. 6^ Memorial parte qua cftlver cuberta de terra j cortada logo que for a communicafao que a vide tern com a ccpa , feni eila tranfportada na mefma ccfta para outra qualquer parte, aonde fe fizcr a plantajao ( i ) . C A P I T U L O VIII. Dos modos de fazer a planta^ao , e cautelas que na mefma deve haver. § LXXXI. APropagagao de que temos fallado, fe dirlge para a boa elcolha das cepas : feita eila fe fegue Fazer a plan- tacao , a qual fe pode praticar , ou fazendo covas , ou regos : fe o terrcno for forte , e nao tiver ban:os de pe- dra , tendo precedido as necelfarias precauf oes que temos referido , ne conveniente , que a plantajao fe fa^a por covas feitas nas diftancias ja referidas (Cap. 6.). Em terras magras , e ligeiras , em lugar das covas he melhor que fe fifao abrir regos : tanto elles , como as covas , re- commendao os antigos Agricultores , que fe dcvem fa- zer hum anno antes , que fe plante o bacello ; porque elte rebenta depois mais vigorofo , por caufa do maior nutrimento que o terreno tern adquirido da atmos- fera. (i) « Iia exaclo annul tcmporis fp.irio , farmentum , quod clau- )i fum elt , r.iJices creabit intra prxdictam corbiculam. Tunc fub )) fundo corbis incifura radicatum farmentum cum ipfa corbe por- 7) tabltiir ad locum , qucm vitibus arbuftisvc dcftinabis implere , )) ibiquc obruitur circa arboris maritandx radices. Hoc genere » quantum volueris numcrum vitium transteres fine ambigultate » prchendendi. » Pallad. in Men f. Fcbruar. lib. ^. tit. lO. §. 6. i%S5 rERRAS 1 I ' S-0 S M O N T E S. ^ D A B E I R A. f;^ reins. i PROVINCIA DA BEIRA. Pretos Dials ruins. icn'cv/ fc deve determinar a altun das covas , e furribas. * (2) Tern moftrado a experiencia , que nenhuma arvore Ian9a raizes fenao ace aquella profundidade aonde chega o calor do Sol, que he de tres palmos pouco mais ou menos.i logo ^^^ ECONOMICAS. % § LXXXII. A cultura cm que devem ficar as bacelleiras nas co- vas , e vallados , ou furribas deve fer decidida pela dif- tancia ate aonde o calor coftuma mais aquentar o ter- reno (i) ; como porem eila diftancia he muito moderada , fegue-le, que fegundo ella deve fer regulada a profun- didade , que devem ter os regos , e covas. Em confe- quencia defte principio podemos eftabelecer como huma regra geral , que nos carapos , e terras argillaceas , ou barrentas , que fao mcnos penetradas pelo calor do Sol , deve fer muito menor a altura das covas , e furribas , de que nas ladeiras , ou terrenos de declivio formados de huma terra vegetal folta , ou areenta aonde a inten- fidade do calor he maior , e trafpaifa o terreno a huma •niaior profundidade. § LXXXIII. Por efla caufa nas efcarpadas ladeiras do Alto-Dou* ro devem ter os regos , ou vallados huma altura muito maior do que em outros lugares aonde he menor o ca- lor, e diiFerente a natureza da terra, mas tambem nao deve fer de dez palmos , ou mais como me dizem exe- cutao quail todos os lavradores do referido pais , por- que efta pratica de modo nenhum fe pode conformar com o principio affima ellabelecido (2). Tom. 11. I Fei- (i) As particulas nutricivas que contem o terreno , nao po- dem fer abforbidas pclas raizes das cepas fern que primeiro eftejao reduzidas ao eftado de vapor, para efte effieito he ne- cefiario hum calor convenience , e como efte nao fe extende fcnao ate a huma dada profundidade ; por iflb fegundo efta fc deve determinar a altura das covas , e furribas. (2) Tem moftrado a experiencia , que nenhuma arvore lan9a raizes fenao ate aquella profundidade aonde chega o calor do Sol, que he de tres palmos pouco mais ou menos.i logo efta 6^ Memorias § LXXXIV. Feitas as covas , ou vallados com a altiira conve- nlente , feguc-rc o plantar as bacellciras , on fejao bar- badas , ou fem raizes ; e algumas vezes tambcm I'e tranf- plantao dc lium lugar para outro as videiras ja tcitas. De cada hum dcftcs generos de plantajao ha cautehis , que Ihe lao proprias , c ha outras commiias a todos. Principiando pelas primeiras devo adverrir , que o la- vrador que fe lembrar ter viveiro para crear as barba- das , ou haver eftas pela mergulha , na plantacao , que das mefmas fizer, ha dc ter cm vifta as leguintes cautel' las. § LXXXV. I. As- barbadas , logo que forem arrancadas fe de- vem immcdiatemente plantar , nao efquccendo de cortar toda aquella parte da cepa , que cftiver veiha , que ti- ver nosj e cicatrize? , e juntamcjue todas as raizes, que forem incapazes dc rccebcr o nutrimento (i). Nas deve fer a nltur.i , «.}ue devcm ordinariamente ter as covas , val- iados , ou I'urribas em cjue fe iiouvcrem de plantar as bacellci- ras ; devc porcm fer menor nos terrenes pianos , e humidos , pa- xa acautelar a podridao daqiiella parte da bacclleira , da qiial nao rebentao raizes. Nas ladeiras dc nuior declivio tormadas de terra vegetal , e ardent?, conic falta continunmente a terra por caufa do Inverno , he innito mil que a profundidade das di- tas covas , ou furribns tenha hum palmo mais , que a ordinaria. ^Devemos pois concluir, que o prudente Agricultor dcve ter to- da a caiuela para que nao fique cnterrada a bacelleira cm maior profundidade , do que aquella ate aonde coftuma penetrar o ca- lor do Sol , porque a por9a6 da vide , que tica muito mettida debaixo da terra , e da qual nao rebentao raizes npodrece fa- cilmente; daqui fe fegue , que o bacello medra muito pouco, e nunca fe criao videiras vigorofas , mas fao fempre fracas , e car- comidas. Defta doutrina nao fe aparca ijiuito Columella no liv. 4. Cap. I. (i) Colum. lib. ?, Cap. 15, § ?. ECONOMICAS. 67 II. Nas terras mais humidas , como fad oidinariamen- te todos OS catnpos , e terras argil! aceas ou barrentas , fe devem efcollier as baibadas com preferencia as bacellei- ras fern raizes j porquc a eftas a agoa entrando pe!a fub- ftancia medullar facilnienre apodrece. Daqui podemos con- cluir , que na plantaja6 das videiras de enforcado , par- reiras , e latadas ( que ordinariamente fe faz em terras mais humidas ) , fe devem preferir as barbadas a outras quaeP quer bacelleiras. III. Sera muito conveniente , que as barbadas tenhao tres ordens de raizes de lium comprimento proporciona- do a largura das covas. A primeira ordetn fe deve eten- der no fundo da cova , e depois cobrir-fe com a ter- ra ate chegar a fegunda ; efta fera igualmente eftendida como a precedentc y e affim continuara praticando o mef* mo que na primeira. IV. Parecendo efte methodo enfadonho , ou nao lia- vendo barbadas com a difpozijao referida , fe pode eften- dcr no fundo da cova ou rallado aquella parte da ba- celleira que tem raizes , fazendo efta hum angulo redo com a vara , que na fobredita cova ficar perpendicular. He pois efta pratica geralmente recebida em todos os lugares aonde fe cultivao vinhas em Portugal. § LXXXVI. Eftas fao as cautelas , que deve haver quando fe plantao as barbadas. Pelo que pertence a plantagao dos malkolos ( bacelleiras fem raizes ) fao as feguintes. I. Deviao-fe logo plantar apenas foitem cortados das videi- deiras ; porem como ifto he quafi impraticavel , cobrem- fe de terra ate metade do feu comprimento , e a outra parte de alguns arbuftos ( vulgarmente mato ) (i) . Ifto I ii mef- (i) « Super caeterum illud quoque five malleolum, five vivi- 'i> radicem ferentcm pracmoneo , ne femina exarefcant , immo- 3) dicuDi ventum fgiemque vitare , qui uterc^ue non incoiriinodc 6S Memorias mefmo fe devc piatJcar quaiido as bacelleiras fao trazl- das de lugares longinquos. Porcm humas , e outras antes dc ferem plantadas , dcvem eftar dcz , ou doze horjs me- tidas na agua para que os valbs fe dilatem , e fiquem no eftado de receberem mais facilmentc o lucco nutriticio. § LXXXVII. II. Os fobreditos malleolos dcvem fempre ter por bafe Iiuma porjao da vide velha do anno antecedente (i) , que tenha quatro ou finco pollegadas de comprimento. Efta regra he recommendada por Columella , e julgada muito fegura pela pratica que della fe tern feito ncilc Reino. III. He tambem conveniente que as mefmas bacelleiras fe cicatrizem naquella parte em que forao cortadas das videiras o mais breve , que for poifivel , porque na6 fe feguindo logo cde efFeito , mas ficando aberta a tiftola , e patcnte a fubftancia medullar , rccebcm por efta huma grande quantidade de agua (2) , entrao as formigas e ou- tros infectos , e defte modo acabao as cepas muito bre- vemente. Para acautelar elle inconveniente , logo no iinha- mento devem ficar viradas para a parte inferior as pon- tas da vide vellia , que ferve de bafe a baccllcira (3). ;;,'•-'■ Nao « arcetur obicflu veflis , aut cujuslibet dcnfi tcgminis. » Colum. lib. ^. Cap. 19. (i) » De polirione furculi non minima difputatio fuit inter ■» aii(5}otes , quidam rocum flagcUum ficut erat matri derra^lum » crcdiderunt lationi convenire ; idqiie per gcmmas t|uinas, vel 71 etiam fenas parcici complures raleolas terrx mandavcrunt, cjiiod « ego minimc probo ■■, magis alleiitior his auiStoribus , (^ui iiega- M vcrimt efTc idoncam frugibus fupcriorem partem materix , fo- r lamque earn, tjiiric eft junila cum vcterc farmento , proba- )i verunr. » Colum. lib. ^. Cap. 17. § 2. iare ut-licerc inft'ruimus , ucilifiimaelt generuni dif- DpoHtiO, .jaam fi timcn obcinere non p'oilis ,, fecunJ.i ell ra- ;frk) > uc d^vcrfi; aocx non alias conf&ras vices (jixam t]ux iajpo E c N M I c A s. 75r C A P I T U L O IX. Da cultura que fe dcve dar aos bacellos. § CII. DEpois de ter dito tudo aquillo que pertence a plantacao do bacello , refta faber o modo como ef- te fe deve cultivar nos primeiros annos ; o que fara a materia do prefente Capitulo. § cm. Quando a plantagao for feita abrindo regos , ou val- lados , fica o terrene ordinariair.ente compofto de cutros fantos pianos inclinados , quantos lao os mefmos valla- dos , mas como nao fe deve plantar o bacello fenao em terras magras , pedragofas , e aveentas nao pode haver receio , que a fobredita difpozicao do terreno faja en- charcar as agoas (i), de forma que apodre^ao as bacel- leiras , por iffo le pode aplanar o terreno por todo Marco , ou Abril ( legundo as circunftancias do paiz ) e no mefmo tempo em que fe redondarem as bacellei- ras , as quaes devem licar com dous (2) , ou tres olhos Ibbre a fuperficie do terreno (3) , por6m eila operacao K ii de- » rem confimilem , fruf^umque maturit.itis ejufdem prxbcant. a Colum. lib. ^. cap. 21. § 11. PalJaci. in Menf. Febr. tir. ^. § 12. (i) Ertas terras nao confervao as agoas da chuva. (2) » Idque cum fupra fiimmam fcrobcm ccrrpluritus irter- « nodiis produdum eft , quod de cacumine (upereft , duabus gcm- « mis tantum fupra terram rcli«flis amputatur. » Colum, lib. :}. cap. 16. § I. (^) Quando fe redondarem as bacelleiras , a eftas fe devem encoftar as vides , que das mefmas fe corrao de forma , que as novas cepas com eftas eftacas curcas, e delgadas fquem de- fendidas do damno , que Ihes podem caufar as tenpefades. Ef- i^ Memorias deve fer feita quando nao cahirem geadas , neves , e muitas chuvas , porque fobrevindo eftas logo immediata- mentc , e entraiido pela medulla das bacelleiras obftruem OS feus vafos. § CIV. Fcito ifto pouco tempo antes que o bacello prin- cipie a brotar, deve-l'e cavar o terreno , I. Para que a ter- ra le ponha no cftado de receber o nutrimento da at- mosfera ^ II. Porque fican io cfta mais porola , as ba- celleiras eftendem melhor as fuas raizes ; III. O teireno adquire hum maior grao de calor necenfario para que a_ vegetacao das novas cepas leja mais vigorola (i). E co- mo o lavrador deve leniear no predio ( porque deve ti- rar derte todo o proveito que for pollivel ) aonde fe tern feito a planta^ao do bacello todos aquclles vege- faes que o nao alfombrarem , e forem accommodados a natureza do terreno ) fegue-fe que todas as vezes , que a terra fe cavar para eftes le culcivarem , igualmente ler- ve de beneficio as bacelleiras, e crefcera elle ainda mui- ro mais , fe os fobreditos vegetaes apenas acabarem de dar o fruiTto forem logo enterrados. § cv. Efla pratica , que em parte fe obferva recebida em mui- te he tambcm o parecer de Colum. liv. 4. cap. 6. § 2. n Ac X neoiix reliifia: funt , procellis ventorum decuriantur , molli , ec n laxo viii:u!o aJfur^^enres rubrecjui convcniet dum claviculis fuis » quafi qMibiifdim manibas adniinicula comprehendant. » (i)n Deinde mallcolo inter ordincs polito crebris foflioni- j) bus piftinaruni refolvcre, at^ue in pulvercm redigcre. Sic J) enim malleoli , & viviradiccs , Sc reliqua femina , qux depo- B fuerimiis, convalefcent , fi mollis ac rencra humus nuliis berbis )) irrcpentibiis hiimorem flrlrpibus prxbuerit , nee duritia foli no- I )i vc!l.T3 adhiic p'.ancas veluc ardo vinculo comprefTeric. » Colum. '( lib. 4. cap. 4- § ?. E C O N O M 1 C A s. 77 multos lugares defte Reino , e que a expeiiencia moftra nao detenorar o terreiio , e fer util ao lavrador , nao Jie juilamente approvada por Columella , porque efle antigo Agricultor , talvez perfuadido , que a terra reduzida a particulas minimas he capaz de fubir pelos vaibs tenuif- fimos dos vegetaes , e formar o leu principal alimento , ellabeleceo como huma regra geral , que o terreno aon- de fe tern feito a plantagao do bacello , deve fer cava- do o maior niimcro de vezes que for pofllvel ; porem que ao menos feni executada cila operagao todos os me- zes huma vez , desde o primeiro de Marco at^ ao pri- ineiro de Ourubro (i) . Defte modo he o bacello fete ve- zes cavado , e fe feguem os mefmos inconveiiientes , que caulao as lavouras repetidas (2) . § CVI. Logo que brotarem os bacellos paflado mals algum tempo , le devem cortar todos os ramos inuteis , em quan- to eftiverem tenros , deixando fomente dous , para que fe hum defies tiver algum perigo , fique o outro ; porem fe erte nao acontecer , tanto que os ditos ramos eftiverem mats robuftos , fe cortara o menos vigorofo : e logo que o outro chegar a hum certo comprimento , fe Ihe deve cortar a ponta , para que adquira maior grofl'ura (3) . (i) Colum. lib. 4. cap. 5. (2) Memor. de Jgrhnl. da Acad. R. das Sciene. de Lhhca I pag. 280 , cap. 5. (^) » Ea porro five malleolo , five viviradice c^epofuirrus , » optimum elt ab initio fic formare , ut freqiienti pan;p;natione J) fupervacua detrahantur , nee patiamur plus quam in un..m ma- » teriam vires , it omne alimentum conterre : priir,o tamcn bi- » ni pampini fubmittuntur , ut fit alter fubfidio , fi alter forte » deciderit. Cum deinde paulum induruere virgac , turn deterio- ))_res fin^ulx detiahuntur. » Colum. lib. 4. ca^p. C. % i. 78 Memorias § evil. No Outono feguinte dcvc fazer-fe a cxcava^ao do bacello , a qual fe dirige a cortar ac]ucllas raizes , que apparecem 11a fuperticie da terra , porque nao fazendo efta operafao , faltao as raizes inl-eriores , e ficao as fu- periores expoftas as injiirias do calor , e trio; porem ef- te c6rte deve fer feito algum tanto diilante do tronco y para que o mefmo nao feja offcndido ; porque Tendo fe- rido , entra a agua , e a geada pelas teridas , que ciufao outras novas , ou das fuas cicatrizes naicem outras mui- tas raizes ( i ) . § CVIII. A referida excavafao fe fara nas vinhas , que fe plantao de novo no primeiro quinquennio ; paflado efte lomente de tres em trcs annos (2) . As covas podem fi- car abertas , aonde o Inverno for favoravel , fendo po- r^m rigorofo , fe devem fechar no principio de Dezem- bro (3). (^i) )) Nam poft Idus Odobris priufquam frigora invadant , ■n vitis ablaqucanda eft : quod opus adopercas oftendit acftivas T) radiculas , casque prudens agricoU fcrro decidit. « Colum. lib. 4. cap. 8. § I. 2. Pallad. in Menf. Febrnar. tir. 15. §. i. (2) n Sed ablaqueare omiibus aucumnis oporrebit prime quin- )l quenio, dam vitis convalefcat , ubi vcro cruncus adolcverit , fe- n re tricnnio inccrmitcendus eft ejus opcris labor. » Colum. lib. 4. cap. 8. § 4. (?,) » Hoc opere confummato fi eft hyems in ea regione pla- 1) cidx , pac^jnj vitis reiinquerjda eft , fm violentior id facere » pro'iibcc , ante Idiis Docembris prxdidi lacufculi acquandi funt. » Colum. lib. 4. cap. 8. § 5. ECONOMICAS. 79 § CIX. Feita a excavajao fe fara a poda do bacello , ef- colhendo a vara mais vigorofa , quando tenha mais de huma : nefta lomente ficarao dous olhos os mais proxi- mos a terra. O golpe nao deve fer feito junto da arti- culajao da vide , mas no meio do efpaco que ha entre hum , e outro olho , e figurado a femelhanca de JiUm piano inclinado virado para, a parte oppofta do olho \ tanto para que mais facilmente corra a agua pelo dito piano , e nao entre na medulla , como para que o Iug^ CO que fahe da vide nao pafle pelo olho , o qual ordi-- nariamente nao brota quando illo acontece (i). § ex. O tempo em que fe pode fazer a poda dos bacellos , ha de fer na Primavera , ou Outono. Se o paiz for fu- jeito a foffrer grandes geadas , e rigorofas tempellades , he mais conveniente , e mais facil que fc faja na Pri- mavera : fe o territorio tiver hum clima temperado , e Tiefte OS Invernos forem favoraveis, he melLor que a re^^ ferida opera^ao feja no Outono (2) . §. CXL Na feguinte Primavera , antes que os bacellos prin- ci- (i) Colum. lib. 4. cap. y. § i. 2. (2) » Purandi autcm duo funr ten-pora : melius autein ( ut y, ait Mago) vernum antecjiiam fiirculus progerniincr , 4jut)niam; » humoris plenus facilctn plagam , & kvem , Sc sccjualem acci- ■» pit, nee falci repugnat. Sed necjue uticjue verno omnibus re- » gionibus melior putaiio eft ; ubi vero nprlca leca funt , il-.ol- M lcsc]ue hyemes , optima & maxime nnruralis eft autnmna]is , J> quo ten'pore divina tjuadam lej^e , & acterna frudum curu ^ tronde ftirpes deponunt. » Colum. L 4. cap. 10. § i. 7^. - ^ M £ M O R I A S clp;;;u a brotar fc civari o torreno , procedendo clo mcf- - mj moio , que no primeiro anno. Viiuio porcm o EG- tio devein c^rtar-fctodos os ramos Jiurcis , dcixando foinente aquelle , que for mais vigorolo , ao quai Ic cor- tar.i a ponta logo, que cxcedcr ao coniprimento de 1 1 (3 pollegadas ( quafi palino e meio ) , para que adquira maior grolTura , c robuftcz ( i) . § CXII. No Oatono immediato , fenao repugnarcm as circun- flancias do rerritorio , fe pode iazer a poda do bacello , deixando a cada huma hum pollcgar com dous olhos (2) . Illo mefmo ll' dcve praticar no tcrcciro anno. De- ve fer curta a poda nos primeiros annos , para que as cepas laiicem mais raizes ; porque o niimcro deftas he tanto maior , quanto menos fao as varas , que as mel- . mas produzem. § CXIII. Como a forja da vinha , c de todos os mais vege- taes depende muito das raizes , por illb o primeiro obje- (flo , a que o proprietario fe dove propor , he o facili- tar a mulciplicacao , e a extenfao das mefmas ; porque o meio mais feguro de eltabelecer promptamente huma vi- nha , confiile em que a racfma adquira no prmcipio hum bom (i) » Sed fi propofitum recidere , ur bino pocius eft utique ■S) uriniar, cum ad unum pampiiuim |ani rcdcgcns , 5c ipfe ex- )i ceTcric p::dilciii longitudincm , decacuminare convenict , ut in T) ccrvicem pjtius confiimetur , & fii robuftior. » Colum. lib. 4« cap. 7. § ;. (2) n Media igitiir ratio fequcnda eft , ut neque folo tenus » milleolum rccidimus , nee rurfus in longiorcm niateriam pro- » vorem I? ; fed annotate fupcrioris anni poUice , fupra ipfam » comnii'.ruram vetcris farmcnti unam , vcl duas ^emmas relin- » qucmas ex quibus germinct. « Colum. lib. 4. cap. ii. § 4. EcdNOMiCAs. «5r bom pe , pois defte modo he mais ccrta a fua durajao ; e o fobredito proprietario nao deve nietter a vinho as novas cepas , lem que fatisfaca a efta condijad. § CXIV. Nos annos futures a refpeito da poda , cava , e cor- te dos ramos (i) inuteis , I'e deve obfervar o mel'mo , que nos annos antecedentes temos adrertido (§§ 109, no, III); porcm deve haver a cautela de que ieiiao ofFcn- dao as raizes das bacelleiras quando fe cavar o terrene, e de arrancar as hcrvas , enterraudo-as de forina que apodre^ao. ,§ CXV. „,....,' .,,,.,. Como nos terrenos unicamente deftinados para vi- nhas ja os bacellos , paiUidos os dous pruiieiros annos , cobrem quafi a terra com os feus ramos , nao fe Ihes dc- vem femear na Primavera vegetaes alguns do mefmo mo- do que fe poie praticar nos annos antecedentes , porque medrao muko pouco por caufa dos ramos que rebentao das bacelieiras , e como aquelles ja adquirem rnuito maior comprimento , mettendo-fe entre os fobreditos vegetaes nao recebem livremente o calor j donde fe fegue nao ama- durccerem as vides , ficarem muito efponjofas ; e as ba- celleiras recebem grave dcterimento. § CXVI. Mas pdde.. o lavrador femear nos fobreditos terrenos todos OS vegetaes, de que poffa tirar alguma utilidade, iintes que o baceJlo principle a rebentar , como fao na- bcs , ervilhas , favas , e outras quaesquer plantas , que 'Tom. II. L fo- (i) a Pan':p:r.:itiorii3 cadem debet efl'e r^uio hiijus anni , arque » priorij. i Coliun. lib. 4. cap. 14. § 2. 85 M E M o R r A s" "^ forem accommodadas a natureza do terrcno ; poran dc- vcm fer eftas logo entcrradas apenas as bacelkiras coine- ^arem a brotar. Dcfte modo tira o lavrador maior utili- dade do Ten prcdio , e com o adubo , que o mclmo rc- ccbe dos vegctacs apodrecidos , adqiiircin maior vigor. Tambem no tercciro anno a cada bacelleira le dcvc apro- ximar huma cftaca (i) capaz de lurtcntar as novas vi- dcs , c confervalas das injurias do tempo, muito princi- palmente naquelles lugares , aonde -he mais forte o Lo- bredito meteoro. § CXVII. Quando os bacellos rivercm quatro anno? , nas va- ras mais proximas do tronco fe poiem deixar dous pol- legares cada hum com dous oUios , e na parte mais fu- perior huma vara com finco , adverrindo por^m que quanto menor comprimento tivercm os pollegares infc- riores , mais baixa andara a vinha : Columella diz , que ja nefte anno a nova cepa fe deve difpor em forma de eftrella ^ porem que o niimero das varas fe regulara pe- fas forcas da videira , e , fe eftas o permittirem , e a na- tureza do terreno , podcra ficar com tres , ou quatro , mas rariffimas vezes (2) . §. (0 " Qyioil eft merico in viticula fortiori fervandum , Sc (d' Ji ne cxcipiendi calamis novella , vol exiguis palis , uc ter- 5) tio anno robuftiores poilit accipere. » Pallad. in Menf. Fe- bniar. tit. 15. § i. . (2) » Poft quadragefimum , Sc alterum men fern pcrfe^fla vin- » demia, fie inftiiucnda eft putatio , ut Aibmillis pluribus fla- yt gellis vitis i'l ftellam dividatur. Sed modus pro viribns rrunci » fervanJus eft , ncc plurcs palmites fubmitrantur , quam qui- » bus vitis fufficere queat ; fere autem prrcdi^fla actas Incto fo- « lo truncoque tres materias , raro qnatuor dcfidcrat, qurc per )). totidem partes ab alligatorc dividi dcbeiu. Cohim. lib. 4. cap. 17. § 5. )) Nam quadrima novella ubi Ixtiim folum eft , rrcs ma- » rerias merito nutrire cosetur. » Pallad. in Menf. Februar. tic. 15. S I. E G O K O M 1 C A S. 83 § CXVIII. No quinto anuo , fe os bacellos forem bcm cultiva- dos , ja fe podem coinemplar como vinhas feJtas ; e por illo ie pode fazer a poda ,como nas mefmas ie pratica. Columella affirma , que ja nefte tempo a cada liuma das novas cepas fe Ihe devem deixar tantas varas , quantos torem os brajos com que depois liouverera de ficar, as quaes nao ferao mais de quatro , e ellas confervadas., ate as cepas adquirirem mais vigor j depois fe augmen- tara o niimero das varas , fe affim o pedirem as forjas da cepa , e a natureza do terreno ; advertindo porem que fe ficarem menos do que convem a cepa , produz mui- tos ramos , e nao da frudlo ; e fe for grande o niimero dellas fe debilita. Da doutrina expofta fe deduzem as feguiiites regras praticas fobre a plantacao , e cultusa dos bacellos. Do tempo , e prepara^ao das Cepas, R E G R A I. 7 Feita a vindiitia p6de-fe plantar o bacello nas teiS» ras magras , pedragofas , e areentas. R E G R A II. Nas terras fortes na6 convem fazer a plantacao do bacello fenao em Fevereiro , ou Mar^-o , tempo em que ja tern pajGfado as geadas , e as maiores chuvas. R E G R A III. Se o terreno for inculto , he melhor que feja lavra- do algumas vezee antes da plantacao , porque apodre- L ii cem ^4 M E M O R I A S cem algiins aibuftos , que no mefnio houvcrcm , c me- dra muito mait, o baceJlo. R E G R A IV. Se o tcrreno tiver fido occupado com vinlia , que pof defmazelo do lavrador tcnha morrido , ou por ourra qualqucr caufa , alem de fcr hvrado , Ic llic devem ar- rancar todas as raizes , e ccpas velhas que no niefmo houvcrem. Como as Bacelkiras fe devem compajjar. R E G R A V. O bacello deve fer plantado em filciras , porque dcf- ta pratica fe fegucm muitas utilidades. R E G R A VI. Em algumas partes tern decidido a experiencia , que a diflancia entre cada fileira deve fer de feis pal- mos. R E G R A VII. He de pareccr Columella , que as fileiras fcjao dif- fantes humas das outras fete palmos nas terras magras, oiro lias mediocrcs , e dcz nas fortes , que vulgarmente dizem dc maior iubflancia. R E G R A VIII. Tern moftrado a huns a experiencia , que a diftan- cia entre cada bacelleira baita fer de trcs palmos , a ou- tros de quatro at6 finco. RE- ECONOMICAS Z^ R E G R A IX., -t^ ^^5? - -— Nao ha fohre ifto pratica alguina conftante em Por- tugal , nem pode liaver outia regra gcral mais , que nas terras fortes dever fer inaior a diilancia entre as ba- celkiras , meiior nas magras , e pedragoHis. R E G R A X. Ha duas cartas de bacelleiras ; humas fern mizes , e outras que as rem , chamadas vulgarmente barbadas , as quaes o lavrador deve efcollier em primeiro lugar. Da cfcolha do Bacello. REGRA XL As bacelleiras devem fer groffas , maduras , a cafca muito unida , luzidia , a madeira firme , e que moflre hum verde claro no golpc que fe llie fizer. ,^. REGRA XII. i Deve o lavrador efcolher ^s bacelleiras das cepas , que dao maior quanridade de uvas , e mais faborofas , e nao podendo unir eftas duas circunllancias ,~^ convem an- tes preterir aqueilas que criao uvas mais doces. REGRA XIII. Nao fe devem tirar as bacelleiras de cepas , que flo- refcem por duas vezes , que dao o fru^to muito tardio , ou muito primeiro cue as outras , exccpto fe deltas fe plantarem muitas cm hum taboleiro de forma , que del- las fe faja commodamente a vindima. RE- ZS ' M E M O R I A « R E G R A XIV. O lavraJor nao dove tirar o bnccllo dc vinhas no- vas ; muito velhas ; e muito ertercadas. R E C R A XV. As bacelleiras tiradas de vinhas do mcfmo fitio , c naturcza dc terra fao as que mais convem ao cuhivador. R E G R A XVI. O baccllo dcve fer trazido de hum litio mais frio , para outro mais quente ; porque praticando o contrario , t'aciimentc collumao degenerar. R E G R A XVII. Nunca o bacello fera plantado em terra peor , que aquclla donde lie tirado. R E G R A XVIII. As cartas de vidciras , e os feus nomes triviaes lao quafi infinites em Portugal. R E G R A XIX. Como Jia cepas , que em buns fitlos dao muito , c em outro^ nada ; por iilb o prudente lavrador dcve cf- colher o bacello que for mais proprio daquelle fitio , aou- de fe fizer a plantagao. R E G R A XX. A efcolhA do bacello nao fc dcve confiar dc outrem , nem E C N O 'M I € AS 8^ iiem comprar-fe a homens , que com elle querem nego- ciar. R E G R A XXI. Quando o pronrictario nao for capaz de fazcr hii- nia convenientc clcolha do bacello , deve commetter ella diligencia ao podador mais experimenrado que houver em cojiliecer as vldciras de melhor cafla , e que mais con- veni para o lltio , aonde pertende fazer a plantacao. Da propaga^ao das Cepas. R E G R A XXII. :jix ■:?£> ':)Dii.;.iic \:i: :iv^D Oik- O terieno , que fe'fefc'blhefr park' bvivdfd', nao deve fer muico forte , nem muito magro , porque as bacellei- ras hao de fer mudadas de liuma terra peor para outra mcIJior ; por iffo fe a mudanga for feita de liuma terra mediocre para outra mais magra , nao fera muita a dif- ferenca. R E G R A XXIII. As bacellciras plantadas nos viveiros em yegos , ou covas podem eftar diflantes humas das outras Unco , ou feis poUegadas. R E G R A XXIV. Nao fo o viveiro fcrve para o Javrador ter bacellci- ras com raizes , mas pode tambem conieguir elle lim (e talvez com mais commodidade) mergulhando .parte das" videiras ja feitas , ou as vides , que nafcem no trolico das mefmas. Dos ?8 M E M O R I A S Dos modos de fazer a plantfl^ao. R E G R A XXV. A plantagao do baccllo le p6de fazer ahrintlo co- vas , ou regos , fegundo o pedirem as ciicunftancias do terreno. R E G R A XXVI. A altura , cm que devem ficar as bacellciras nas co- vas , ou lurribas , dove Icr rcgulada pcla dillaiicia arc aon- de o calor do Sol coituma mais aquentar o terreno de forma , que ieja maior nas terras magras , c pedrago- fas 3 menor nas Jjumidas , e frias. R E G R A XXVII. Os antigos Agricultores recommendao , que a plan- ta^ad do bacello dcvc Icr feita cm dias ibccgados , e nun- ca naqucUes aos quaes tenha preccdido huma grande geada. R E G R A XXVIII. A? barbadas apcnas forem arrancadas , dcvem-fe lo- go plantar , tendo a cautela de cortar toda aquelia par- te que for envcliiecida , que tivcr nos , e cicatrizes , c juntamentc todas as raizes que forem incapazes de receber a nutrigao. R E G R A XXIX. Nas terras fortes , e hiimidas devcm-fc preferir as barbadas a outras quaefr.ucr bacelleiras. R E G R A XXX. As bacelkiras fern raizes dcviao tambeni logo fer plan- ECONOMICAS. 29 plantadas apenas fe cortaflem das videiras ; porem como ifto lie impraticavel , cobrem-fe de terra ate metade do feu comprimento , e o rcllante de mato , porem depcis antes de as plantar devem eflar mergulhadas na agua dez , p,u doze Iioras, R E G R A XXXI. -^ As videiras quando forem tranfplantadas deve ola- vrador cortar as raizes mais groll'as, e aqueila parte do tronco que for mais velha , deixando fomente os ramos mais vijiiorofos. - R E G R A XXX1I.V; ^^^^'^ *^ ^^ : ^ii 9up t emiot Convem tranfplantar as videiras de huitia Frovincia feptentrional para outra meridional , por^ue as uvas ama- durecem nefta mais ficilmente , e dao hum vinlio mais generofo. R E G R A XXXIII. Qando fe plantarem as bacelleiras de qualquer ge- nero que forem , ou as videiras ja feitas , devem ficar humas , e outras perpendicuiares no meio das covas , ou lurribas , e viradas para o Meio dia, Norte, e Sul aquellas mclmas partes , que tambem fe acliavao neftas fituacoes nos viveiros , ou videiras donde forao tiradas. R E G R A XXXIV. As bacelleiras , que houver de plantar o lavrador , nao devem fer de liuma fo cafta , mas de dilferentes ; porem eftas nao palTarao de finco ate feis. Tom. IL M RE^ 96 Memorias R E G R A XXXV. Scndo as vlnhas compoftas de ilnco , ou fels cadas de vidciras , deilas devcm fuzcr mctade , lomentc duas ou tres que a expcriencia julgar mais conveniciitcs. R E G R A XXXVI. Na feitorla do vinho branco talvez fera melhor confervar foiiiente tres caftas de uvas brancas as mclho- res , e pradcar o mefmo na feitoria do vinho tintc R E G R A XXXVII. As differentes caftas de bacelleiras devem fer plan- tadas feparadamente em difFerentes tabuleiros , porque def^ ta pratica fe feguem muitas utilidades , como fazer a vin- dima com mais economia , e determinar a quantidade, £ qualidade de vinho que produz cada. cafta de videira- R E G R A XXXVIII. Felta a plantajad fegue-fe applanar o terreno , e re- dondar as bacelleiras , porem efta operajao deve fer fei- ta depois de terem palTado as muitas chuvas, neves,, e geadas. Da cultura dos hacellbs- R E G R A XXXIX.. Quando fe redondarem as bacelleiras baffa ,. que £- quern com dous ate tres olhos fobre a fupcrficie da ter- ra , e as vides que fe cortarem nefta operajao , devem- fe arrimar as bacelleiras para as defender do damno . que Ihes podem caufar os ventos. R. E- E C O N d M I C A S. pt R E G R A XL. O bacello d€V€ fer cavado em tempo enxuto, pa- ra que o calor do Sol penetre a terra , e obrigue a vi- de a lanfar raizes , e antes que principle a rebcntar , poi- que depois faciimente os cavadores lanjao pot terra mui~ tos dos feus gomos. R E G R A XLL No terreno em que fe faz a plantajao do baceilo ^ pode o Javrador femear alguns vegetaes , poi em O ii § ^ CO P.iUad. in Menf. Februar. tit. 15. § 4. (z) « Vocatur eciam focaaeus palmes , qui folet in bifurco f) meiius prorepere , Sc idcirco cum pracdifto vocabulo ruftici « appellant , quod inter duo brachia , qua fe dividit vitis ena-i » tus velut fauces obfidet , atque utriusque duramenti alimenta ri praeripit. » Colum. lib. 4. cap, 24. § lO. ^ C^) J) Sarmenta lata , vetera , rna!e nata , conrorra , deorfum » fpeclantia recidito ; novella , Sc fru6>uaria reci:a fubmittito. » Colum. lib. 4. cap. 24. § 7. Pallad. tit. 16. § 2. (4) » Subfidiarius idemque cuftos in pollicem refecari non de>4 » bet cum palmx , ex quibus proximi rruilus fperantur , idoneo » loco fax, funt. » Colum, lib. 4. cap. 24. § i^. 14; tot M E M O B I A ^ § GUI. Ainda arefpeiro do pollcgar devcmos ter diias caute- las ; a I. confifte em fazcr fempre o golpc no mcio da- quclle efpafo que ha entre hum , e outro olho , c a fi- guiu lielle dcve ler inclinada para a terra na forma al- iima dcchirada (i) ; e a II. quando fenao puder deixar polle- gar na forma refcrida , algum pequeno raminho que appare- cer , ou verruga que renha algum olho que pofla brotar , podera fazer o feu officio , e quando ifto ainda nao ha- ja ^ fe fara hum burnco que chegue a medulla no corticc da ce].a , naquellc lugar que for convenience (2) . § CLIII. Como a poda he huma operajao , que depende de maior cautela , e vigilancia , pois ncfta confide a confer- vajao da cepa , por ilTo o proprictario que nao quizer ver a total ruina das fuas vinhas , nao as deve arren- dar , porquc os colonos nao attendem a duragao das inefmaa , mas a fazerem huma colhcita a maior que pu-- dqr fer. (1) » Optimum eft igitur medio fere intcrnodio fabfidiarlum •6 tondcre palmicem , devexaraque refcclioncm facere poft ^em- A mim ns fupjrlacrymct , & gemraantem cxcet oculum. n Colum. cap. 24. 16. (i) » Sed (i fjfecis faculras non crit , circumfpiciendus eft fu- B ruT-'vilu.-!, qii quamvis ari;;uftilUme prjecifus in modum vcrru- 2 cne proximo verc marcriam exi^ac , ijuam vel in brachium , B vcl in tr i:}iiar;nm remlctam-is. Si neque is reperiatiir , faucianda j» fcrro eric , ac pc exulceranJa vitis in ca parte , qua pampi- .i num llaJ«;ai4s eiiccrc. » Colum. lib. 4. cap. 24,. §» 17. ECONOMICAS. 109 § CLIV. Pela mefma raza6 rambcm o proprietario iiao deve dar a poda das Tuas vinhas de empreirada , porque os obreiros , querendo adiantar o feu trabalho , cortao mui- tas varas , que deviao deixar , e deixao aquellas que de- viao fer cortadas ; pois efta manobra he de tanra im- portancia , que deve far feita nao com precipita^ao , mas com huma madura reflexao. C A P I T U L O XI. Da Empa , ou Erguida, § CLV. SE as videiras depois de podadas permaneceflem nef- te eftado fern as empar , as vides mais altas quebra- riao com o pezo do feu fruclo , e eile facilmente apo- drcceria naquellas varas , que ficaiTem juntas a terra j e como a a^flividade do fucco fcbre os olhos de hum ra- mo de qualquer arvore, he proporcional a diilancia €m que OS mefmos fe achao da origein do mefmo ramo {Princip. da Fif. das arvor.) , fcgiie-fe que, confer- vando-fe as varas das cepas no feu eilado natural fern ferem incurvadas , o fucco ha de empregar-fe em maior quantidade , e com mais forca nos ultimos olhos : logo neltes he que hao de brotar as varas mais groffas , e de maior comprimento j fendo as outras muito cur- tas J e delgadas. § CLVI. Daqui fe hao de feguir neccffariamente dous incon- venientes .; porque fe o iniprudente cultivador vai atras .jda vara meihor , em poucos aanos morre a videira , fe del- no Memorias dcixa liuma curta , c delgaJa no lugar competente , fica deteriorado na fucura collicita ; logo para que o lavra- dor nao tenha todos cftes graves detrimcntos , fe faz necelTaria a Empa (i) de f6rma , que lb efta faltar aca- b.io as vinhas (2) (cxceptuando as de entbrcado ) em poucos annos. § CLVII. O tempo mais conveniente para fazer a empa de- vc fer antes que as videiras principiem a rebentar , por- quc fc ja das mefmas tem brotado os tenros pimpollios , facilmcnte podcm quebrar quando as vides fe atao as fuas mefmas cepas , ou a algumas eftacas que a cftas fe avizinliao j donde fe fegue detrimento a vidcira , por- que muitas vezes fe quebrao as varas da poda , e ao la- vrador na diminui^ao da coJheita. Da empa feita depois da florefcencia das uvas , nao podemos rccear os fobredi- tos incoiivenientcs •■, mas como o. canal do fucco ate efte tempo tem eftado difpofto em linha retfta , tem ja bro- tado nos ultimos olhos as melhores varas ; e ainda que depois fe faca a empa , nunca ja mais fe criao em lu- gar competente vides capazes de ficarem para o anno futuro. (i; Vir^. Gcorg. lib. II, verf. ^58. Tuiu leves calamos , '6' rafx hajiilia virgjc , Fraxincasqne aptare fn/ics , ftircmqite hicoincs : Finhtis cniti qtiarmn , vice feu potius in omni (urculo naturales ; ununi , quo germi- 7i nee ; altcnim , quo florcat ; tcrcium , quo marurefcat. Hos ergO » mociis ccrjfenc fo'Iionibus concitari. Non cnim narura quoH vulc )) fatis clficit , nifi earn labore aim ftudio juvcris. n Colum. lib. 4. cap. 28. 5 2. (2) P.illadio diz fer muito fingular remcdio o intrcduzir os porcos nas vinhas no tempo dc inverno ; porquc comem a gra- ma, c com QS dentes arrancao as fuas raizes. EcoNbMicAS. 119 Deve tambem a mefma terra ficar toda cortada , e cs inf- trumciuos de tal forma difpoftos , cue o corte ie faga venicdlmente ; porque defte mcdo nao fe ofFeiidem as raizes uas cepas. C A P I T U L O XIII. Do esladroar , do desfolhamento , e do que fe deve pra* ticar no tempo da Jiorejcencia. § CLXXVIII. A Cava ferve de meio para fe recolher o fucco nu- triticio no terreno , o qual he abforbido pelos va- fos das cepas , e diftribuido pelos feus ramos ; porem muitos defies fao inuteis , porque nao produzcm frudo , nem fervem para a confervagao das cepas : logo he con- venience que todos eftes fe cortem , donde le feguem tres utilidades : a I. confifte em fubminiftrar as cepas hum fucco mais abundante ; II. cortados eftes ramos , os ou- tros que tern o frudo , ficao mais livremente expoftos ao calor do Sol , e por iflb mais facilmente amadurecem as uvas (i) : III. as vides que reftao fao mais vigorolas, c adquirem huma perfeita madureza. § CLXXIX. O tempo em que deve fazer-fe efta operajao de- ve fer antes , ou dcpois da florefcencia ; porem nunca jpefte tempo , porque nefte ellado nao deve mover-fe o irudlo -, mas fomente depois que o mefmo eftiver cref- cido podera ter lugar a dita operacao. (2) Os (i) » Super haec materia: , quse frudum habenc menus conva- )) lefcunt , & uvae commodius infolarsc percoquuiuur. Colum. M lib. 4. cap. 27. § ^. (2) )) Tempus autcm pampinationis antequam flcrem viris of- 7) tendar maxime ell eligendum, fed & poftea licet eandem re- 120 M E M O R T A S § CLXXX. Oj ranios iiuitcis devem ler cortados com a mao , e'''iem cjuanto fad tenros , porque a vide Hca com Jiuma mcnor cicatriz , e cfta fe cura mais facilmente : (i) quan- do acoiiteccr , que de hum olho brotem tres ramos , 16- mente fe deixara hum , para o fim de que elle , e o feu fruvilo leja mais vigorolb (2) , e o mefino acontecerii qUvindo brotarem dois. § CLXXXI. Ainda dos ramos fruiftiferos fcrd conve-nlente cor- tar alguiis , I. Quando pela muita quantidade de trudo elle nao podcr ciiegar ao pcrfeito eftado de madureza : II. Qiiaudo a cepa efti tatigada per ter produzido mui- to truclo nos annos antecedentes : porque iiao ibmente devemos attender a maior quantidade de fru^^o , uias tambem a confeivacao da cepa. (3) § CLXXXII. Tambem devem cortar-fe todos aquelles ramos que ■ •j-lr^. nal- )) petere. Mc.iiam igitur eorum dierum fpatium quo acini for- » mantur vineaj-um nobis aditum negac : quippe tlorentem fru- » dum mo/erc non c::pedit. Colum. lib. 4. cap. 28. § i. )) (i) Exque ubi (c frondibus , & uvis vellierinr , tcneris cau- « libus ncc dum adiilcis modus adSibcndus eft. Idcmque vini- yi tor qui ante terro , nunc mnnu dccutier , iimbrafquc compef- )) cec , ac fupervacuos pampinos deturbabit. Colum. lib. 4. cap. » 27. 5 2. » (2) Siq-iidem evcnit ut quidam oculi trigcminis palmis eger- j) m'nent qjibus binos detrahere oporcet quo commodius fingu- » Io3 a!umno3 educent. » Colum. lib. 4. cap. 27. § 4. « (^) Itaque non folum fronJem fupervacuam debet deccrpe- » re quod femper forcundum eft , verum inrcrJum partem sli- )) quaiu Ijccus decutero , ut ubere luo gravacam vitcm levct. E C O N O M I C A S. 121 nafcerem afllm entre os brajos da cepa , (j) como po^ todo o cuinprimento do tronco , para que nao roubem o lucco , que pode fervir para os ourros ramos nccef- iarios , e fru(^liferos , excepto quando for neceilario del- xar alguns dos ditos ramos , para a confcrvafao (2) da cepa. Eila mefma operacao nao deve fiizer-le huma fo vez , mas todas aqucilas que o pedir a neceffidade. (3) § CLXXXIII. He igualmentc multo util , que logo depois da flo- refcencia le cortem as extrcmidades das vides novas , para fegurar hum fucco mais abundance ao frudo , e Tom. 11. (X q"^ )) Idque faciet variis de caufis pampinator induitrius , ctiam fi » non eric maior fruchlus , quam ur maiurefcere queat , fi au- )uem continuis fuperioribus annis duplici proventu tatigata vitis J) fuerit , reqiiiefcere , ac refici par erit , & fic futursc materise 7) conlulendum. n Colum. lib. 4. cap. 27. § 5. Virg. Geor». lib. z. v. 361. Jl: dnm prima novis adokfcit frondibus £tas , Parccudum tcncris : ^ dnm fe Utus ad auras Palmes agit ^ laxis per purum immijjis habetiis , Ipfa acies nondnm falcis tentanda , fed uncis CarperuLc manibns frundes , mterque leg€itd<£. Inde libi jam validis amplexx Jiirpibits nUnos Exierint : turn firinge comas , tunc brachia tonde j /hue rcformidant ferrum tunc : denique dura £xerce imperial t)' ramos compefce jiuentes. (i) )i Turn e caplce quidquid inter brachia viret explantare (opor- B tebit ) J acque cos qui per ipfa duramenta fteriles , nequicquam » niarrem occupant ( pampini ) . » Colum. lib. 4. cip. 27. § 6. (2) » E dura parte auc a rrunco furgentes pampinos fubmove- j) re oportebit , nifi ad renovandam vitem unus atque alter fer- i> vandus eft. « Colum. lib. 4, cap. 27. § 6. (^) J) Pampinatlones quoque fxpe adhibendse , neque enim fatis T) eft femel , aut iterum tota acftate viti detrahere frondem fuper- » vacuam. Prrie:ipuc autem decuricnda funt omnia quae infra trua- a ci caput egerminaverint. » Colum. lib. 4. cap. 17. § 5. t^^ M E M O H I A S que fojao mais vigorofas as varas da p6da do anno fe- guinte (i) ; porem femeJhante opera^ao nefte tempo f6- inente tera liigar nas vinhas fracas ; mas nas fortes , e vigorofas he fupeiflua , porque depois brotao varios ra- minhos por todo o comprimento das varas , os quaes ta6 longe eftao de aliviar a ccpa , que antes a enfraquecem mais ; logo nellas vinhas he mais convenicnte , que a dita operacao fe faga fomente no fim de Agofto , ou principio de Setembro , conforme o anno for mais ou menos tardio , mais ou menos fecco. § CLXXXIV. Em quanto as folhas devemos dizer que fao tao ne- cefTarias , que tiradas cUas perece a cepa , e o fru(5lo , ( faltando huma parte confideravel das mel'mas ) padece hum graviffimo deterimento : logo o defolhamento nao tera lugar muito principalmente nas vinhas novas , fa- tigadas , e plantadas em terrcnos magros ; mas fomente fe cortarao aquellas folhas , que cobrirem- o fruifto , o- qual pouco e pouco ie deve defcobrir , para que efteja mais expoilo aos raios do Sol , e adquira huma maior madureza , (2) e muito principalmente convem efla ope- racao nas vinhas fortes. (3} Ul- (O Cacnmitia flngclloriim confringcre luxurisc comprimendx » caufa oportebit. Colum. lib. 4. cap. 27. § 6. C2) Pubefccntem vcro fru^flum , & quafi adolefccnrem con- K venit rcligare 5 ^oliilque omnibus nudare. Colum. lib. 4. cap. 28. § I. (^) Como as folhas abforbem a humidade da atmosfera , e tudo aquillo , que a mefma traz em diiTolu9ao , tirando parte dellas nas vinhas fortes , diminue-fe a humidade fuperflua , e as uvas amadurecem muito mais , e o vinho he dc melhor cjuaiidade : o defolhamento deve fer tanto maior , quanto mais humido, e frio for o terreno , em que cftivercm plantadas as videiras. ECONOMICAS. 11^ § CLXXXV. Ultimamente devemos advertir , que no tempo da florefcencia pelToa nenhuma entre nas vinhas , nem ma- uobra alguma (e fliga nas mefmas , muito principahnen- te o derolhamento , ou cava ; porque faciltnente cahira o p6 fecLiiidante , c de modo nerJumi fru(flificara6 as vi- deiras : ainda depois dc cahir a flor dcvc haver a mef- ma cautela , em quanto as uvas nao principiao a en- groflar. De tudo o que nefta III. Parte teiiho expofto" , fe concluem as leguintes regras. Da Poda. R E G R A I. A poda he tao neceiraria , que , faltando efta nas vinhas baixas , morrem as videiras em pouco tempo. R E G R A II. Nas vinhas de enforcado paflao-fe annos que as vi- deiras nao fao podadas ; porem as uvas nunca chegao a aimadurecer , e o vinho he tao ruim , que apenas fe con- ferva ate Fevereiro. R E G R A III. Nunca deve fazer-fe a poda , fern que as varas ef- tejao maduras. R E G R A IV. A poda mais ordinaria he de vara. Em algumas par- tes coflumao Ibmente deixar a cada videira quatro , ou CLii fin- ni^ M E M O H I A s iinco pollegares , ou ter*j6es , ficando ncflas o mcfmo nu- mcro de olJios que lb dcixariao nas varas. J-x--^ ^ 3:/D rn^ R E G R A V. Sc o clima he temperado , c nao cahem neves , e gcadas , pode comccar-ib a poda logo que lb acabar a vindima. R E G R A VI. Se o clima for frio , e no mefmo cahir geada , e neve frequentes vezcs , lera fcita a poda foinente em .;FeYereiro , ou Mar^^o j mas fempre antes que as videi- ras comecem a rebentar. R E G R A VII. Algnns cultivadores fazem men^ao de tres caftas de poda 5 Tempora , Meii , e Serodia : a primeira nunca fe deve fazer nas vinlias , onde a neve , e a geada cahe muitas vezes. R E G R A VIII. A poda mea , que fe faz em Fevereiro , p6de fer u:il a qualqucr vinha : a ieiodia , que he feita quando as vidciras comecao a rcbenrar , convem foments as vi- jihas poltas em terras humidas , e liias. R E G R A IX. O proprietarjo que tern muitas vinhas , e nao pode fazer a referida efcolha , fara no inverno a poda das vi- nhas fortes , e viradas ao Meio dia ; e no inverno , e pri- mavera a das vinhas fracas , e viradas ao Norte. RE- E c o M o M re A s. lay R E G R A X. Nas priineiras horas da inanha , fern que fe tenha clifnpado u orvalho , nos dias de clniva , e rr.quLlIes aos quaes tcm precedido geadas fortes , nao he util pcdar as yinhas. R E G R A XL Na poda deve-fe attender , I. que o proprietario te- nha huma inaior quantidade de uvas , lem detrimento das videiras : II. que fiquem para o anno feguinte as va- ras melhores , e mais convenientes : 111. a confeiYajao das cepas. R E G R A XII. Huma parte das cepas pode fer podada alternativa- mente , mais a varas do que a vinho , e outra mais a vinho do que a varas. '•■ R E G R A XIII. Parecendo mais conveniente ao pcdador fazer a po- da igualmente a varas , e a vinho , deve fer feira fcm- pre da mefma maneira ; v. g. fe huma videira ficcir hum anno com dcz , ou doze olhos , cs meimos fe devem deixar no anno feguinte , excepto fe diminuirem muito as forgas da cepa. R E G R A XIV. As videiras que tcm grande valentia , e que fao pof- t-as em terras fortes , ou varges , devem ficar com mais .varas, e de maior comprimento. u-^ua '^ RE- 12^ Memorias R E G R A XV. A poda deve-fc fiizer de forte , que as vidciras an- dem baixas nas terras altas , e madras ; e mais Icvanta- das nos baixos , e terras de muita I'ubilancia. R E G R A XVI. Dcvc haver cautcla para que a videira fcja muito limpa , nao deixando mulgo algum , verruga , ou peque- no raminho ( vulgarmcnte /adrao); cortando juntamcnte a cal'ca que ellivcr fecca , fendida , e pcndurada. R E G R A XVII. Quando for ncceffario cortar alguma parte da videi- ra, a terida que depois ficar deve fer primeiro esfrcga- da com terra , e depois com borras de azeite. R E G R A XVIII. O numcro , e comprimento das varas deve fer ac- commodado as forcas da videira , e quantidade da ter- ra ; advertindo porem que he melhor deixar a huma vi- deira que pode com duas varas liuma fomcnte , do que deixar tres aquelia que nao pode fenao com duas. R E G R A XIX. O comprimento das varas nao deve mcdir-fe pelo das vides , mas fim peio niimero dos olhos. RE- E C O 'N O M I C A S. Saj' R E G R A XX. Qimndo no braco de huma videiia ficarem dims va- ras , nao devem eltar no mefmo lado ^ mas defronte hu- ma da outra. R E G R A XXI. Nao devem deixar-fe as varas que cftiverem muito diftantes da cepa velha , ainda que as m.elmas fejao os mais groffas j e de maior comprimento. R E G R A XXII. O podador que , por defmazelo , cai falta de expe- riencia , procura fempre deixar na videira as varas me- ihores , iem artender ao lugar em que as raefmas fe achao, em poucos annos perde a vinha. R E G R A XXIII. Quando faltar a vara da poda no lugar competente , he melhor deixar antes no mefmo hum pollegar , ou guar- da , do que ir bufcar a vara mais grofla , e comprida , que muitas vezes iomente fe acha na ponta da vara ve- lha : o proprietario deve antes perder o frudlo de hum anno , do que a videira. R E G R A XXIV. Em lugar de cortar as varas velhas do anno antece- dente , podem eftas ficar cada huma com duas novas vi- des , que torem de maior comprimento , as quaes fe mer- guliiarao , ficando cada vide com feis o'hos. RE- 128 Memorias R E G R A XXV. Efta opcracao he muito util em algumas vinlia? ; porque o lavrador colhc inaior quamidade dc viulio , e nao i'e diminuem muito as iorcas das ccpas. •jas a as ccpas. R E G R A XXVI. D^vcm-le corrar todas as varas , que nafcerem jun- to as raizes das cepas , excepto quando liouver neceiiida- de de dcixar alguma das mefmas para a conl'ervajao da videira. R E G R A XXVII. O podador deve cortar todas as varas , que forem largas , mal nafcidas , tortas , velJias , e inciinadas para a terra , c deii^ar lo as dircitas , uovas , e capazes de darein tVudo. R E G R A XXVIII. Qiiaiido as varas ficao mais diftantes do tronco do que convem , deve deixar-le guarda , ou pollegar , para nefte iicar a vara do anno feguinte. R E G R A XXIX. Quando fe fizer o pollegar , fera fcito o golpe no meio da diihncia que ha cntrc hum , e outro oiho. R E G R A XXX. Pode acontecer que o podador nao pofTa deixar pol- legar algum J por nao achar vara capaz para o mefmo ; ncfte calb , algum pequeno raminho , quo apparccer . ou vcr- E C W W Id A s. ti^ verruga , que tenlia algum olho , pode fazer as fuas vC-* ze?. ^■^fi'W-n'A''' ••" ^ • N • • '■'' R E G R A XXXL Nao fendo poflivel deixar pollegar , ou achar algut^ pequeno raminho ( vulgarmente ladrao) , ou verruga, que fupra as fuas vezes , fe fara no lugar competent*? hum buraco , que chegue ate o meio do tronco. R E G R A XXXII. Os golpes na6 devem fer redondos , e direitbsi^ por* que per eiles mais facilmente penetra a neve , e a gea- da ; mas inclinados , ou de foslaio ;> coruo fe expiicao alguns dos noflbs agricultores. R E G R A XXXIII. O proprietarlo que na6 quizer ver a total deftrui- §a6 das fuas vinhas , nao as deve arrendar por poucos annos ; porque ordinariamente aquelles , que as tomao de renda , nao attendem a conferva^ao das cepas , mas fo procurao ter huma colheita mais abundante. R E G R A XXXIV. Tambem o proprietarlo nao dcve dar a poda das fuas vinhas de empreitada ; porque os obreiros ,>e muito principalmente fendo pouco experimentados , querendo adiantar o feu trabalho , podao muito mai as videiras. Da Evipa, R E G R A XXXV. He muito negelTaria a em pa 3 porque faltando eda^ Torn, IL R re- i;o MemohIas rebentao nos ultlmos olhos as melhores varas , e faltao as da poda no liigar compctentc. R E G R A XXXVI. A empa das vinhas deve fer feita antes que as vi- dciras comecem a rebcntar. R E G R A XXXVII. Qimndo a cmpa fe faz enrolando as vides a cepa , devem ficar na parte mats levantada da videira os olhos inais vizinhos do tronco , para que neftes rcbentem as varas da poda. R E G R A XXXVIII. O mode de. empar as vinhas , chamado em algumas partes do Vara dc juilip , he o peer que pode haver , porque nao fe poupao eilacas , nunca amadurccem per- leitamente as uvas , e propaga-fe mats taciunenic a po- drida6» R E G R A XXXIX. O modo dc fazer a cnipa , atando cada vide a fua eftaca , he o meliior ; porem caufa muito maior defpe- za , porque fad hecclFarias cftacas , e os obreiros gallao muito iiiais tempo. R E G R A XL. Ncft^i carta de empa terd o agricultor as fegtiintes cautela> : I. Os olhos mais vizinhos do tronco dcvem fi- car pcla parte de ^Ima : II. A Imma clbca nao convcm atar muitas vides : III. As eilacas ferao capazes de luf- ten tar as varas , de forma que fe nao incurvem. • R E- ECONOMICAS. f^t R E G R A XLI. Querendo fazer ufo das eftacas devem e{!as fer fec- cas , elcolhidas do pao mais duro , que fe puder CiTcon- trar j e p^j-a ter maior durajao , lerao tifnadas aquellas pontas que houverem de fer enterradas. Da cava, R E G R A LII. A cava he muito util , e neceflarja a vinha ; por- que faltando efta , a terra nao recebe a humidade necef- faria ^ para fe nutrirem as cepas. R E G R A XLIII. Nos lugares onde nao cahirem neves , e geadas , c o terreno for magro , pedragofo , e areento ( nao fendo ladeira ) podem-fe cavar as vinhas per todo o invenio ate ao principio de Fevereiro. R E G R A XLIV. •.y;;»oa5 V> Naquelles fitios , onde as neves , e geadas fa6 ixor*,, quentes , fomente convem cavar as vinhas , depois dc • paffado o inverno. R E G R A XLV, Nas terras fortes , e humidas deve fer feita a cav* iias vinhas desde o fim de Abril ate a entrada de Junho* R E G R A XLVI. As vinhas das t^rrgs magras devem fer redradag)'* ■l^5^ Memor IAS ou arrendadas antes que as iivas eftcjao em flor , e nun- ca ncflc tempo \ porque o p6 que l"e levanta du terra , a pouca cautela dos cavadorcs , e o movimento , que fe caula nas vidciras, fazem perdcr a maior parte do fru- R E G R A XLVII. As vinhas das terras fortes , e humidas devem fer xedradas quando as uvas comegao a amadurecer. R E G R A XLVIII. Os obreiros devem ter toda a cautela , para que , na6 fe offcndao as cepas , ou as fuas raizes , e para que fiquem enterradas todas as Jiervas que nafcerem no ter- reno , exceptuando a gramma , ou efcalrecho , o qual d.e- ve fer lanjado fora da vinlia j porque iiicando iia meir ma , cofluma logo renafcer. R E G R A XLIX. A terra deve ficar amontoada , fendo nas terras for- tes , e humidas os montoes maiores , e mais diftantes. Do Esladroar. R E G R A L. Devem-fe corrar as cepas todos os ramos (vulgar- Kiente ]adr6es ) que nao dao fruClo , nem fervem para n, confervagao das cepas. R E G R A LI. Antes que as uvas eftejao em flor ) deve fer feit ffta operacao. ' RE- a ECOKOMICAS. [/«33 R E G R A XLII. Quando de hum olho rcbentarcm duas varas , dcvc fomente ficar luima , para que cfta adquira mais corpa, €• valentia , e o fructo feja mais bem creado. R E G R A LIII. Os ramos inuteis , ou ladroes devem fer cortados com a mao , e em quanto fao tenros. Do Defolhamento. R E G R A LIV. Nas vinhas fracas antes que as uvas comecem a ama- durecer he muito util cortar as pontas das varas para fegurar hum lucco mais abundante aos caches , e ferem melhores as varas da poda do anno feguinte. R E G R A LV. As vinhas fracas nao devem fer desfolhadas ; por- que como pelas folhas recebem liuraa parte confideravel do feu alimento , faltando efte enfraquecem-fe as videiras, R E G R A LVI. A's vinhas fortes fe Ihe pode tirar parte das fuas folhas ; porque fe Ihe diminue a humidade fuperfiua , c as uyas araadurecem melhor. ^r " r R E- t^^ M E M O R I A $ R E G II A LVII. He muito util o dcfcubrir as uvas pouco a pouco , quando principiao a aniadureccr (como praticao na Ilha da Madeira) ; porque , ficando ellas mais expoftas ao ca- lor do Sol , ainadui-ccein mcihor , c o vinlio tem muito mais efpiiito. hiB^. ECONOMICAS. ^35" S3MI Mija« » 'M B llJW»pM l tMiWM W iWtJHIH'l. l M E M O R I A. Sohre a Cochonllha do Brajil. POR JOAQUIM DE AmORIM C ASTRO. CaHus Tunei de Linneo he a plants da Co- chonilha conhecida ncs contornos de -Jaciii- pe , Termo da Villa da Cachocira , com o o nome de Falmatoria : o feu calls he monofyllo , fu- perior , e imbricado : a fua corolla he de muitos pe- talos , polios huns fobre outros : o feu fru>fto he en- carnado , conhecido na frafe dos Naturaliftas com o no- me de Bacca , de huma lo concameracao , que contem muitas fementes : o feu caule he afcendente , ramilicado em varios troncos parciaes : as fuas folhas fao carno- fas , e unem-fe huma^ as outras por certas articulacoes , as quaes produzem outras ; e por iflo Linneo Ihe da o nome de Artie u la prolifc'ra ; cftas articulacoes fao de figura oval , e oblonga , chcios todos de efpinhos agu- diiilmos efpalhados por toda a fua fupcrficie : da extre- midadc de cada huma dellas articulacoes vao nafcendo outras da mefma configuracao efpinhoias : os efpinhos fe achao efpalhados em toda^ a fuperfcie defta planta cm. pequenas moitas : crefce de ordinario a aliura de doze a quinze palmos , pouco mais cu raenos , efpnlhando muito para os lados os feus troncos : quando cila com frucfto he villofa pela bella cor encarnada , que os nxi- iHos moftrao : a cor delta planta he de hum verde claro : cria-fe em os terrenns feccos por entre pedras , e pedja- gtrihos em tanta abundancia , que yor tcdo o krta5 do 1^6 M E M O R I A $ Jacuipe , CAmifao , Tapiciiri'i le encontrno mattas quafi 'inteius d-jfla planta , na a\i:.l fc ciiao os inl'cClos conliocidoi com o nome dc Cochoniliia. Os infcvlios , que prodiizcni elb admiravel cor da Cochoniliia, iao pcqiicnos , convexos pcla parte luperior, c cliaros pcla parte interior , ciibjrios dc him\ pello fi- nifllino , que parece algodao : o leu ab.lomen he ekar- late , as luas antennas Iao duas do fcitio dc lovclas , mais breves do que o corpo : tern feis pernas da cor do meihio abdomen , e os machos quando palTao a fua mctamorfole Ihc nafcem duas azas , com as quaes fe transformao em pequenas mofcas , vivendo poucos dias nelle novo eltado. Edes Iao os infedos que Linneo cha- ins Coccus Catlus da Ordem dos Hemipteros ; e a def- cripcao , que o mcfir.o Linneo da defies , na6 convem com' as obfervafoes que cu fiz fobre as liias quali- dades , as quaes forao igualmente villas , e achadas por outros Naturalillas , que tratarao do melmo ini'e(fto. Linneo a delcreve do modo feguinte : Corpus dep-ejjum , tomentofum , Rugis tranf-verfis : ^ niargincs later ales dorjl utrinque duplices , juperiore breviore : Abdo}ncn purpurafcens , os punfluui fiiblatum € medio pectoris. AntsjuhefubulattC corpore breviores , pe- des breves f nigri. Porem diverfifica em algumas coufas , coino na fi- gura luperior do mefmo inledlo convexa , e nao depref- la i na cor dos feus pes vermelhos , e nao ncgros , co- mo fe ve na defcripgao ; fe deve , ou nao perteucer a Ordem Hemiptera , ou Diptera por Ihcs naieerem duas azas na fua Metamorfofe , eu nao defendo a cxac9a6 dos fyllemas \ fique clle trabalho para aquelles , que tern per hm femelhante objecTio. Parece que mais propriamente devcria fer referido a Ordem Diptera , fegundo a divi- Hio geral do mefmo Linneo. Ellc infccto fe acha fobre a planta , cfpalhado por ■ to- E G O N M I C A S» T?,7 toda a fiia fuperficie cm pccuenas leas , ccuio ce cr^' nha , que os ccbrem ., e formao as ncdcas brsrcss , qu£ fe obfervao ,na mefma. arvore. Eftes le niitrcm do fucco da dita pianta , e ie mui- tiplicao com huma prodigiola abundancia por todcs os ii- tios , por onde exifte a prefente arvore , de forte que do mez de Setembro em diante ie pode fazer a lua colheita pelos lugares por oiide fe encontrao. Todo o Mundo labe o grande artigo de Commer- cio que fornece effe genero aos HeJpar.hdes , os quae?: tirao das fuas conquiftas lium prodigiofo numero de ar- robas deile infecfto , c que pela utiiidade vifivel , que pre- fenta ao noffo Eilado o eftabelecimento de hum tao atten- divd ramo de Comraercio , deve fer tratado com toda a individuafao , e feriedade. A Cochoniiha , que fe exporta do Mexico aonde crefce com abundancia , he conliecida em pequenos graoii- iihos , de huma figura muito irregular, ordinariamente con- vexa por hum lado , e concava por outro , de cor de purpura por dentro , e por fdra de hum vermellio dene- grido , e de hum pardo cor de cinza hum pouco miftu- rado de vermeliio. Ellas fao as cores que cara^fterizao a boa Cochonillia , e fazem por ilfo prcferivel a do Me- xico a outras que nao tem eftas qualidades. A fua configurayao , e a fua particular fituafao fo- bre certas plantas , dc donde fe extrahia no Mexico a Cochonillia , fez penfar a muitos que era hum fru(n:o ve- getal , que fornecia efta preciolirtima tinta tao eftimada -no Commercio , ate que as obferva^oes de alguns Hef- panhoes em I5'90 , e 1601 , e muito principalmente do P. Plumier em 1690, fizerao crer que a Cochoniiha era Jium infetflo , que nafcia , e crefcia no Mexico fobre hu- ma efpecie da Opuntia , ou ligueira da India ; e ja ho- -je nao entra em diivida femelhante queflao pelas repeti- (jias obfervacoes dos Naturaliftas. Tres fa6 as colheitas que fe fazem no Mexico da Cochoniiha j huma dos cadaveres dos n.efmps infedos , Iwu U, ^ OS I^S M E M O R I A S OS quaes dcpois de parirem os feus filhos , morrem nos feus ninhos , pafl'ados alguns dias , fegundo a maior, ou mcnor rigoridade do tempo ; c tanto que os filhos def- ies chegao ao eftado de poderein muhiplicar , e produ- zir outros , fe tirao das planras com muita precaujao com huma efpecie de pincel : erte o outro eftado em que OS Ijidios fazem a feguiida collieita , a que os Hefpa- nJioes dao o nome dc Granila , e chegao a cortar as mefmas arvores , a que elles chamao Nopals , e guarda- las em cafa com os mefmos infed:os para fe nutrircm , e viverem durante a eftacao da chuva , que os dellroe muito. Preparao osMcxicanos a Cochonilha de tres modos, fazendo morrer o infcvfto ou na agua quente , ou dentro de pequenos fornofinhos , ou em bacias cJiatas poftas a fogo brando : elles tres modos de preparar a Cocho- nilha dao tres differentes cores a mefma ; o primeiro a reduz a huina cor parda avcrmelhada , perdendo o bran- co exterior , que cobre o mefmo animal vivente , e [he dao o nomc de Cochonilha denegrida j o fegundo a faz cinzenta esbranquijada , chamada Cochonilha jafpeada ; c o terceiro a faz negra , cJiamada Cochonilha negra. De todas eftas cores a mais eftimada he a da cor parda avermelhaAdii , femelhante a do Mexico , e fobre cfta ma- teria mais dilfufamente fe podem ver a DifTertagao de Dh Fay , em 17^6, Mr. de Reaumur , a Encyclopedia nefte artigo , e o Diccionario port at il de Commercio , torn. 2. art. da Cochonilha. A abundancia defta planta por todo o Certao na dif- tancia de 20 , 25" , 30 leguas da Villa da Cachoeira , como eu mefmo obfervei , facilita a exccucao defte im- portantifTimo ramo de Commercio ; fem que feja neceA lario mais do que procurar o meio de fazer oihar aos naruracs do paiz para efte objec'lo com utilidade. Dj or- dinario as terras mais fcccas para outra agricultura fao as que produzem a Palmatoria fertiliiTima da Cochoni- IJia : a falta de utilidade que rcprefcnta nelle Eftado do Bra- ECONOMICAS. 139 Erafil aquelles infeflos , o incommodo com que os tiiao das Palmatorias por falta de ulb , e exercicio , e a natu- ral inercia a outras agriculturas , que nao fejao aquellas que aprenderao dos feus maiores , lao as verdaceiras cau- las que impoffibilitao aos Naturaes a execucao , e adian- tamento defta cultura , e ramo de Commcrcio da Villa da Cachoeira , e feu Termo. Obrigar certos homens a eila cultura repugnante aos feus principios , e a fua utilidade , feria atrazar mais efte objedlo , que adiantalo. ■ Eftabclecer os meios mais proprios , e mais aptos para_convJdar aos lavradores para efte genero de agri- cukura fern conftrangimento algum , e coacjao , he o ca- minho mais preferivel , e efficaz de confeguir , e por em pratica efte tao vantajofo ramo de Commercio , que para o futuro promette grandes , e certas utilidades ao Eftado. Comprar-fe por conta do mefmo Eftado nefta Capi- tania , em quanto fe nao eftabeleceffe geralmente por pre- ^o grande , e certo a producjao defta cultura , animaria , e convidaria a muitos a execucao , e adiantamento defte projeclo y porque tendo immediatamente a utilidade dos feus trabalhos por prefos vantajofos , fern arrifcarem a maior , ou menor decadcncia de feu genero , fe propo- riao feriamente a efte objeclo , vindo a perceber o Efta- do para o futuro vantagcns conlideraveis. Conccder certos privilegios , ou ifen^ao de algumi tributo , aquelles que foflem lavradores groflos , que co- Iheifem , e exportaflem certas quantidades de livras , ou arrobas , a tranfplantajao entao defta planta fe faria com mais frequencia nas fazendas , e roffas dos melmos la- vradores , e fe aproveitariao tantos terrenos iauteis com Jhuma planta tao util pelo infecto que nella fe cria. Ifentar o genero de pagar nis entradas das Alfan- degas direitos , e fazelo livie , e ampla a fua exporta- §a6 , concorre muito para o feu eftabelecimento. *■' Serem preferidos nas Rematajoes Reaes dos Contra- S li tos , i49 M E M R I X $ tos , ainda por menor prego , aquelles que fizerem algum pagam^nto d Fazcnda Real com a Cochonilha. Os terreiios devolutos concedercm-fe aquelles, que os occiiparem com elte genero de planiafao. Eis-aqui os meios mais proporcionados para fe obter o fim do eftabelecimento , c conferva5a6 defte ra- mo de Commercio. Dc nenhuin modo he conveniente que a introduc^ao , c eft.ibclccimento dclle ramo dc Commercio vcnha a deC- truir a confervajao de algum outro , igualmente attendi- vel pelas urilidades que ja fe experimentao. Os lavradorcs do aflucar poderiao julgar-fe capazes pela multiplicidade de efcravos , que de ordinario tcm pcqucnos , e de diverfos I'cxos , para a colheita da Co- chonilha , fe acafo nao obllalle o outro maior inconve- nientc de cftarem fucceiTivamente occupados os feus ef- cravos ja no corte das cannas , ja na moenda do Eiige- «ho , que por trabalhar no Vcrao nao da lugar a fcbre- dita colheita , por fe dcver fazer clla no me-imo tempo , rem as terras dos lavradorcs de cannas lao capazes da dita plantagao , por ferem os terr^nos difta feccos , e arenatos , e o das cannas argillofcs , e humofos j e fe aquelles lavradorcs fizefl'em toda a feiia reliexao lobre a niantacao da Palmatoria , e a extrncgao da Cochonilha ^ cmpregando nellc exereicio os feus efcravos , fe veriao obrigados entao a defampararem as fuas cuiruras das can- nas , e empregar-fe nella com prejuizo geral do Com- mercio daquelle genero. E fe algum incommodo fe encontra com os lavrado- rcs de cannas , e fibricadorcs do alfucar ncfle cftabeleci- mento , muiro maior , e grave he o que fuccederia aos lavradorcs de tabaco , fe fe vilTem obrigados a planta^ao , c extracfao da Cochonilha. Eu tenho calculado bem o trabaliio , e labrico defta importante lavoura do tabaco, que abforve , e confome todo o tempo ao lavrador , quer no preparo do terreno , e plantacao da mefma planta no Inverno , qucr no fabrico , que he no Verao , com o qual E C © IT M T C A S. j^t qua! fe occupao todos os brajos dos efcravos , tanto grandes , ccmo peqiienos ; aquelles nas operajoes de maior forja , elles na de menor , como na de pinicar o fumo verde , e conduzillo neile eilado , e feeco para a cafa do fabrico. Oil bera Iiao de cuidar nella importante cu]tura , ou deixarem-fe della para outra com prejulzo total do au- gmento defle ranio de Commercio , e quando fica ao la- vrador do tabaco algum tempo, que he fo no Inverno, improprio para a colheita da Cochoniiha , o aproveitao ra plantacao de mandiocas , e milhos para a fuftentafad dos mefmos lavradores , e efcravos , nao devendo per confequencia implicar o piefente efl.ibelecimento com as duas agriculturas , de que acabo de fallar. Devendo efte eftabelecimcnto formar huma particular agricultura , na qual fe empreguem homens defoccupados , ou lavradores de outra qualquer agricultura , que nao fe- jao as mencionadas , tirando della a fua primaria fubfif- tencia , como os lavradores tirao do tabaco , e do alTu- car , e os Mexicanos das Provincias de Tlafcalla , de Guapaxa , de Guatimala , de Honduras tirao defta parti- cular plantajaS , fornecendo annualmente conforme o Calculo de Mr. Du Fay 88o(|)ooo livras de Cocho- niiha. Vindo a refultar das obfervagoes feitas fobre a pre- fente planta , conhecida pelos habitantes doPaiz com o Dome de Palmatoria , e por Linneo com o de Caclus Tuna J e fobre o infecfto da Cochoniiha com o nome de Coccus Cacti , como de principios certos , eilas infaliiveis confequencias. Trimeira Confequnncia, A abundancia da Palmatoria fertiliiTima do infetflo , ^a Cochoniiha , que exifte por todo o Certao do Jacui- pe , Camizao , e Itapicuru aifegura o eftabelecimcnto ^ti- te linportantiffimo ramo do Commercio. Xi^l M E M H r A s Segunda Coiifcquojcia. O eftabelecimento de hum prcjo ceito , e vantajofo para 03 lavradores dcftc gcncro por conta da Real Fa- zenda , em quanto os mcfmos nao podem anilcar os feus trabalhos , facilita o eilabclecimeiito dclla agiicukura. Terceiva Confequencia. Eftabelecer certos privilcgios , ou ifencoes de on^is aos lavradores grollbs , que t'orncccrem annualmenrc maior quantidade de livras , ou de arrobas ao Commercio , con- vida voluntariamente aos mefraos a dita agricultura , e o faz gerai ; necclLirio requifito para a lua confervajao. A cxportajao delle genero Jivre de direiio nas Al- fandegas refpeClivas nos principios dos I'eus eilabelecimen- tos , le faz indifpenfavel , o que ellabelecido, he de necel- faria confequencia obter-le o interelTanre relult^do da pu- blica , e particular utilidade com efte outro genero dc Commercio , que em lumma abundancia podc fornecer a Conquilla , augmentando por eile modo a malTa geral do Commercio externo. As experiencias que tenho feito fobre a cor da Co- chonilha extrahida da Palmatoria , em nada he inferior a do Mexico \ ainda os Naturaes a nao Ihbem prcparar do modo que deva fer exportada \ porcm com facilida- de fe confeguira eile fim , fazendo-fe-lhe ver o modo com que a devem extrahir das plantas , e o com que a devem prcparar. A amoftra que apprefento , tirada das mefmas plan- tas , da bcm a conhccer o atrazamento defte genero : de ordinario no principio todos os eflabelccimentos ef- tao fujeitos a eftas imperfeicoes , que a experiencia , e o tempo vao emendando : ella faz ver a exiften- cia deile mfedlo nefte continente , onde fe cria era fumma abundancia , u fua quaiidade , e bondade. EcoNOMicAs.' r4j Se do Brafil fe tirafTem as utilidades ; que os feus objeclos ofFerecem , que vantagens nao tiraria o Efta- do , e que mafias de Commercio nao forneceriao ? Se as Sciencias Naturaes ilium inarem os feus Nacio- naes , os reiultados fera6 certos , e de huma necefia- ria confequencia. i.r AI^ 144 Memorias M E M O R I A Sol^re Paul d'Otta , fuas caufas , e feu remedtQ, For Estevao Cabral. I. ^^^ Orre o rio d'Otta no fitio chamado Paul H d'Otta com tao pouco declivio , que junto ^'— ^ iflo a elcalTa agua , que no tempo de verao traz o rio , deo lugar a que no leu alveo nafcellem , e crefceflem hervas aquaticas cliamad.«.s buinho, efpadana &c., enrre as quaes abrandando a agua das cheas , ahi depoz o lodo , e entulhado o alveo , efpalhou-fe pela vizinha planicie , e gerou o pauI , do qual , e das fuas adjacencias na vizinha varzea de Alemquer levei o Mappa , que a efta Memoria fe ajunta , a fim de melhor examinar as caufas do dam no , e de propor o lemedio , que fao os dous fins do prefente difcurlb. II. Quanto ao primeiio , ifto he , as caufas , obfcrvo , que a Natureza por ^i mefma na primeira origem nao ge- rou paiies , fenao no cafo de'brotarem da terra nafcentes fubterraneas : eftas com a continua^ao levao comfigo a terra, que as devia cobrir, e lao capazcs de caular nao f6 paul , mas lago , do que ha muitos exemplos. Aonde nao ha nafcentes fubterraneas , nao dcveriao naturalmente ver-fe paiies j e muito menos neftes baixos lugares do Riba-Tejo ; pois fabem todos , que o antigo Occcano era muito mais alto, e mais amplo que o preiente , e cobria OS campos de que agora failo : retirarao-fe as aguas do Occeano , defcobrio-le parte do feu fundo , comejarao a cOiTrej: nelle delloberco as aguas das fontes , e as da chu- '<^*'- va. E cONCMtcAS. *i45r va , e poiico a poiico forao pelas mcfmas profundp.dos os valles, hmis mais outros menos , fegmido que erao , e iao faceis a levai-fe pcia corrente os materiaes cxiftentes em cada hum lugar ; em lorma que ao menos no baixamar nao devia haver agua , que nao correile com ccntinuada queda. Nem huma tal regra tern excepfao,, lenao na foz dos rios , que emboccao no mar largo, e iilo por cutros motives. in. Efte he o modo , eftas fao as cordicoes naturaes , com que fe formarao a varzea de Alemquer, e a outra varzea do rio de Otta , indicadas no Mappa , ilto he , de- via em ambas haver huma queda pofitiva , natural , e continua das fuas aguas ate ao Tejo. Logo fe a queda falta , e fe reduz a nada , e mais ainda , i'e a queda em yez de fer pofitiva, (e faz negativa , de modo que pof- iao as aguas nao fomente deter-fe , mas tornar para tras , fegue-fc dahi claramente , que algum impedimeuto fe Ihes atraveflbu na eftrada ; pois de outro modo nao feriao era tempo algum detidas , nem retrogradas. IV. Com efta idea, fyficamente demonftravel, confiderei attentamente os dous valles chamados hum Paul de Otta , outro Varzea de Alemquer, As aguas de ambos vem a parar no Tejo , e cada valle tern feu rio a quern em- prefta o nome. Entrao eiles rios no Tejo ambos juntos em hum fo alveo no ponto A , e juntos defcem desde a ponte de Villa-Nova , na eftrada real , que vai de Lisboa a Santarem ( Mappa let. B ) . Da parte de fima da ponte rem quafi parallelos , em alveos differentes , cavados a mao com grande cullo por todo hum quarto de legua \ mas com queda defigual de modo , que ao moinho ( Mappa let. C ) por baixo da roda do dito moinho , achei a agua do rio de Alemquer mais alta que a do Otta 8 palmos ; c por fima da roda 12 palmos , ifto he , 4 palmos mais, caufados pelo aiTude do moinho. Paflado o dito ponto do moinho , ambas as aguas tem direc^ao oppofla , a do rio de Alemquer vem quafi do Poente em alveo arginado , c cavado a mao , defde o ponto do moinho ^ate a onde %Qnu IL X . dure I46 M E M H I A S dura a varzea de Alcmquer , teiuio femprc a direlta a iTicfin:i varzea , e a cfqucrda colleando os outeiros a dla cmminentes , indicados no mappa. Vc-fe claramciue , que a natural direc^ao da corrente era pelo mcio da varzea ate ao Tcjo i a outra direcjao ao redor dos outeiros f'oi aberta na6 fei em quo feculo , e arginada j e por ella corre o no com qucda de 10 ou de 12 palinos pouco mais ou menos em cada quarto de legua , ate onde dura o piano da varzea. E efta he a queda natural defta agua , que nao pode com arte humana nem augmentar-fe , nem diminuir-fe , fegundo as regras Hydraulicas. V. O rio de Otta vem correndo da banda oppofta mui- to mais humilde , com queda fomente dc 2 palmos em cada quarto de legua : elle nos primeiros dous quartos de legua fobre a ponte de Villa-Nova vem fundo , e encanado artificialmente pouco mais ou menos ate o pon- to L. No reftante em quanto fe eftende a fua varzea ate o Moinho do Louro ( na planta let. H ) , vem arginado , c em alguns lugares com o leu alveo luperior ao campo. Niveilado elle campo , achei que a fua fuperficie fuperior- mente vem defcendo , como diflemos que he natural nas varzeas formadas pelas aguas : e deveria fempre continuar na fua defcida , mas as aveflas fobe elle de modo , que as partes mais fundas da varzea fao as que eftao no meio della, nos dous fitios L , e M em ambos os paiies da varzea defcriptos no mappa , de forma que fe fe deixa Ijvre a entrada as mares, fobem ellas pelo rio aflima, e cobrem de agua o terreno baixo no meio da varzea , ainda no preamar das mares menores ; mas as partes mais vizinhas ao Teio , e determinadamente as contiguas a ponte C , nem as maiorcs mares de aguas vivas , nem as cheas do Tcjo podem igualallas. Donde he claro, que a varzea de Otta faz concha, e rem. declivio negativo , e retrogrado. VI. Confiderada qual pofla fer a caufa defta defor dcm , ella nao he o rio proprio da varzea pelas razoes ja dichs, muito mais que o mefrao rio em toda a ami- gui- E'CONOMICAS. 747 guidade fempre aqui correo , nem pode correr em oiitra parte, pois tern a fua efquerda os montes de Villa-Nova. Tambem na(j fao caufa da defordem nem as mares , nem o Tejo , que tanio affima por terra dcntro nao podem introduzir lenao alguma porcao de finillimo lodo , incapaz de refillir a agua perenne e corrente dos montes. Pelo que he evidente , que o terreno elevado que aili ie acha lie depofi^ao do rio de Alemquer. Tenho por ccufa iem duvida , que quando o rio de Alemquer fe tirou do meio da fua varzea , e ie conduzio arginado cofteando os outei- ros ate ao iitio ja nomeado do moinho C, ahi entao ie fez a uniao das aguas , que agora fuccede quafi immedia- tamente paflada a ponte de Villa-Nova. Achei em hum antigo papel noticia , que eila ponte que agora he de dous arcos , e cada rio paiTa por arco differente conftava no anno de 1626. de hum fo arco , pelo qual paiTava toda a agua de ambos os rios : o que confirma muito mais a mjnha propofi^ao do ajuntamento das aguas ao moinho. O fim da uniao talvez foi para poupar huma ponte na eltrada real , reduzidos os rios ambos a hum lo alveo : mas qualquer que foife o fim intentado , o cafo Jie , que fendo os rios de diverfa qualidade hum do ou- tro , ifto he , de defigual queda , deligual elevajao , e de- ligual abundancia de area , foi por confequencia o baixo alveo do de Otta entulhado pela area do de Alemquer ; as cheas defte innundarao a varzea do primeiro , e depo- iitarao no fundo da varzea tanta terra , que fechou ao de Otta a fahida da varzea ; e fe fez nella o paul que pelo mefmo motive , como logo diremos , fe eftendeo as varzeas da Md paga , e de Arcino com grave , e annual damno publico continuado por feculos. VII. Tal foi a meu parecer a daranofiiTima caufa fy- fica efficiente do paul de Otta. Mas ja que nomeamos o paul de Arcino , e no msppa eila indicado , qual feria a caufa delle ? Refpondo , que foi a mefma mediatamente. O rio de Otta recebe o da Ma paga , ou de Arcino no fimo 4a varzea , e ainda que nao arrafta tanta area j^como o T ii ' de '^4^ M ft M R I A $ de Alemquer , com tudo traz alguma. Confideremos ago* ra o que leriadefta area , quando o de Otra clhva parade, e feito lago no tundo da varzca ? A rcfpt>^ii Jie clara , depofiriir-re nriis allima aonde o rio pcrdia a iovi^a. Af- fim luccedeo, depofitou-a no por ilfo- naiP Ij'O M E M O R I A S nao farei meiicao fenao das principaes. Confidcrei ncfte paul varicdadc de inimigos , e fao os rios dc Otra , e da M;i paga , o Tcjo nas fuas ciicas , as marcs , a cnxurra- da de algumas ellradas , c vallas externas , que introdu- zem area , a terra que calie das pontes fcitas dc matto com terra em fima , as hervas aquaticas , a negligcncia, ou aindci a malicia dos rendciros , e dos Minillros , c o rio de Al'-*i^^4>-'cr. XII. Os primciros inimigos Hio o rio de Orta , e o da Ma paga. Eftes rios , nao tendo outro dclaffogo fenao pelas vallas do paul arginadas , nao ha contra eiles outra dcFeza fenao limpar as ditas vallas para que nao dete- nh.io a corrente , tirando-lhcs a area , lodo , arvores , e hervas , Sec. Na valla real , comprida iiuma legua e meia , forao em algumas partes tirados fete palmos de terra , depofitada da depoficao das cheas do Otta , e que alii li- cava entre as hervas. A valla foi deixada no feu fundo de largura moderada , para que a agua clara ordinaria corra fcm detenca : nas partes mais baixas forao-lhe da- dos vintcoito palmos , e nas mais altas vinte ; mas a ter- ra foi bem arredada dos vallados por dous motivos ; pri- meiro , para que a chuva a nao precipite de novo no nm- do da valla j fegundo , para que as cnchentes tiveflem aonde correr fem arrombar os vallados : e feria optimo fe as fuperticies dos vallados nefta valla fe deixaflcm en- cher de raizes de filvas , e de outro matto para firmeza do terreno. ,, XIII. O fegundo inimigo he o Tejo quando enche ; i terceiro fao as mares. Contra eftes a defeza que fe ufou , foi a rcftaura^'ao da porta chamada jldufa no fundo do paul. Efta porta foi feita depcndurada por charneiras , conftruidos de novo para tal fim os degraos do lumiar. Ella , fem diligencia de obreiros , ou de criados , por fi mei'ma olferece prompta fahida as aguas interiores , e ao primeiro apparecer da mare quotidiana logo por li mef- ma fe ve fechada de modo , que nunca as vallas recebcm outra agua fenao a que defce de fima. Poflb affirmar, que ei- EcONOMICAS. t5't efte facll , e fimples artificio foi aquelle , que enxiigou o paul de Otta ; porque em todas as horas a agua das terras achou dcfocciipadas as vallas , nas quaes cahfo. XIV. Qiiarto inimigo he a area das ellradas , e a ter- ra das viliflimas pontes de matto. O remedio , quanto as pontes , foi desfazelJas , e conilruir pilaftres de pedra , e pontes ao menos de madeira. Qiianto as enxurradas das eftradas , e monies , o unico efficaz remedio he ufar contra elJas todos os annos de balde , e pa ; mas ,. por fortuna, eftas n efte paul nao faomuitas. Entre todas po- rem necefTita de maior attenjao a area das eftradas , que vao ao Moiniio tantas vezcs nomeado, lettera C. Ella a quem a ve parece pouca , mas defla pouca , e das mas hervas depende inteiramente o efgottar-fe a parte do paul chamada Braco , que he de todas a ma is baixa.. XV. Quinto inimigo fao as hervas aquaticas , inimi- go maior , do que commummente fejulga^ pois nao fo entretem a agua para que nao corra , mas muito mais porque fez parar o lodo , e entulhar as vallas com to- tal ruina fe fe nao acautela. Efte inimigo he geral nos fi- tios demaziadamente pianos , e requer repetida limpeza duas vezes no anno , huma no fim da Primavera , para que nao multipliquem em femente , outra no fim do Ou- tono 5 para que nao prejudiquem no Inverno , cortando- as com fouces bem firmadas na ponta de proporcionadas varas. Para que commodamente , e com maior brevidade fe pofla ifto executar na maior valla do Otta , fiz deixar por toda q\\^ a flor da agua huma perpetua banqueta , ou degrao , por onde os trabalhadores caminhem na ac- gao de cortar as hervas. XVI. Sexto inimigo fao os rendeiros , e tambem o?- Miniftros , que , por falta de economia , querendo pou- par na diligencia da limpeza das vallas , as deixao meio entulhadas j ou no cafo que as alimpem , nao fazem ar- redar para longe o lodo ja tirado ; e deixando-o pen- dente na borda ffa valla , vem de novo a cahir dentro 3. en derrubado pelas cheas , ou arraftado pelas chuvas*. t^z Memorias Ncfte paul , para que nunca mais os rendclros , nem OS Minillros deixem iia valla principal entulho coiifi- deraVel , Hz por no fundo limpo da valla em de- rerminados Jitios lignaes Hxos de pcdra , os quaes lao indicio ate aonde le deve tirar a terra nas occorren- cias. XVI. O ultimo inimigo lie o rio de Alemquer. Eftc , ja dille , que ao Moiiiho C he doze palmos fuperior ao Otta leu vizinho. Pelo que , quando elle foi o lu- gar da uniao , era entao inimigo ncceflariamentc ven- cedor ; e , como fica provado , elle foi o que em taes circumilancias gcrou o paul. Agora a uniao lie a poiite de Villa-Nova , hum quarto de Jegua mais abaixo : e ef- ta no tal fitio o Alemquer quafi ao nivel , que tem o de Otta ao Moinho ; pelo que em tempo chuvoio , hum fo palmo mais de agua que corra no dc Alem- quer , ja efte impede o de Otta ao Moinho ; e nas enchentes , em quanto o de Alemquer nao dcfpeja , convem ao Otta eftar parado , ou fer retrogrado. Nao he necellario provar , que efta retrograda9a6 he damno- fa ; e prefentemente , para que o nao feja , fiz cxe- cutar varios rcmedios em difFerentes partes ; mas nun- ca fe podera impedir que o de Otta nao feja eftaciona- rio , fe a divifao , que foi feita ate a ponte de Villa- Nova , nao fe continuar ou ate ao Tejo , ou ao me- nos ate onde chamao os Armazens. Nivellei o fitio , e defce ate la o Alemquer outros quatro palmos ; e fe aflim fe dividilfe , nao ferviria de impedimento ao de Otta ■ ji fenao nas cheas fuperiores a quatro palmos : as quaes ou ' fao raras , ou lao breves ; e por ilTo nao as coniidero en* tre as coul'as damnofas. XVIII. Aqui rem a propofito a feguinte pergunta* Se o de Alemquer fe dividifle do de Otta ate ao Tejo , adquiriria por ilfo o Otta a queda natural , e o ellado primitivo, que desde o principio diflemos Ihe era devido? Refpondo : Tirar-fe-hia ao de Otta o fetf iftimigo princi- pal : mas para obter o fira propollo , ja parece fer tarde; por- E c o N" oMvi r-c A s. jiy-^ porque eftii agora o alveo do de Otia \'-io'Ierit a do , e de- tido artiiiciaJmente em dous pontes. Eu me cxpiico de^ clarando outro erro hydraulico ,■ que , alem dosja ditos , achei no de Alemquer no fitio , tantas vezes nomeado , do Moinho C. He o de Aiemquer rio de planicie , nem tern outra queda , on incliiiajao ienao a que ja noiamos^ que he devida , e proporcionada a quantidadc da lua agua , e qualidade da fua area , a qual queda lie dedez, ate doze palmos em cada quarto de legua ; na verdade notavel , mas necefl'aria ; pois os rios nao devem confi- derar-ie fomente como agua corrcnte , mas como hum compofto de agua corrente , e de area corrente j fc foiTe fomente agua , pouca inclinacao Ihe bailaria para correr ; mas agua , e area requer tal queda , que fo a naturcza a fabe proporcionar em cada rio ; e huma vez proporcio- nada , infallivelmente a conferva fempre , excepto le acon- tecerem mudanjas no alveo. Em vao trabalhara , fe al- guem quizer profundar huma cova na area corrente ; el- la immediatamente fera entulhada de nova area. Pelo con- trario , fe alguem puzer impedimento a area para que nao corra em hum rio de planicie , atraveifando-o , por exemplo com hum aflude , toda a area fuperior, topan- do no dito allude fe ira difpondo ate formar por toda a extenfao da planicie hum novo eftrato de area em todas as partes parallelo ao primeiro , fobre o qual adquira a corrente a fua antiga forja : de forma que fe o aflude tor I de hum palmo , por toda a planicie fe entulhara hum pal- mo o alveo do rio. XIX. No prefente rio de Alemquer foi , junto ao Moi- nho , conllruido hum aifude de quatro palmos : ifto baf- ;ta para levantar-fe o rio , e caufar graves damnos na fua jvarzea , na qual ainda agora corre arginado , e fujeito a 'quebradas : mas eita varzea nao he o objedo do meu dif- curfo , tornemos ao de Otta. Digo , que do mefmo mo- do incidentemente , e inocentemente eiia agora tambem o |de Otta encoftado como a dous afludes. Primeiro o limiar jou piano da porta do paiil / fegundo a ponte de Villa- ^tm. II V No- t5'4 Memoiias Nova , ou a fua caljada. Scm profundar , e proporclonar tftes dous impedimentos , refpondo a pcrgunta negativa- mente : proporcionados ellcs , ainda mc fica muita diivi- da y porqiie nao fei fe o de Otta Tendo piano lera capaz dc arraftar a ar^a , que enconftrard introduzida no feu al- Teo pelo de Alcmquer. XX. Tenho dito quanto no paiil de Otta me parece que p(5de intereiTar efta Academia. a HL'Er. E C O N O MI C A S, iff M E M O R I A Sobre os damnos caufados pelo Tejo Has fuas ribanceiras. For Estevao Dias CA^bhal. CAPITULO I. Difcurfo Prelhriinar, I. r¥~^ Endo-me ordenado S. Mageflade por meio I do liluftriffiiTio e Excellentiflimo Senhor Vif- -*^ conde de Villa-Nova- daCerveira, que vifitaf^ fe , e examinaflb as ribanceiras do Tejo , e referille o meu parecer acerca dos damnos do dito rio , e dos re- medios que fe Ihes podem applicar , fahi de Lisboa pa- ra o Riba-Tejo aos dez lo de Margo do anno 1789 ; e completadas , como pude , as diverfas obferva^oes , re- fer! em efcrito , a quern devia , os meus penfamentos. Agora 5 ja que fe julga conveniente , que as dltas obfer- vafoes eu as exponba tambem. nefta Aflembl^a , venlia prompto a fatisfazer ao que fe me ordena , narranda fielmente o que obfervei , e refer! , fern mudan§:a alguraa na fubftancia J e fomente eftendendo raa!s algumas razoes, vifto eftarmos em lugar de Academla , lugar confagrado' ao eiludo da verdade , e das fciendas. II. Para expor as circumftancias do Tejo , e da^ fuas adjacencias com a devlda clareza , como em tanta varie- dade , e multldao de coufas , quaes podiao encojitrar-fe na extenfao de quinze , ou mais leguas , fode ncccirario liaver ordem , e methodo , determine! comejav o exame V ii da. •t;6 M E M R I A S J;! parte fuperlor , parcccndo-mc for cfla a ordem mals natural dos rios que , nafccndo todos no mais alto da terra , vao a parar ao mar. Conhcci logo , que os damnos , objcv^o do nieu exame , nao crao couiii nova; porque ja desdc o anno 1770 tinhao fido os mcl'mos , reprefcntados em hum Mappa , o qual comprchendia o rio , e as fuas adjaccncias desdc Tancos ate Alhandra : cfte Mappa , pa- ra minha inft:ruc9a6 , me foi dado pclo lUuflriflimo , e Ex- cellentiillmo Senhor Condc de Valladares , Superintendcn- tc das obras do Riba-Tcjo. Para hi de Tancos nada no Mappa ic continha ; porondc nem eu vifitei as margens do rio luperiores a Tancos , nem julguei por ora nccclTario vilitallas , confiderando que os damnos luperiores , quan- to a qualidade , lao homogeneos a cftcs , que referirei ; e na quantidade fao incomparavelmente muito menores ; porque o Tejo mais iuperior corrc pela maior parte fe- chado cntre montes , ilto he , nao tem tantas planicies que polfa damnificar. Depois da conftruc^ao do referido Mappa nao pode duvidar-fe ter o rio caul'ado muitas no- vidades nas iuas praias : mas os damnos principaes todos OS achei com fufficicnte correfpondencia ao que o Map- pa me repreicntava. Donde por huma parte pode con- cluir-fe , que S. Mageftadc foi fielmente bem lervida na conftrucjao do dito Mappa ; pois nao he jufto negar o louvor merecido por leus Authores : e por outra parte poderei eu agora , fern erro , explicar com o mefmo Map- pa as minlias oblervajoes , as quaes efpero declarar por modo facil , fem ufo de principios reconditos , fern affe- dlaf ao de calculos , e de formulas , e fem pompofa , e fuperflua erudicao ; tendo em mira fomente o bem da agricultura , e commodo da navegajao. III. A importancia do negocio em que devo fallar , nao fe pode comprehender fenao do modo feguinte. Me- didos por mim no Mappa , que me foi dado , todos os mochocs , e areaes exiftentes dentro do alveo , e leito do rio desdc Tancos ate a Azambuja , e Salvaterra , e excluidas as margens , c tudo o que ella f(5ra deJias , e as E ft KT M 1 c A fe, r5'7 as partes fuperiores , que nao eflao no Mappa , reduzido tudo a bra^as quadradas de dez palmos , achei brajas 9:5'^8(|)5'oo , foiHinadas na Lifta que efta no lim , as quaes diftribuidas em inoios de terra, a razao de iO(;^368 bra^ as em cada moio , fazem moios de terra perdida c)6 1 ; que , por fer tudo piano , e bem fundado , e da qualida- de dos campos neftas partes experimentados , baftaria pa- ra fuftentar huma Cidade de quarenta , ou de fincoenta- mil habitantes. Tal he a ferida , que no Riba-Tejo pa- dece a agficultura ! Ferida , que por fi fo pode fer di- gno objeclo dos mais ferios penfamentos da Augufta So-- berana , que felizmente nos governa. IV. Mas nao para aqui rodo o damno. Ajuntem-fe as terras allagadas , e as areadas fora das margens do rio nos campos da Golega , de Santarem , de Vallada , &c. -y ajuntem-fe as arruinadas de Tancos para fima , e- as damnificadas de Salvaterra para baixo ; ajuntem-fe as que eftao em perigo proximo de ferem deftruidas , e fa- rao eftas (fenao me engano) iguaes , ou maiores fommas que aprimeira, como facilmente podera qualquer conje- cturar. Por eftes , eporoutfos motives , todo o Tejo me pareceo hum labyrintho , fobre o qual , para eu fer guia-- do de algum fio , julguei necellario dividillo em duas par- tes : chamarei a primeira de Tancos ate Vallada , e Sal- vaterra Tejo alto , Tejo rio , Tejo fern mares j chamarei a fegunda , de Salvaterra ate Sacavem , Tejo baixo , e com mares. Exporei em primeiro lugar brevemente as prin- cipaes obfervajoes , e damnos do Tejo alto. Difcorrerei em fegundo lugar dos remedios convenientes aos ditos damnos. Finalmente , farei o mefmo do Tejo baixo , de- clarando primeiro os damnos, e depois propondo o re- medio.- CA-r- ijS f M E M O R I A S C A P I T U L O II. Ohfervacocs do Tejo alto. V. T T E o Tejo rio Real , e rio Perenne ; Real , por- JL J. que conlerva o proprio nome ate o mar •, Peren- ne J como he notorio. Os rios perennes collumao ler dc trea fortes ; buns chamao-fe Encaixotados , ou Encova^ dos ; ilto he de ribanceiras , e caixa tao fundas , quanto he necelTario , para que as enchentes nao extravazem pe- los campos circumvizinhos : outros fa6 Arginados , que levao as cheas. entre vallados , ou tapadas ardficiaes , eo- mo he o P6 na LomlDardia : outros chamao-fc Innundan- tes \ as cheas dos quaes nao podem conter-fe entre de- terminados limites. Que o Tejo feja deftcs uitimos , e o feja por neceffidade , o du^a a grandeza das liias cheas , o moftrara o feu fundo , o declarara a fua largura , o manifeftarao as fuas margeus : o que tudo pafla , conM> vou a referir. VI. Medi em Punliete na entrada do Zezere a altura das grandcs enchentes , conhecidas nos fjgnacs , que 2.% meiinas collumao deixar , e as achei altas fobre a agua clara do rio aie palmos 48 , e duvidofamente ate 5'o. Na torre de 1 ancos forao achadas as mefmas de palmos 36. Na Barqainha , aonde o Tejo comcja a alargar por vaf- tos areaes , acliei fubirem a altura de palraos 27. Na Go- lega, aonde a planicic he mais vafta , lobem a palmos 25". E ncfta altura , pouco mals , ou mcnos , fe confervao a-te Vallada , e Salvaterra. Dahi por diante vao diminuin- do atxi fe confundirem com a marc. De- palTagcm direi- aqui , que coriendo o Tejo a/hm em Punhete , como i torre de Tancos fechado entre montes j ninguem por iflb fufpeite engano na diverfa medida das enchentes em ca- da hum dos fitios. A razao da varicdade he , porque em Punhete eftao as cheas no feu natural eftado ; mas a tor- re de Tancos fao ja proximas a aiargar-fe por planicies con- E c o N M r c A s. 15^9 contJnuadas; fao por iflb aqui chamadas a fupcrcle inais baixa , e tem maior queda , na qual accclerao a carrei-- ra , como em piano inclinado , diminuindo a altura i' medida que crel'ce a velocidade. Obfcrvei tambcm a lar- gura da agua clara em alguns litios , aonde corria toda junta , e a achei das fcguintes medidas ; em Tancos de palmos 1700 ; na Golega de palmos 2000 ; paflada a Chamufca 2200 j em Porto de Muge 2700. A profundi- dade da mefma agua clara he defigual , mas quafi fem- pre pouca , de modo que aonde o rio fe aiarga muito , nao pafTa de tres , ou de quatro palmos. Quanto as mar- gens fao reguiarmente de dez , ou de dozs palmos , de- pois que o T^jo entra em rerdadeira planicie na Gole- ga. Eftas fao as obfervagoes , das quaes fe convence , que elle rio he por neceflldade dos que diffemos Innundan- tes , fendo claro , que para encovallo em valla , ou cai- xa feria for^ofo profundar o feu alveo a proporjao das enchentes ; e alem difto , confervallo no meiiiio eftado. Mas qual forja humana tanto pode ? Para reduzillo a fer arginado feria neceflario fechallo entre altiilimos vallados , o que mais abaixo veremos , que tambem nao he poffivel. VII. O primeiro grave damno que encontrei, he de-- fronte da Barquinha o grande areal chamado iio Mappa ArSas da Martintina \ comprido ao menos tres quartd* de legua , e largo meia legua , o qual, fem diivida , foi feito de terrenos levados pelas cheas , e poflas as areas no feu lugar. No dia de hoje todo o rio fe inclinou para a praia da Barquinha , e para a quinta da Cardiga , pertencente aos Religiofos da Ordem de Chrifto (Map- pa n. 2.) , OS quaes Padres fe defendem , como podem , defte inimigo , que Ihes batte as portas para os arruinar. Ouvi quem accufa os ditos Padres da forte oppofijao , com que refiftem ao rio : mas na verdade achei , que el^ les fe contem na limples defenfiva , fem offenderem a banda oppofta ; pois habitao hum terreno alto , o qual JiUnca pertenceo aoTejo, e por iflo com razao \i onao; que. j6o M E M O R I a s qucrem. ProvciM a Deos , que todus os confinantes do rio lizelH-m outro taiito ! O cafo he , que quanta rciil- , maravillm , fe iliccedeife pelo contrario. Advirto , que a valla corrc funda , ifto he , mais baixa que o vizinho piano da te'"ra, reguknnente cinco palmos contados ate a fuperficie da agua clara. E com efta reflexao quero iignificar , que bs campos para a valla tern boa efcoante natural : a qual nao obilanre , achei por quali todas as partes geralmente hum erro infupportavel , e he que pelo medo das cheas da val- la, nao fe permitte que os campos efcoem nella. O pn- meiro campo mais vizinho a Santarem lan^a a fua agua fein nenhuma regra fobre o fegundo , efte fobre o tercei- ro , e affim os mais por todas as leguas ; e lo no fim vizinho a Azambuja achei ja impaciente duas , ou tres vallas efcoantcs com portas de mare feitas a pouco , por ordem do Illullrifrimo , e Excellentiffimo Senhor Ccnde de Valladares. Nao poffo deixar de louvar o penfamenio Tqih. IL Y def- I70 M E M O R 1 A S dcftas poucns vallas : mas a boas contas , devendo eftas receb^r tantas aguas , tbi necelTario abrillas grandcs , e de muita defpeza ; c fo podem fer uteis aos campos oiais vizinhos , nao lendo polTivcl , que ellas chamem a li com proniptidao as cliuvas dc varias leguas longe. XaII. a valla pois da Alleca tern outro crro , do cjiial nao polVo entendcr a caufa j e he , que no feu fim ( mappa n. 16 ) deixando a linha re(fta , com que corre por tantas leguas, torna para traz , e vai entrar no T6jo em fitio muito Tuperior ao que Ihe feria devido , e vem a perder de queda ao menos hum palmo e meio , por mim nivellado. E coniidero que o mal he , e cada vez fera maior , porque na volta roe , e deve por necelTidade roer fempre a margem concava , e depozitar na convexa , fe- gundo a regra geral das aguas correntes ja aflima dita ao § 13. Ha no Tejo alto muitos mais damnos que os reteridos , e feria nunca acabar , fe os coHtaffemos todos miudamentei e fendo elles femelhantes , feria quail fem- pre dizer o mefmo. Onde podemos aqui fazerponto, e paflar a fallar dos remedios , e reparos conveniemes. C A P I T U L O III. Propaem-fe as repara^oes dos dannios do Tejff alto. XXIII. T) Ara reparar os damnos do Tejo alto , nao- JL falta quem proponha o endireitar todo o rio em iinha red:a. Propofta optima fe folTe poUivel exe- cutalla : mas o Tejo nao confente ifto de nenhuma forte , ■A maneira dos outros rios quantos ha no mundo , nem valem ranto todos os campos damnificados , quanto feria neceflario gaftar para executar efte projedo. Alem difto , he ccrto , que os rios ja cilabelecidos nao caufao dam- no ; como tambem he certo , que os rios tortos podeni fer eftabelccldos nao obftantes fuas torturas. Pelos termos rios eftabelecidos entende a Hjdraulica aquelles , cujo aiveo ;, e leito tem a forja da agua equilibrada com a rc- iif- E (f 14 6 M 1 c A s. ijj: flftencia das margens , e com a do fundo : cites ire m po>' dem alargar-fe , nem profundav-Ie , em quanto dura o equilibrio j e por fi mefmo he evidcnte , que o equilibrio ou nafuralmenre , ou artiticialmente pdde proporcionar-fe ranto nos rios direitos , como nos tortos. XXIV. Algum outro propoe que fe fagao rias mar- gens do Tejo conrinuas rapadas tao altas , que polTa6 conter as cheas. Primeiramente , ja difle que eftas clieas: em Tancos entre montes fao ate palmos 50 fobre a agua prefente ; onde ieria neceflario levantar as tapadas a mef- ma altura , e ainda a maior fe quizeflemos confervar ao lio a largura , que elle tern defde Punliete at^ a Torre de Tancos. Nem ferve fazer-fe maior a largura , e diminuir-. fe a altura , porque ainda affim fe faz a propofla impof-; fivel por varios principios , hum dos quaes f6mente direi j e he, que fechado o Tejo entre tapadas feria neceffario cuidar nos canaes para conduzir ao mar as ribeiras, que no T^jo fe perdem ; e fao no lado direito a Azi-^ nhaga , a Ahnondega , outra, que entra emSantarem, e a AfFeca ; e no lado efquerdo a ribeira de Ulme &c. Efta he a condicao , com que na Lombardia , e em outras partes do mundo fao arginados alguns rios. Sao planicies vaftas , nas quaes ha commodo de conduzir ao mar as chuvas fem as introduzir no rioarginadoi o que no noiTo Tejo nao vejo como pofla praticar-fe. XXV. Pelo que, iem perder tempo em confutar im- pofTiveis , digo , que fomenre fe deve cuidar em con- fervar o rio no feu eftado prefente : confervem-fe as tor- turas , confervem-fe as margens , e fe cuide , em que nao haja nellas novidade. Examinem-fe as caufas das novi- dades , e com ellas fe contralle ; pois enfina a Hydraulica, que OS rios em fi mefmos nao confentem novidade fem nova caufa : tirada acaufa, tornao elles ao eftado antigo. Teremos occafiao de inculcar de novo efta Lei no § 34. XXVI. As caufas no Tejo alto podem reduzir-fe fo- mente a duas. Primeira , os mochdes , os quaes obrigao o fio do rio a bater nas praias , e a abrir nellas goiva : y ii fe- Iji M E M R I A S fegunda , a mefma goiva dcpois dc conic*;:ada ;^ que ?ivz rLlutcr o rio na praia oppolhi mais abaixo. Excmplo : lahc o Tcjo em lancos de cntrc montos , c por caiila dc anrigo mo^liao dcgcncrado hojc nas areas da Marrintina , vai a fc-rir nas praias da Cardiga ( mappa n. 2 ) j e da C.srdiga vai de novo a bater por baixo do Pinheiro ( map- pa n. 7 ) : k crelcer a goiva da Cardiga , 011 I'e enrre a Cardiga , e o Pinliciro naicer novo mocliao no mcio do rio , ira por certo o lio do mefmo rio dar pancada em outras praias com damnos novos ; conferve-ie por tanto lem novidade a goiva da Cardiga , intime-lc guerra a todos OS novos mochoes por pequenos que lejao , e nefte modo Ibmcnte I'e podcra cfpcrar algum proveiro. - XXVII. Delcendo ao particular j logo que o Tejo fahe de entre montes em Tancos , calie continuamenre vizinho a pedra viva dos melmos montes ate a Barqui- nha i mas huns pequenos mochojs indicados no mappa Tu I., ja comegao a dividillo. Podcm elles dcsfazcr-fe antes que crefcao : e o desfazer efles , e outros mochoes ; nao confille fenao cm arrancar as arvores alii naicidas , ou paradas , deixado o que he terra a difcri^ao do rio , la- vrando-a tambem fe for nccelVario. Seria conveniente que o dircito da lenlia dentro do rio fe concedeiTe geralmente a todo o povo , e que alcm diflo houvellc homens depu- tados a cite fim de fazer arrancar dos mochoes do Tejo alto quaefquer fortes de arvores. XXVllI. A' efqucrda do Tejo no diro lugar comejao as areas da Mattintina mencionadas no mappa , nas quaes exiilcm algumas vinhas , que o mappa tambem nomca ; c eftas demoftrad que a forca de plantajoes de arvores , podem OS areaes reduzir-fe a fer de alguma utilidade j porquc entre as arvores , entre arbuftos , e hcrvas coituma o rio dc'por o lodo , e area mais tacilmente , e muito me- Ibor , fe Jao baixas ;i flor da terra, como juncos, e vi- dcs. A razaohe, porque em taes calos dimiiiue a agua a forca , com que corre , e fe toda a forca fe perdclfe , Uido dcporja , como na agua morta. E ja que fallei de arvu- E G N O M I G A S. 175 avvores ,■ advirto , que por arvores , todas vezes que as nomear, nao entendo ja huma , ou duas fileiras de fal- gueiros na margem do rio , mas verdadeiro bofque fern alguma medida. Vi alguns exenipjos do como devem fer r e hum dos bons exifte vizlnho a Azinhaga nas Praias do Infantado : e fao intiiiidade de pequenas vergas de fal- gueiro plantadas em muita vizinhanca humas das outras. Tern hum perigo as arvores , e he , que feja6 roidas dos animaes : nao importa , fe ficao as raizes , renafcera6 dellas mais baixas ; e fao na verdade as arvores quanto mais baixas , tanto melhores ao intenro. Mas fe fe deze- jao em algum fitio arvores defendidas dos animaes , ha. fabugueiros , que fao optimos , ha gieflas , ha outros' arbultos , que conhece a gente do campo. Tornan- do porem as areas da Martintina , nao vejo , porque nao' fe poiTao ou todas , ou parte dellas conceder em premio' a quern as reduza a ferem de algum prellimo. XXIX. Ellao nas margens do Tejo , pallada a Gar-^ diga , alguns olivaes da Golega ate a quinta da Labruja ,. plantados em terreno fujeito as cheas , e dcpois fe feguS a quebrada principal , por onde o rio invefte os campos. Em rodo o comprimento defta margem acho indicios' claros , que o Tejo antigamente correlTe mais dillante, pelos areaes da Martintina , e feria conveniente obrigallo a antiga fuuacao : mas a difficuldade he grande ; e fica mais facil ao menos fortificar quanto fe pode a margem prefente. E a efte fim fe ofFerecem logo a villa a reftau- racao dos dentes , e das tapadas,,de. que fe fallou ailima, § 8 J e II J com a coiiflrucqao de outros vslJados , e ta-- padas menores em diverfos lltios , e com affundar algu- mas barcas , aonde fe julgallb neceifario defronte da prin--. cipal quebrada : mas importaria tudo gaftos enormes. AJlim que, pelo meuos he indifpenfavelmente necelTario ,, que logo ie fortifique com frequentes eilacas pequenas ,. e verdes de toda a forte de arvores a terra baixa entre a margem do rio , e a quebradura da tapada nova , para, que fe nao acabe. de afiundar o dido lltio : e alem difto,. que- 174 Memo r i a s que lb leiliaure a tapada nova, e o Icgundo dcnte menJ cionado no § 8. XXX. Ncftcs tcrmos proteilo , quo Ibu por neccfUdadc obiigado a proper contra a rcgra gcral do § 25- , que fc contrarte com as caul'as , c nao com os cfteitos im- raediatamente. Declaro-mc inimigo de tapadas , inimigo de dcntcs , e de dilHculdades. As tapadas ao primeiro ai'pedlo pareccm boas , mas fe ellas liuma vcz fe rom- pem , vem o damno fegundo a fer maior que o primeiro. Conildero as tapadas , como hum remendo nas obras da Natureza, e nao como huma condijao neccHaria. No cafo prefente, fe a Natureza aplainou Icm tapadas o campo da Golega ; como he po/Tivel , que agora o dito campo nao pofTa confervar-ie J'em ellas ? Alguem me refponde- ra , que o Tejo tendo areado o feu leito transborda pelas pianicies. E eu replico , que fe o rio tern areado , na6 Jie mais que poucos pahiios infufficientes a tanta ruina : e tenho para ilfo argumentos incontraftaveis , dos quaes ja notamos o que barta no § 10 A verdadeira caula do prefente perigo dos campos da Golega acho-a eu nos areaes da Martintina , e nos moclioes da banda do Pi- nheiro. Os ditos areaes ainda por fi fo fao claro , e certo indicio , que o Tejo antigamente paflava ou no meio delles , ou inteiramente da outra banda longe do fitio , donde agora calie fobre a Cardiga , e fobre a Go- lega. Foi fem duvida hum mochao , quem o obrigou a voltar-le a efta parte ; ncm poffo achar caufa de femc- Ihantes males , fcna6 na difgrajada dos malditos mo- ch6es. XXXI. Sc pois alguem me fabc end nar o modo, como fe polTa agora reftituir o rio ao dito feu antigo leito , cortando huma legua dos areaes da Martintina , aceitarei a li^ao dc boa vontade ; e cederei nefle cafo de quanto afllma propuz no § 27 , e 18 , fobre o polTivel ufo dos ditos areaes. Somente poderao queixar-fe os Arraes da Barquinha , fe o porto , que prefentemente gozao , fc tijraflb. Mas o hem publico nada perderia ; pois em lu- gar ECONOMICAS. 175! gar do porto da Barquinha , ferviria igualmenfe O porto de Tancos. Tudo fao bellos projedos : mas entre tanto confedo , que nad.fei proper em favor da Golcga fenao o remendo da tapada , remendo miferavel, difpendiofo , fempre perigofo , e talvez inlufficiente. Alem da tapada aconfelho , quanto poflb a todos os intereflados no campo da Golega , que fa^ao viva guerra a toda a arvore , e fe he pofTivel , a toda a herva verdc do mochao no map- pa n. 6 , e de todos OS outros pequenos mochoes , que no rio fe vao formando ; excepto aquellas arvores, as quaes bem fe conhecem ter pertencido a praia da Gc- lega , e que fao reliquias da mefma praia. XXXII. E ja que tratamos de arrancar arvores dos mochoes do Tejo , poderd talvez ifto mefmo praticando- fe fer util para cortar , e cavar fern grave defpeza os areaes da Martintina : pode digo , nos ditos areaes deter- minar-fe , qual fe dezeja o alveo do rio , e arraiicar-fe do lugar determinado tudo o que fe achar verde. Nao oufc affirmar qual efteito poiTa efte preparativo produzir em tempo de enchente , mas he natural , que achando-fe c terreno movcl ^ fera cavado , e profundado ;, e fe facilitara a abertura do novo alveo. XXXIII. Pertence tambem ao damno do Tejo a ruina da eflrada real entre Santarem , e a Golega. Sei que ha- vera , quem a feu tempo podera faier praticavel a dita eftrada real : mas por ora como remedio provifional , pa- rece-me fe pode em todos os iitios , aonde a eftrada he funda , ou aJagada , encher de molhos de vides , e de outras arvores fixadas com algumas eftacas , e com area por fima para commodidade dos Paflageiros. Se ifto fe praticar , efpero que o mefmo T^jo vira a depor a area lobre OS ditos molhos , e elle mefmo reftituira , o que roubou , e deftruio. XXXIV. Com femelhantes molhos de vides , e de outras arvores fe devem atraveft^'ar nos iitios , que fe jul- garem mais convenientes , as alvcrcas , que a agua teni cavado pelos campos, mas com intenfao fomente de obri- gar Xjd 'M E M O R I A S gar a ch^a a deixar a depofijao do lodo , c de encher o Jugar cavado. Dcvc-fe confidcrar a naturcza do fitio , e ic Jia de tcr por objedo mimcdiato , que a choa vindo nao corra , mas To dctonha como cncliarcnda : puis fo Delia torina-, e iiao em ouua , ella dcpolha o que comfigo traz de lodo , area &c. XXXV. A' elqucida do campo da Golega vai o Tejo abrir a ji dita goiva do Pinheiro , e deixa areal da banda direita : rebate depois a direita nas Praias do lufantado, abre goiva , e deixa areal da banda elquerda. Dos areaes devc fazer-fe ranto calo , como fe la nao eftivcflem :. e quando muito fe pode cuidar , em que nelles nao crefjao arvores. Contra as goivas fe devc applicar toda a attcncao dos Engcnlieiros : mas o accrtar com o remedio del las nem fempre he f.icil. Guilhelmini author clallico na Hy- draulica dos rios , e que fempre fera claflico , nao obllantc o que contra ellc dcclama Mr. Bernard , adverre que o principal rejuedio , e o mais efficaz he desfazer a caufa, e o obftaculo , que obriga o rio a dar pancada. Quero referir aqui as fuas palavras , porque I'ao importantcs , no Jivro da Natureza dos rios Cap. V. Prop. 7. Coroll. 12. Dez'c-fe rejle^ir Jobre as caufas , que produzciu a goiva -^ -jerque desfazellas as vezes ferve mais que todas as defezas do viundo , e frequentemente fuccede , que a cau- {"n desfazeudo-fe por Ji mefma , fcni que algueru advir- ta faz acrcditar j'ein vierectmento hunia obra ynal idea- da , e peoi' exccutada. Doude vcm , que quern achar as verdadciras caufas dos ejfeitos perniciojos ^ que aconte- ceni nos rios , podcrd muitas vezcs com pouca dej'peza , e trahalho obter intento dczejado , c feja regra uni- verfal , que fempre be mais /eguro rcmediar as caufas , do que refiftir ao effeito. Ellas caufas pois no Tejo fre- quentemente fe achara ferem mochoes novos : tirem-feel-. tes mochoes, acabara a goiva, e deHipareccra o areal. . XXXVI. Algumas vezcs huma goiva a efquerda pro- duz mais abaixo outra a direita , e elle me parece fer o Ciiib das goivas prefentes no Pinheiro , e- nas Praias do. In- ■* Ef C O N O M 1 C X S. • 177 Infantado : o remedio mais certo contra a fegunda me pa- rece fer o remedio da piimeira. Fallando por lanto To- mcnte da primeira goiva , fe antes della fenao dcfccbrir algum mochao culpado , fera final, que clla ie fez ou por fraqueza da praia , ou por queda natural do rio. Neftes cafos ( pejo aqui licen^a para me demorar alguma coufa fobre OS primeiros principios , que deve faber todo o Engenheiro Hydraulico ) neftes cafos o remedio fao efta- cadas , nao na goiva mefma , na qual por caufa do fundo , e da corrente impetuofa he erro fazellas , mas mais aifima defronte do principio do areal correfpondente a goiva , a juizo do prudente executor, aonde pareja que fe pode in- clinar o fio, ou corrente do rio , para que nao va bater na goiva. Tenha-fe por certo , que fenao liouver erro na obra , obedecera o rio , como quizerem. Nos cafos poreni importantes para nao errar , convem tirar exaifta planta da corrente do rio naquellas vizinhancas^, e da planta fe tome regra. XXXVII. Quanto as eftacadas , he fonho cuidar , que para dobrar hum rio , como he o Tejo , baftem eftacas batidas a mao , pequenas , e mal feguras , quaes eu obfer- vei em Jiuma goiva no mochao do Infantado , defronte do Porto de Muje, as quaes abanavao com a agua clara. Ellas parecerao-me contta a regra firmadas na mefma goiva : mas pode fer facao algum efFeito , porque efta goiva julgo fer de genero extravagante , e della faliarei ao § 39. Aqui fdmicntc accrefcento, que para femellian- tes eftacas he neceflario macaco : de outra forte , fe o Tejo obedecer fera acafo ; ou fera pela razao indicada nas referidas palavras de Guilhelmini , ifto he , que a caufa por li mefma fe desfez. Da figura das ditas efta- cadas , he queftao , como deva fer , fe por direito atra- veflando a cori^ente, ou por comprido acompanhando-a. A experiencia enfina , que em alguns lugares baftao as primeiras J as quaes por mais breves fao de menos cufto; em outros lugares requcrem-fe as fegundas. Em ambas fe deve, quanto fe pode^ obviar a dous inconvenientes : Tom. IL Z hum , I7S M E M O R I A S hum , que o rio as nao vcnha a ccrcar , c converter eni ilJia : outro , que do fim dellas nao volte a correntc para traz , fazendo , como dizem , redemoinho. O primeiro ie evita comecnndo a cftacada em praia sa , inteira , e nao roi'da. Ao I'egundo inconvenience , quando fe vcja luc- ccder , fe pode obftar com algumas cftacas mais , as quaes interrompao o giro da agua. Coilumao-ic alcm difto por as eftacas dobradas , e cntre cilas molhos de arvores com pedras dentro , ou coufa lemelhantc , que os prenda , e tenha firmes. Da altura das eftacadas Icmbro-me ter lido cm Carletci que bafta deixallas a flor da agua : e Gui- Ihclmini no lugar cirado diz que pouco , ou nada ferve fabricallas yutiito altas. Em muitas obras , aonde a cor- rentc he mais branda , baftao em vez das eftacas molhos verdes com pedras dentro. Mas deftas , e outras miude- zas lera melcra a experiencia. Paflemos adiante. XXXVIII. Defte fitio Fraias do Infant ado e Cha- mufca ate Santarem , ja dille , fao trcz Icguas de confu- iao , § 21. O mal parece-me dcfefperado , nem fei que coulh fe pofla obrar ; fenao como le faz nas doencas gra- ves , que fe tome tempo. Conililtem-fe os Barqueiros , qual Jie a carreira da navcgacao \ ja que tambem a na- Tegacao he ourro objecflo, a que fe attende. Onde , todos OS mochoes pequenos da carreira da navegacao fejao des- teitos , ate vcr fe a corrente fe poe em termos , e em fiftema , o qual de efperanya de fer firme ( muitas vezes fallo contra os mochoes , porque nao conhejo nefte Tejo outro mal maior ) . Nefle cafo fe faja bofque de arvores a dircita , e a efquerda em todos os areaes , para que com o tempo venha a fer reftituido o terrcno que falta , eftrcitando-fe o rio , e cohrindo-fc de terra os areaes. cuide-fe geralmcnte neftes , e em outros lugares , em que a agua clara corra toda junta fem mochoes em Jium ^6 alveo, e eftrcita quanto poder fer. So alhm ella cavara Q fundo do rio : 16 nfhm dcfpejara as cheas com pron- lidao : fo alTim fe facilitara a navega^:a6. ■ XXXIX. Alguns dos remedios ja ditos podcm appli- car- ECONOMICAS. ^79 Car-fe ao reftante do Tejo em tcdos os fitios femelhan- tes aos referidos , que nao fao muitos. Eu fo frJIsrei dos que me parecem de diverlb genero. Corre a clqucrda do Tejo- a valla chamada de Alpiaca defde a Chnmufca ate Eicoropim. Efta valla defronte de Muje dlvide-fc do Tejo , mediante hum campo , que chama-ie no mappa mochao do Infant ado j mas aqui he mal applicado o nome de mochao , por fer elle na rcalidade parte dos campos, e nao coufa nafcida no rio. A prefenga defies fitios me moilra , que por culpa do mochao Esfolla vacas , o qual fica a direita com outros immenfos mochoes , abrio o Tejo goiva na praia efquerda , ate entrar na valla de Alpiaja , e achando fundo , e queda daquella banda amea- 9a de mudar alveo para a dita valla , a qual alargada ja leva em fi boa parte do rio , em forma que os barcos fazem por ella a fua carreira. Na queda pois em tempos de chea inclinao as aguas a fuperficie , ganhao impeto , batem o mochao , e ameacao deftruillo todo. Andavao- fe-lhe ad:ualmente levantando algumas obras , das quaes ja fiz mencao ao § 37 : mas duvido , villa a qualidade da queda , que polTa nunca haver reparos fufficientes ao intento. Poderia propor-fe como remedio , fechar a valla pela banda de iima : mas he provavel , que na primeira chea feria ella de novo aberta lateralmente ^ achando a agua queda. Pode propor-fe fechalla pela banda de baixo da parte de Salvaterra : feria efta huma obra de maior efficacia \ mas nao fe deve executar , porque impediria a navegacao de Muje. A caufa de tudo forao originaria- mente os mochoes da outra banda , deftruidores defte fallb mochao ; mas o mal immediato , e prefente ja nao fao OS mochoes , he a queda , que o rio ganhou fobre a valla ; queda, que nao fei , fe fe podera veneer, fenao a forja de groftas , e compridas eftacadas , com as quaes fe enfine ao Tejo qual deva fer a margem do feu alveo. Mas huma obra violenta fempre ficara perigofa em tal fitio j nem eu fel , fe o m6Gha6 amea^ado , coniiftente em moios 25' , ou 26 , vale tanto , quanta feria a def- Z.ii pe- l8o M E M R I A S peza r.ecciTarla. Em fumma he eftc hum dos pontes , qu^ cnconirci para mim dc maior ditficuldade : Ic bem , con- ildcrada a naturcza do rio, podc ellc mefmo cazuahiiente introdiizir na valla ranta area , que vcnlia a dcsfazcr-fe a queda , e a rellaurar-le o damno j mas dillo por ora nao vi cfpcranca. XL. Tornando a banda direita , fica depois de San- tarcm o paul da Alseca , povoado de rans fern numero em vcz de gados , femeado de juncos em vez de i'earas , e ja mencionado ao § i8 , e 19. Julgo perdida toda a cfpcranga de fe Ilie podcr abrir clcoante , e lomente a ganharia , fe a emenda da valla , de que fallarei no § Icguinte , fofle mais vizinha : mas ella acaba ao menos 3 Icguas longe. O unico modo de beneficiar cfte paul he altcnllo por mcio da depoiicao da agua turva , com as rcgras , que perfcrevem os Autores da Hydraulica , parti- cularmcnte Guilhelmini no Cap. 1:5. Dillingue efte Autor dous modos de altear os terrenos alagados : hum quando a agua turva fe introduz nos campos a fortuna , e a reveria , fern algutna ordem ; outro quando fe introduz com regras certas. O primeiro modo he pcrigofo , e ca- paz de t'azer , que outros alagamentos legundos fejad inaiores , que o primeiro , affogando-fe as terras , que pelo palTado cftavao fora da agua. O fegundo modo , reduzido em poucas palavras , confillc em cercar dc vallado o ter- reno , que fe defcja altcar , ou todo, ou em parte, dei- xando no mefmo vallado duas portas : por huma deltas ie deve ejicher o terreno , como em tanque de agua tur- va : pela fegunda porta fe deve defpcjar depois de cJari- ficada , e nao antes. As circuftancias mais miudas per- tencem a pratica immediata , e a experiencia. XLI. Sc'giiem-fc os campos dc vallada ( § 22 ) . Def- ies fendo o vicio artificial , pode rcmediar-ie obrando pelo contrario ; ifto he, abrindo-fe de cada campo na vizinha vaila a propria ekoante , conlirtente em hum buraco , ou bomba a flor da terra , e permanentc no vallado a cada icxD J ou a cada 2cq pallbs , para, ondc os Agricultorcs guicm E C N M 1 C A S. iBl ^uem aS' agiias com ajguns regos de arado , fendo a val- la 5" palmos mais baixa do que as terras vizinhas , efte fo arteficio deveria baftar a beneficiallas , c melhorallas , e juntamente o fer a valla limpa das ervas , e das cabe- ^as , todas as vczes que for neceflario. He po'is coufa fa^ cil iinpedir , que pelos mefmos buracos as cheas da valla nao fajao innunda^ao fobre os campos. Tinha eila valla duas rorturas , huma , de que fallamos ao § 22 , outra fuperior a ponte de S. Anna. Efta fegunda ja a vejo emendada com valla nova , aberta por bra^as 700 pouco mais , ou menos : e fe hei de dizer a verdade , eu na6 a aconfelharia j porque me parece , que nem fe ganhou queda as aguas , nem fe Ihes incurtou a carreira tanto y que merecelTe a attenjao , e o gafto. A outra tortura do § 22 julgo neceflario emendar-fe , e o creio util ; nao fo porque ficara mais pronta a eicoante , e muito mais curta a carreira das aguas j mas porque palmo , e meio de queda , que fe ganha , nao deve defprezar-fe neftes lugares pianos : e pelo interelTe tambem da navega§;a6, a qual entre voltas he difficultofa : c finalmente , porque o mal crefce , e fempre vai a peor. Pode efta tortura ti- rar-fe , e fazer , que as aguas vao a embocar no Tcjo em varios pontes , qual de maior cuilo , qual de menor : mas ao menos julgo neceflario embocallas no fitio , aonde a corte dos ca^aallos Ihe fique confinante a direita. E ifto proponho , porque liavera quern fe digofl:e , fe fe abrir a valla por dentro da dita corte : e porque alguma pe- quena tortura , com que pode ficar a valla , nao preju- dica nem a efcoante , nem a navegajao, XLII. Ja que cheguei a efl:e lugar , aonde achei , que fe andavao cercando os campos da Patriarcal crmi altcs vallados , ou tapadas , que fe pertendem levantar fuperiores as cheas , por grandes que eilas fejao ; dlrei alguma ccufa , como entendo , fobre as tapadas prefentes , e fobre outras femelhantes , que efta6 cm Vallada , por algumas leguas nas bordas do Tcjo. Primciramente fa^o relexao , que os melhores campos do Riba-Tejo fao os da.. i8i Memorias da Golega , os dc Almeirim , c oiitros , que nao fad tapados , e Ibbre os quaes as clieas innundno com libcr- dade. As tapadas por ranto icvantadas iiao contra as mares , nem contrr. a agua falgada , mas fomcnte a fim de excluir as cheas de agiia doce , nao as crcio necef- farias a agricultura : porque as chcas como cheas ferti- lizao os canipos , e iomente fao damnofas , quando de- pois de cntrarem , fe conlcrvao como lago , opprimindo as fearas J o que mais facilmentc fuccede com as tapadas, fe liuma vcz Ic arrombao. Neftes fitios por tanto , nos quaes as mar6s com o fdgado nao prejudicao , fariao melhor elFeito pequenas, e tVequcntes vallas , por onde abaixado o rio clcoafTe logo a agua innundante. XLIII. Nem efte dilcurfo Jic talto de cxperiencia nos mefmos campos da Patriarcal , de que fallamos e ncfte mefmo anno. Obfervei iia cdrte dos cavallos dentro das tapadas huma femcnteira de alguns moios : defta , huma parte correfpondia na verdura aos dczejos do Agricultor , outra parte toda morta ja fe preparava para femear-fe legunda vez. Examinada a caufa da diverfidade , achei que tendo o Tejo na chea de Dezembro arrombado a tapada , e innundado o campo interior , e fendo retardada a chea fob re o mais baixo do dito campo , efta foi a caufa da perda da feara : e o ter-fe falvado huma parte foi bcneficio de huma antiga valla alii exiflente , pela qual as aguas com mais promptidao defaffogarao. Nao faltao outras provas para convencer, que as tapadas nao fao totalmente innocentes , nem deveriao aconlelhar-fe fem evidente ncceflidade : mas nefte Riba-Tejo ha muito quem as approve , e promova , com gaftos enormiifimos. Nao fa go mengao de outro mal das tapadas nos campos pequenos , e he , que com o renovar todos os annos os vallados , fe vem finalmente a altear o terreno em todo o giro 5 e fe faz no meio caldeira , ou concha , aonde repreza aciiuva , e efteriliza o campo. Faca poreni cada hum o que quizer. XLIV. Ao mcu intento fcimente digo , que devem re- ECONOMICAS. 18^ refledllr os Audores das tapadas , que no lugar aonde eftamos , o Tejo ainda nao Jie mar , nem falgado j mas tem mares , e com as mares he fogeito as cheas ; convem que entre as tapadas e o Tejo le deixe ao menos tanta praja , quanta he meia largura do mefmo Tejo , a razao he ; porque as grandcs mart's enchem inteiramente o alveo do rio , e convem no tempo das mares dar commodo a paflagem das cheas. Quanto as tapadas de Vallada , ja que ellao feitas , parece-me jufto que fe confervem , por- que defendem as habitagoes daquelles povos nas cheas menores , e de algum modo Ihes I'ervem tambem de garan~ tes contra as maiores. Notei nas ditas tapadas de Vallada , que a fua fuperficie da banda do rio efta em muitas par- tes forrada de pedras em forma de calcada , coufa muito difpendiofa nefles lugares : mas perdoaria eu o difpendio, le folTe bem executada. Eftao os fundamentos do dito forro , ou calcada firmados fobre eftacas de pinho \ e fe ve claramente , que quem tal obra ideou , quiz que as primeiras pedras ficaflem inferiores a flor da agua clara , para que fofTem duraveis , poufando fobre pinho fempre verde , e molhado : por difgraga os executores faltarao a boa execujao , porque o pinho efta varies palmos fora da agua , e por ilTo apodrece , e traz comfigo o pefo da calcada : o qual erro he digno de emenda. XLV. No fim do Tejo alto efta o fitio chamado Tejo Novo , o qual foi aberto para nao ferem os Navegantes obrigados a paflagera perigoia das vo/tas de Andreza. A primeira abertura ha memoria , que foi hum pequeno canal capaz de duas barcas ^ lioje he largo palmos 1300, e fundo palmos jo : e toda a agua , tanto das cheas , como das mares nao tem outro defaffogo fenao o Tejo Novo , a excepgao de muito pouca , que pelo vao do Qrahulbo ( mappa n. 22 ) vai ao mar de redra : e ef- tao tapados , e entulhados os outros antigos canaes das 'volt as de Andreza ^ ejleiro grande , e mar de Agtiiao , todos nomeados no mappa. Onde , de fmco canaes , que davao algum dia fahida as cheas , efte fo do Tejo Novo fe 1^4 M E M R I A S fc pode dlzcr agora , que cfla em ufo. Aberto que eWc foi , o no por li mel'mo o alargou , c proFundou ate os termos , que tern de prefente , c por fi mefmo eiitulhou OS outros canacs , por onde antes corria ; o qual cifeito de enruUiar elles , c profundar aqucllc demollra , que nquelle f6 he o ma is prompto , e o mais natural a cor- rente , e que fo Ihe balbi. Dizem que Jie grandililma a velocidade da agua ncftc canal em tempo de enchentcs ; e muitos vcndo-o mais cftreito que o refto do rio , gritao contra Tiljo Novo , e fe lamentao , que clle nao he fuf- ficiente ao dcrafFogo , c lahida das clieas : onde concluem , que artelicialmentc le deve aiargar. Sao delculpavcis os que aflim difcorrem ; e fe Ihes pode perdoar , porque confidcrao Ibmcnte no Tc jo Novo a Tua largura , e jiao a profundidade , pela qual abundantemente ie fupre a lar- gura : ncm rcflet'lem , que mais abaixo na Caftanheira , e em Villa-Franca fao as cheas como no Tc'jo Novo, nao obflante a grandc largura do rio nos ditos iugarcs. Em fumma as Leis dos rios enfinao , que quando clles nao encontrao impcdimentos infuperaveis , e inamoviveis, Hibe a Natureza acommodar os alveos a quantidade das agiias. Se nefte lugar for necelTaria ao Tejo maior largu- ra , clle a abrini , como tern feito ate o prefente , fem que fcja nccellario , que a tal fim fe enterrem nas praias do Tcjo Novo nao poucos mil cruzados. Os fundamentos dellc difcurfo cftao em Giiilhelmini citado , no Cap. 14, aonde prefcrcve as regras , com as quaes fe hao de abrir os alveos novos ; as quaes regras , nota elle , fe fao mal obfervadas , os rios por fi mclhios rejeitao , e entulhao a obra fcita-, mas fe fao beni dirigidas , comej ada a obra , o rio por fi mefmo a completa. XLVI. Por concluza6 do que fica dito acerca de todo o Tejo alto , accrcfcentarei hum penfamento talvez nao inutil. He fummamente neceflario , que o rio nao va vagabundo , mas fim tenha alveo determinado. Elle alveo determinado na planicie nao pode confervar-fe fem im- pedir as goivas , e os peiTunos cffcitos dellas. Contra as E C O N O M I C Jl S. 185- goivas 5 quando nao fe conhece a fua caiifa 5 fao necef- I'arias eftacadas prontas. Parece por tanto , que fera util huma ordem , que em ambas as margens por largura de ^o , ou de 40 paflbs de Salvaterra para il'ma fe plantem , ou fe iemeem arvores de propoftto para eftacas , quaes fao principalmente CaftanJieiros , e Pinlieiros ; das quaes arvores ninguem Ihes polla cortar os troncos , fenao para Alio de eftacas nos lugares couvenientes. C A P I T U L O IV. Qbfer values do Tejo baixo. "XL VII. f^\ S campos depois de SaivateiTa , a varzea V^ de Benavente , a outra varzea de Zamora j tada a grande illia chamada Lizirias de ViUn-Franca ^ fituada e litre Zamora, e a dka Villa-Franca , tudo faria n grande foinma de 3000 moios de femeadura , fe tudo fe podefle femear ; ifbo he o que cliamo Tejo baixo , e podem ajuntar-fe os campos de Villa-Nova , e tudo o mais , que no mappa fe reprefenta a direita do rio at6 Sacavem. A parte maior defta planicie lie a ilha das Li- zirias ; efta ., antes que fe abriHc o Tcjo Novo , era com- pofta de varias ilhas ., ou mochoes ( qu^ aqui fao uteis a agricultura , porque fao no mar) divididas entre fi com diverfos brajos do Tejo , que fe chamao mares \ e {z.q volt as de Andre za , EJleiro grande , mar de Aguiao , e mar de Pedra , nomeados no mappa , alem de outros , dos quaes jd entulhadcs fe perdeo o nome. Aberto o Te- jo Novo , como aflima notamos , e entulhados os outros mares , tudo he ja huma ilha fo , e contiiiua , da qual viiitei as partes principaes. XLVIII. Vifitei primeiramente fora da ilha a varzea de Benavente , e admirei as grandes torturas , que nella faz o dlvQO ^z Surraia , reprefentadas rao bem no mappa como fao ao natural. Ninguem pode duvidar , que as ditas' torturas ieryem de impedimento a .efcoante prom.pta da ToM' II' Aa vftr- l86 M E M O R I A S varztra : mas alcm difto conlieci Jia mcfma varzea faira dc vallas pcc|uen3S, , que aqui chamao Arroelas , pclas quaes toriie a libcira a agua extravazada , e a clcoamc' dos campos- LiveJci a qucda da ribeiia delde a ponte de fienavenre , ate aoiide ie ajuiua com o brajo do Tcjo, que vai no M/ir de Pecira ( uiappa n. 24 ) : c iao 8 palmos , e 5 oncas de qucdn , a qiial poran na6 he dif- tribuida cm forma , que cada medida igual cm compri- mento tenlia na ribeira queda igual ; mas he cfta maior nas partes mais altas ^ menor Das mais baixa?. XLIX. Olhando fomente para o que reprefcnta o map- pa , parece , que para fer mais prompta a cfcoante da ribeira , Icria bom abrir-lhe novo alvco dcfde o ponro , aonde ella he mais torta ( mappa n. 23 ) atravcfl'ando a quinta d/i Foz, , ate aonde a ribeira de Zamora entra no Mar de Pedra ( mappa n» 25" ) . AfTim parece : mas antes de propor o penfcimento , quiz cxaminar com o meio da livelacao., quanto de queda fe poderia" ganJiar , e achei que inteiramente ncnhuma \ porque os 2 pontos , aonde prcteiitcmente emboccao as duas ribciras , a Surraia , e a de Zamora , cftao ambos em pcrfcito nivcl : todo aquc.lle ef- pafo he , como ie foilb verdadeiro mar : ojide , na6 fe ganiiflndo queda , fcria a tal propofta ror elte principio gaftar dinheiro inutilmentc. So na brevidade da efcoante das cheas da Surraia Jiaveria aJgum provcito , mas tad pouco , que nao fe pode decidir , fe eile proveito mere- ceria a grave defpeza da abertura do novo canal. Do m«fmo modo fao inuteis outras propoftas , que ten ho ou- vido, como de mandar a Surraia ao Eileiro grandc , ou- as voltas de Andreza. Tudo no mappa parece natural , mas a liv-elajao moftra , que feria gafto feguro fjm pro-* veito certo , que o m.creca. L. Nas ribanceiras defta ribeira Surraia cm alguns fi- tios entre as terras da Fez , e as do Infantado , ha tam- bem valiados contra as cheas , os quaes tem oiitro vicia confideravel \ e he , que eftao muito vizinlios ao alveo da I libeira. o^otci ;, que a mQi."6 do dia 27 dc Marjo ella i{^ \ baf- ECONOMICAS. 187 baftou para encher o alveo ; donde , fe com a mare viefTe hutna chea , o jogo , o concurlo de ambos feria por con- clufao o voltar-le a chea contra a varzea de Benavcnte. LI. Afllm como iao muitas as torturas da Surraia , affim tambem nao fao poiicas as do alveo do Mar de Pe- dra , defde Zamora ate o Grabulho, aond^ communica com o Tejo , vi-zinho aos carnpos de Salvaterra ( mappa n, 22 ) A mare quotidiana chega a efle ponto por duas bandas , ifto he , pelo Tcjo largo , e pelo Mar de Pedra ; mas por caufa das voltas , e torturas tem efta fegunda eth-ada meia legua de mais que a primeira. Por efta raza6 , e por caufa tambem do apcrto das voltas , a mare do Te- jo largo no dito ponto de communicacao , anticipa duas horas a chegada fenlivel da outra mare. Segue-fe defta obiervacao , que o endireitar o Mar de Pedra , defde a fua Foz do Tejo ate Zamora , alguma coufa feria cort- ■ducente ao defaffogo , e fahida das enchentes do Tejo ; € nao falta quern proponha , e aconfellie a operajao ; mas nao fei approvalla , porque o cufto enormc da obra feria certo, e nao he certo , nem fe pode calcular , fe a utili- •dade feria correfpondente. LII. As bordas da Surraia , do Mar de Pedra , do prefente Tejo ate Sacavem , das voltas de Aftdreza , do Efteiro grande , do Mar de Aguiao , e fe algum outro nome ha , todas eftao cercadas de vallados tao altos , que -efcondem hum homem a cavallo , fern fallar de outras ■muitas tapadas particulares no mais interno : fe os ditos vallados eftivellem todos por direito , eftender-fe-hiao pelo efpapo ao menos de 5'o leguas , as quaes medidas a varas de 30 palmos feriae va?as 42-667. Ou^o eftimar cada vara deftas num.a moeda de ouro , onde conlidere-fe o cufto exceflivo cm fabricalias, e o gafto continue , e nao menor em confervallas , e fe conliecera , quanto feja importante o penfamento de tirallas , ou de reduzillas a menos fe fe pode. ' LIIL No preamar da mare viva da noite de 27 dc iaMarjo , qire correo ferena fern algum vento , achei com- Aa ii mo- l88 M E M Q R I A S modo de faber a livelacao das lizirias de Villa-Franca ; as quaes iao a parte principal dcfta plaiiicie , aciici digo , que todas eftao fcnfivclmente cm perfeito nivci , ou horizonte , c todas mais baixas que o dito preamar trez palmos , e nieio , mas mais altas que o baixamar corrcf- pondente onxc palmos , e meio , exccptuando as terras jiovas das voltas de Andreza ; tudo com tal igualdadc , que me caufou admirajao. Eflcs onze palmos , e meio offcrecem boa efcoantc para as lizirias no baixamar j mas OS contrarios trez palmos , e meio do preamar moftray com evidencia , que nao he pollivcl I'em tapadas. defender OS campos das aguas vivas da mare. LI v. Se alguem mover efcrupulos fobre a livelajao. feita pelo preamar , accufando-a de pouco exada , c pre- tendendo , que a fuperficie da agua he mais elevada da banda do mar ,. do que da banda da terra: rcfpondo. Sup- pofto , como certo , o fundamento do efcrupiolo , toda a difleren^a do nivcl na extenfao das lizirias, ie reduzini a tal miudeza, que feguramente pode , -e.deve defprezar-fe; na6 io porque huma , ou duas poUegadas , que podem apparecer de differcnja , nada accrefccntao , nada tirao i fubftancia dos trez palmos , e meio , c muito menos quan- do o piano da terra fegue , e acompanlia a fupcriicie da agua : mas principalmente porque o dito fundamento nao tern fuppoftos firmes ; pois depende tambsm da maior , ou mcnor quantidade da agua. , que o rio defpcja , a qua! he varia na varia combinajao dos tempos. Por ilTo fallando em rigor , hum.as vezes fera mais aha a fuperficie da agua da banda do mar , outras vezes o fera da banda de terra, fern que por tal motivo crefjaj.ou fe dimiuua , o pcrigQ das lizirias. LV. Toda a importancia do que aqui fe trata , conr iifle , no que vou a dizcr. Se bem fe confiderao as cir- cumftancias delta ilha , facilmente fe convence , que todo o feu piano nos tempos mais remotos era mar. O T6jo pou- co a pouco alteou o fundo , e fez terra com grandc uti- lidade da Agricuitura : mas a alteacao ainda nao efta com.- ple- ECONOMICAS. 189 pleta , nem fe completara , em quanto o piano da terra na6 for fuperior as mares vivas. Antes de fe abrir o Tejo novo , quando a ilha eflava repartida em outras ilhas menores , para defender das mares todas cllas , era neceflario levantar-liies ao redor rantas tapadas , que as Cercalfem todas , e a cada huma dellas. Agora as aguas vao diminuindo , entulhados os mares , e a mefma pro- por^ao vao diminuindo tambem as tapadas. LVI. Por iifo mefmo porem que fe unio, e crefceo a extenfao da planicie , nafceo outro mal , o qual he a falta de efcoante as chuvas , e cheas , nao obflantes os onze palmos , e meio de queda- no baixamar : fendo coufa evidente ,. que huraa planicie perfeita fe fe alaga , ou por chuva , ou por outro accidente , quanto mais vafta he , tanto mais crefce a difficuldade de enxugalla ; iporque tanto mais carecem de queda as aguas interiores. Neftes cafos he neceflario chamar a agua ao baixo com a frequencia de vaiias efcoames , nem vejo outro remedio. Ora eftas vallas na prefente planicie fao muito poucas ; e fe huma chea vence os vallados , he efta confervada fobre OS campos ainda- depois de fe abaixar o rio. Quem nao ouve entao as vozes dos Agricultores , que fe quei- xa6 contra a fraqueza dos vallados ,. e contra as cheas, em vez de moverem a principal queixa contra a pouqui- dade de vallas de defpejo ? LVII. O peor he, que eftas poucas vallas fao de di- verfos Senhores , e acabao fobre o Tejo com portas , que chamao de mare , feitas com muita defpeza. Todos os intereflados refpeftivamente temem , que abertas as por- tas na abundancia da agua , fejao ellas damnilicadas : pela qual caufa ninguem quer fer o primeiro a abrillas ; e o expediente , que fe toma he , em vez de abrir as portas, picar OS vallados , ifto he, arroraballos , arruinallos', quan- do fe ve que o alagamento he diuturno ; mas entretanto as fcaras femeadas ja fao mortas. Alem difto quem pica ©s vallados , fao nccefl^ariamente peflbas , ou rufticas in- ,^ifcretas; on ao menos interelladas nos mefmos campos ? e fa- 190 M E M O P I A S e Facilmentc a paicialidade as p6dc determiner a na6 obfervar cquidade com outros intercllacjos. Accrclcente-fe a illo , que as mefmas vallas quafi nunca os Agiicultores as quciem inteiramcnte defpejadas ; porquc nellas tcm por coftimic dar agua aos gados das lizirias : e nllto tern razao, porqiie os gados nao podem eftar iem agua : mas leria melhor conlidcrar o modo , como icm f;Utar aos gados , fejam beneticiadas as learas , o que he facil. Acliei pro- porcionadamcjite o mefmo vicio dc poucas vallas efcoan- tes na praia direita do Tcjo , aonde ella6 os pianos de Villa-Nova , da Callanheira 6zc. Por quail toda a parte lia grande cuidado nos vallados contra as cbeas , e mui- to pouco nas vallas efcoanies ; nao obftante , que a maior parte dos mcfmos campos pianos ndle lado dircito , foi achada telizmente llipcrior a mare narrada ao § 5'3 : o que me faz vcr , que a hiftoria , ou trabalho dos vallados he mais moda , do que nece/Iidade. LVIII. Por coroa do mal , para maior ruina nafce nas vallas efcoantes ( tantas vczes inculcadas desde o § 42 ) hunia quantidade exorbitante de hervas aquaticas , a que chamao canni^aes , bunho , tabi'ia , efpadana , morra^a &c. He fatalidade , que os rullicos Agricultores quaii nao fazem cafo deltas maiditas hervas , pois os vejo negligcn- tiffimos em as fcifarem. Obfervao elies , que entre as mel- mas hervas alguma agua palfa ; parecc-lhes eorrer a valla chea , e com a apparencia fe contentao : nno reflectem eftes pefllmos Hydraulicos , que o dito cofrer da agua he mcnos que a pallb de formiga ; e em vez defer, por exemplo, a razao dc meia legua por cada hora , nao o he nem por cada fcmana : pois nao ha lio de herva , que nao detenha fua parte da agua ; e innumeraveis fios todos juntos detcm tanta , que o defpcjo , que poderia fazer-fe em hum dia , nao fe conclue em todo hum mez : e vem per illb a apodreeer nos campos alagados , nao fo a fcmen- Kira , fe acafo a havia , mas ate a herva deputada para paftos dos animacs , toda fe extingue. De mais ; a pouca agua que palTa , vai tao lent-a , e niorta , que depoe o lodo E C O N M I C A S. 191 iodo entre as hervas , e fiias raizes , e entuiha a valla em forma , que convem de novo abrilla com grave defpeza. E fenao l"e abre , eftcrilizao-fe as terras , como experimen- ta6 , e nao negao, dos fobreditos rufticos , ainda os mais ignorantes. C A P I T U L O V. Kepares aos damnos do Tejo baixo. LIX. T) Arecem neceflarias mais vallas efcoantes na var^ JL zea de Benavente , pelas quaes torne a Sur- Taia a agua dos campos \ todas perpendiculares a ribeira , e todas pequenas : a frequencia das mefmas deve fervir d nromptidao necefTaria do defpejo : huma valla porem deve abrir-fe com outra direc§:a6 , do meio da eftrada da ponte , aonde eita lium pego da agua, ate o fitio chamado Goiva de Ale oe lb a ( mappa n. 27 ) . Para dizer tudo em huma palavra : ncfte cafo , e em todos os femelhantes , devem ter os Agricultores a maxima, e a devem ter tam- bem OS Senhores das terras , que he veneno muito nocivo as fearas o morrer a agua fob re os campos ; ou o na6 fer delpejada com promptidao. Scria utilifiimo , que todos OS annos depois de femeado hum campo , fe cuidalTe em iia6 ^eixar nelle nem hum palmo fern o feu defaffogo a in- ,nundaja6 , e a chuva } e efte deveria fer o fruiflo da ma- xima ailima dita. LX. Endireitar o alveo da Surraia na referida varzea , ao menos nas maiores torturas , attendendo a fua queda, e a maior brevidade da fua corrente , he jegurament^ obra util , e merece a defpeza. No mappa , o qua! he veridico , apparecem a villa quaes fejao eftas torturas dignas de emenda. Ao que apontamos no § ^^j , acerca dos vallados emminentes ao alveo da Surraia nas terras da Foz , e do Infantado , he applicavel o mefmo remedio do Tejo ao § 44. Deixe-fe entre vallado direito , e efquerdo ao menos tanto efpaco, quanta e a dobrada lar- gura 19^ Memorias gura do alvco da ribcira. Alllm fe podeni efperar , que a mare nao ieja impcditiicnto quail total a expcdigao das chcas , como parcce que he prcfcntemciue. LXI. PjfTando as lizirias de Villa-Franca , fera coufa de muira economia , fe a grande altura , e cxtenfao de vallados fe puder diminuir. Quaiito a altura , tudo o que lie fuperior as mares , !parcce-me fuperfluo. Primeira- mente , porque as clicas ou em Jiuma , ou cm outra par- te fcmpre os vcncem. Em fegundo Jugar , porque aonde OS nao vencem , fempre os arruinao , pcla forja das ondas inquietas , e batidas do vento , que quafi derrctem , c desfazcm o lodo moUe , dc que fe compoc o vallado. Terceiro ; porque coiuemplando outros vallados mais bai- xos dentro das mefraas lizirias , em diverfos fitios , vi , e conheci claramente , que eftes raais baixos cobrem-fe fim das clieas , mas nao ficando em taes occafioes fujeitos ao bater das ondas , mais facilmente fe confervao. Tal lie o meu parecer , oontemplada a natureza do lodo , e o elfcito das ondas : ma» nao me atrcvo aconfelhar , que afTim fe execute \ porque conlicjo , que feria cu mui cen- furado de quern as avefl'as defcjaria levantar vallados ate as eilrellas. O outro inconveniente da extenfao dos vallados realmente fe diminuiria muito , fe fe entulhalTem inteira- mente as volt as de Andreza , o ejleiro grande , e o mar de AguiaQ , reduzindo-os todos , com cllacas poftas nas emboccaduras a flor do baixamar , a fer fcchados. LXII. As voltas de Andreza , julgo fera util abrillas outra vez no feu principio com porta de mare , para fervir de efcoante. Geralmente dos ditos mares digo , que ja que a Natureza os vai entulhando , e os cntulhara de certo to- talmente, he mellior que ella feja ajudada , ate fe redu- zirem todos a fer cada hum delles huma valla fimples efcoante perpetua no feu principio , e no feu fim. Serao em tal modo fechados com regra , e ordem , e nao aca- fo , e temcrariamenre : porque nao polio approvar , que as partes defies mares entuihados , fe tapem livremente com vallados , como fe vai fazcndo ^ fern deixar em fcii lu ECONOMICAS. 19^ higar aberta ao meiros huma valla efcoante coii1 fua porta de rr.are. A qiiem nao conhece a fituajao cicflas terras , fara elpecie a porta no principio das voltas dc Andreza , porque parece , deveria I'ervir a entrada da agua , e nao a elcoante : mas engana-fe , porque neftes lugares o Tejo he como mar , para todas as partes tern o mefmo olivel feniivel. LXIII. O mar de Pedra faz , ccmo fe notou ailirrra , diverfas voltas , das quaes -, por caufa da delpeza dos vallados , fe podem endireitar ao meuos a tortura de Montalvao. Os vallados preientts da dita tortura tem bra- fas 2800, e fe fe* endireita , lerao fomente i2CO ; ao que I'e acrefcente, que iicara a navegajao muito mais com- moda ; e tambem o motivo Hydraulico , que as voltas , fe nao fe atalhao , fempre fe vao augmentando , e nunca di- minuindo. As outras torturas nao cTeio conveniente tira rem-fe ; porque o mil nao fe conhece proporcionado a defpeza. Mas aonde ha goiva , e fe comem os terrenos confinantes , he neceflario fortificallos comi eilacadas a triangulo , para que o damno nao crefja : digo a trian- gulo , attendendo a corrente da mar6 , ora para baixo , ora para fima. LXIV. Toda a difficuldade efta nos dous pontes fc- guintes. Primeiro ponto , em dar efcoante aos campos per- feitamente pianos : efcoante , quero dizer , com prompti- dao, e economia. Quanto a promptidao , nunca efta fe obterd , fern multipiicar vallas. Digo por tanto , que fe devem abrir novas vallas , aonde for neceflario , as quaes nao inipoita que fejao pequenas , com tanto que fejao frequentes. Mas nao baita abrir vallas ', convem depois de abertas , que fe Ihes cuide na coniervajao. Notamos ao § 58 OS graves damnos , que caufao as mas hervas, que nellas naf^em , e reprchendemos a negligencia dos Rufticos no aceifar as ditas hervas : e por ranro parece-me de indifpenfavel neceflidade , que haj-a zelo de confervar. as vallas fempre limpas de hervas aquariquas , cortando- as com inflrumentos convenientes duas vez^s no anno ; ■Tmi, II. Bb no 194 Memorias t\o mcz de Maio , para que nao produzao femente; e no fim do outono, para prcparntivo do inverno. Tcnho por certo, qwc o gailo ncftas diligcncias lie muiras vezcs inferior ao damno, que 1cm ellas ie expcrimcnta no frudlo dos campos , e no trabalho dos valladores. LXV. Quanto a econoniia das vallas , deve-fe fern pre conduzir a agiia ao mar pela eftrada mais breve ; nem outra coufa i'e dcve recommendar aos executores. A razao he , porqiie o piano he perfeito , ou quafi perfeitx) , e a queda talta. Donde feguramente o caminho mais curto Jie o melhor , e o menos difpendiofo. Para evitar pois os empenhos, ou teimas dos refpcctivos Feitores, e Miniftros, quando nenhum quer fer o primeiro a abrir as proprias portas , conforme fica dito ao § 5'/, confidero , que nao lia outro remedio efficaz , fenao reduzillas todas a f6rma de alfapao , que por fi mcfmas fe fechem contra as aguas cxteriores , e por fi mefmas fe abrao , para dar vazante as interiores. Obrara nefte cafo a Natureza , e ninguem po- ilera fer notado de tardanja com damno do Publico. LXVI. Segundo ponto , altcar o piano , que efla mais baixo que a mare. P6de na verdade efperar-fe, que com o andar dos annos va crecendo a depofijao do Tejo fo- "bre as lizirias , mas efte altear livre , e fem regra nota ■Guilhelmini que he perigofo. E alem difto , quando a. chea entra , e fahe com liberdade , entra turva , e falie tur- va fem depor. A regra , que fe da para altear as terras , c bensiiciar ainda os areaes, ja afllma fe diile j hetapar,. € deixar entrar a chea , e nao a foltar, fenao quando fe •vir a agua clara. Pode iflo executar-fe em campos peque- nos -J mas neftas vaftas lizirias merece muita confiderajao. Ifto nao obftante, obfervei Ja dentro tantos vallados , que por meio delles nao fcra talvez difficultofo dividir em; quartcis , e altear ora hum , ora outro quartel com as cheas , que vierem no principio do inverno, at6 que fe obtcnha que a mare na6 feja fuperior ao campo. LXVII. Ouvi quem affirmava ,. que as cheas do T^jo iia6 fao capazes de altear j porque fao cheas de agua ck- ■\ ECONOMICAS. 1^^ clara , ou quad clara , e que na^a , ou quafi nada p6de depor. Confiderando efte ponto , nao nego , que alguma chea poffa conftar de agua menos turva , fe for mais dc neve derretida do que de chuva ; mas nao polfo crer tal coufa em geral das ch^as do Tejo ; e eftas mefmas lizi- rias , as quaes fao de certo depofigao das aguas , mo{lra6 claramerfte o contrario : e as outras lizirias chamadas lo- dos que fe vao formando mais vizinhas a Lisboa , farao ver novos exemplos aos nolfos vindouros. Ifto nao cb- ftante , pode por dous , ou por tres annos fazer-fe a prova em iiuma parte , e depois obrar-fe no mais fegundo a ex- periencia. LXVIII. O mefmo fe entenda de todos os outros x:ampos baixos , que fe acharem inferiores a mare na di- ceita do Tejo ate Sacavem. Tem elles dous inimigos', que OS perfeguem , hum quotidiano , e fao as mares , outro accidental, e fao as cheas. Se mediante a depofija^ dcflas ultimas , fe reduziflem todos a ellar fobre a mare-, ficariao com hum inimigo de menos ; e nao feria ifto huma utilidade real ? e huma felicidade da agricultura ? Aplique-fe o mefma difcurfo a baixa, e peftilente vargem de Zamora , toda arruinada pelas mares , na6 obftante o fer lavada de huma ribeira , que a pode altear. Difle peftilente , porque me pareceo abundantiffima , mais que nenhuma outra parte de aguas encharcadas , as quaes nao ha. , quern nao faiba , quanto - fejao nocivas a vida hu- mana. LXIX. Ja que eftes carapos do Tejo baixo fao necef- fariamente , por caufa da agua falgada , fojeitos as graves defpezas de tapadas , e de portas , he por iflb neceftariif- >,iimo evitar aqui tambem as goivas , que diflemos , ferem tao prejudiciaes no Tejo alto, O rio tambem aqui comeg'a a abrir goivas , e ja ha damnos por caufa dellas. Com o impeto, que elle ganha no canal chamado Tejo 720'vo , ^vai dar pancada na praia direita , e a roe nas vizinhan- §as , aonde acaba o rio da coura^a : rebate dahi a ef- qucrda pouco affima de fronte de Povos : torna a direita ^- . Bb ii em 196 Memorias em VilLi-Franca ; e dc novo a efcjucrda quad de fronte da Alhaudra. Por tudo corneal goivas , cada huma das quaes da fiia banda tern precipitado tapadas , e da oppofta vai formando areses ; e Jium dellcs he ocaiiao da delpe- za , que fe tern feito no caes de Povos \ o qual caes por certo nujica podeiri completar-re , em quanto crefcer a goiva do feu areal. Evitar na lua caula , illo he , ao Te- jo novo todos eftes males nao he pofllvel , e fe o folfe , feria peiigofo , poique fe deveria dar i. corrente outra direcjao. Mas nao fe deve permittir , que as goivas ja comegadas fe internem nas terras com damnos maiores. O modo de as acautclar ja fica expofto ao § 36 e 37^ LXX. Tenho acabado de exp6r , fegundo os meus fraquiflimos talentos , quanto julguei conveniente fobre o cftado do Tejo em geral : e concluo protcftando nefta Academia o mefmo , que ja proteftei em outro lugar , ifto he J que como amante da verdade eftou pronto par* cmendar mdo aquillo , em que houyer erro. H^ EcONOMtCAS* ^^ LIST A. I)as Bracas quadradasi kos areaes , e ms mochoes do Tejo alto , fegundo fe prometteo no § 4 J COHt- 198 CONTINUAgAO DA MEMORIA Sobre a culture das Vinhas (a). PoR Constantino Botelho de Lacerda Lobo. PARTE IV. C A P I T U L O XIV. J)os trabalbos extraordinarios , que melhorao , e conferva^ as Vinhas , e em primeiro lugar dos ejirumes* § CLXXXVI. )3?lLdm dos trabalhos annuaes, que fe empregao nas vinhas , e de que tenho faliado na terceira parte defta Memoria , lia outros extraordinarios que [6- mente devem praticar-le quando a neccffidade o pedir ; ef- res OS reduzo a dous generos , no primeiro entrao aquelles , que melhora^ as viniias , conio fao os eftrumes , e as enxer- tias i ao fegundo pertenccm aquclles trabalhos , que fc deftirjao mais a conlerva^ao das cepas , racs ra6 o langar as videiras de cabeca , a racrgulha , -a clcava , e ultimamente curar as .enfcrmidades das videiras , e acautelar o damno dos infe(flos que liies fao nocivos ; principiando pclos do primeiro gcnero fallaremos primeiramente dos eflrumes. § CLXXXVII. Qiiando as vinhas , a pezar da cultura que annual- mente fe Ihcs faz , fe obfervarem muito fracas , e produ- zi- (a) Como ejta Continnncao chegou ao podcr da Jcademia dc- pois 'de imprejjas as 5. Mmorias precedaues , por ijfo vai uejie hgar. E C O N O M I C A S. 199 felrem pouco fi-u(flo , he final , que o terreno da muito pouco nutrimento as cepas , logo he neceflario , que efte feja fupprido pelo ufo dos eftrumes , os quaes fendo ap- plicados com eerta medida , e accommodados a natureza da terra caulao as vinlias hum confideravel raelhoramento. § CLXXXVIir. Moftra a obfervajao feita em multos lugares deftc? Reino , que as vinhas das ladeiras fao aquellas , que ordi- nariamente precifao mais defte beiieficio , porque as ditas vinhas em quanto novas lao muito vigorofas , e dao huma colheita abundanre , porem paiTados dez , ou doze annos come^ao a enfraquecer de tal forma , que chegad a tempo , que muitas vezes nao pagao as defpezas da. eultura- § CLXXXIX.. He facil explicar a caufa defte eiFeito , fe refledir- mos , que cultivando-fe as ladeiras , pouco a pouco as- aguas do Inverno levao comfigo a terra vegetal (1) ; don- de fe fegue que faltando efta cada vez mais , diminue-fe muito o nutrimento , que da mefma terra podiao receber as cepas ; e por iflb eftas neceflariamente fe hao de en- fraquecer muito. Acrefce mais , que muitas das raizes das videiras ficao defcubertas e fujeitas ao damno , que Ihes pode caufar a geada , neve , e caior do Sol. Por todas eftas caufas fe debiiitao de tal forma as vinhas das la- deiras ,. que muitas vezes fao defamparadas pelos Proprie- tarios , por fer maior a defpeza , que o lucre que tirao das ditas vinhasp. § cxc. Como as vinhas das ladeiras , paftados dez , ou doze an- (i) A terra vegetal , he atjuella que mais pre domjiu AQS. tex^ ienos de codas as. Provincias de Portugal. 100 M E M O R I A S annos fe enfraqiiccem cnda vcz mais , por Ihes falrar gran* dc parte da terra vegetal , e clla nao pode ler lupprida fe^no pelo ufo dos eftrjmjs (i) ; fegue-lc , cjiic eftes Icndo applicados com moderajao , lao indjl'peiiravelmcnie necef- flirios em todas as vinhas fracas , muito principalmente nas ladciras , aonde pelas caufas acima retbndas i"e faz mais nccclHirio efte beneficio. Querendo fazer ufo dos ef- trumes dc dilferentes aiiiniaes (2) , lie melhor mifturar huns com outros , ajuncando-'lies tambem alguma cal , que Jic muirb util , porque mata os infe6los , que caufao grave decrimento as cepas. or, J § CXCI. Como pode acontecer , que o lavrador nno tenlia ef- trumes animaes, que fejao baftantes para bencficiar as fuas vinhas, he muito util enfiiiar o modo como os mefmos fe podem multiplicar. Confifle pois efte em mifturar com efterco a terra vegetal , ou outra qualquer accommodada i natureza do terreno ', porem efta miftura deve fer feita camada por camada , e depois tazer-fe fermemar todo efte montao compofto de terra , c efterco por algum tem- po , pafTado o qual rem o lavrador maior quantidade Ue eftrume , e mais conveniente para efpalhar nas vinhas. § CXCII. Como nem todos os lavradores podem ter cftrum^s animaes para lanjar nas fuas vinhas , e ainda que os te- nhao , he ordinariamente muito difficil a exportajao nos lug ires longiquos das povoacoens ^ por iflb he muito in- terelTantc o expor os meios de fupprir os ditos eftrumes ani- (i) Todo o ciiruaic poJe co.ilidcrar-le , como huma terra ve- getal carrcgada do pirriculas falinas , e oleoHis. (2) Oi eftrumes animaes feiros no eftio fao melhores que os do Inverno , porque os animaes andao mais nutridos com os vCr getaes , e os fobreditos eftrumes fao mais oleofos. E C O N O M 1 C A S. 2CI animaes , lembrando outro? que f'ao ir.uito proveitolbs as viiihas , e de menor defpeza. § CXCIIL Prhneiro modo. De quatro dilFerentes modos fe podeni efhumar as vlnlias. O primeiro coniifte em fazer iium aiontao tie ma- terias combulHveis de vinte , e dous palmos de dianietro, pouco mais ,, ou menos , e palmo e meio de altura ; co~ brc-fe com huma camiida de terra argillacea , ou barrenta , muito fecca , e que tenha a mel'ma altura , e afiim fe continua camada per camada , ate que o montafi tenha aquella grandeza , que parecer conveniente , e for poiTivei ao lavrador; depois applica-fc o fogo pela pane debai- xo , e fazem-fe arder todas as materias combulHveis , pai- fadas 24 horas pode tazer-i"e ufo da dita terra para ef- trumar as vinhas. § CXCIV. Efte genero de eftrume he muito util nas vinhas , mui- to princiralmente quando a terra Jie muito foita j porque SL argilla , ou barro nao fomente ferve para corrigir a pouca uniao das particulas do terreno ; mas tambem como ie acha carregada de huma grande quantidade deoleos, e faes adquiridos 110 tempo da combuilao , Jie hum dos mellioies adubos, que le podem lancar nas vinhas. § CXCVr Defte mefmo genero de eilrume fomente podem ufar aquelies lavradorcs , que tlverem argilla , ou terra bar- renta , e mattes vizinhos das iuas vinhas. Eu tenho ob- lervado cm alguns lugare? do Alto-Douro , e cm outros • da Provincia de 'i'raz os Monies , e Bcira vinhas muito fracas plantadas em terras demaziadaniente foitas , que '"Tom, IL . Cc . pre- 202 M E M O R I A S precifavarf muito dcfle adiibo ; porcHn a muitas dellas nao lie applicavel , por nao Jiavcrem niattos , c terra barrenta fenao em liigares muito dilhmtcs das ditas vinhas. § CXCVI. Segundo modo. As vinlias fracas das ladeiras tambcm fe podem ef- mimar da maneira Icguinte. Fazem-lb covas , ou folTos daquella largura , e protundidade , que o pedircm as cir- cunRancias em que fe acharem as vinhas , e fe difpocm com tal ordem , que as aguas , que trasbordao de liumas covas feja6 recebidas nas outras , de forma que em to- dos OS ditos foflos , ou covas fe confervem as aguas da chuva , que corrcm dos predios viziiihos. Como a agua da chuva traz cm diflblucao a terra- vegetal , ou nata dos terrenos por onde palTa , fegue-fe , que fendo rccolhida nos folTos ^ fica nos mefmos , depois da evapora^ao da agua, a terra vegetal juntamente com todos os adubos dlHolu- Ycis na dita agua , de que refulta grande beneiicio as cepas. § CXCVII. • Efte modo de eftrumar as vinhas he muito fimplcs, de pouca defpeza , e applicavel a todas as vinhas fracas plantadas nas ladeiras , e ainda que he adoptado em pou- cos lugares de Portugal , com tudo em alguns a experien- cia tern decidido a fua utilidadc. Jofe de Soufa e Mcne- zes natural de Alafoens , Cavalhciro digno de toda a fe , e agricultor muito intelligente mc diile , que tendo dado de renda a§ vinhas , que elle pofTuia em S. Miguel de Outeiro , chegou a ter algumas reduzidas a ultima deca- dencia , as quaes em poucos annos rcllituio ao feu antigo vigor , fazendo-iiies o beiKiicio aiTuna referido. ECONOMICASJ lOJ § CXCVIII. Terceiro modo, Tenho dito , c]ue a terra vegetal tanto pelas parti- culas nutritivas , que em fi contem , como por aquellas, que recebc da atmosfera he juJgada hum dos melhores eftrumes , que fe lancao nas vinhas j porem como nao ha meio mais facil de confeguir a fobredita terra vegetal do que pela podridao dos vegetaes , fegue-fe, que lemeando ras vinhas tremojos , favas , nabos , ou outras quaefquer plantas , que bem le crearem no terreno , e depois enter- rando-as pouco tempo antes de chegarem a florefcencia , fe melhorao muito as vinhas , e recebem hum beneficio maior ^ que aquelle que Ihes poderiao caufar ellrumes ani- maes. § CXCIX. Defte genero de eftrume ufao alguns lavradores , e he applicavel a todas as vinhas com baltante vantagem , e ainda mefmo nas vinhas fortes podiao femear-fe plantas , que foffem accommodadas a natureza da terra, parte das quaes podia utilizar ao lavrador , e a outra enterrar-fe Bas vinhas , as quaes receberiao com efte beneficio hum confideravel melhoramento. Accrefce mais , que femeando as plantas nas ladeiras , depois que as raizes deftas fe enlajao entre fi , embarajao que as aguas do Inverno ie- veiUr comfigo a terra vegetal. § CC. Quarto mode. As vinhas plantadas nas terras magras , e que pcia ma cultura , ou por outros quaefquer accidentes fe enfra- quecem muito, podem tambem fer beneficiadas iancando nas mefmas terra nova , ou vegetal , ou barrenta conforme for neceifario ;, para que o terreno das vinhas fiquc com Cc ii hu- ■204 M E M H I A S luima modcrada uniao entre as fuas particulas ; por(^-m a Ibbredita terra deve fer efpnlhada com tal medida , que as raizes das cepas nno fiqucm muito enterradas , para que commodamentc pollao reccbcr o nutrimcnto da atmosfera. Efte atenamenro lie hum mcio pdo qual ta inborn as vi- iilias fracas podem fcr rcllituidas ao leu antigo vigor (i). § CCI. Alein dos ditos quatro modos de eHrumar as vinlias , podem igualmcnte utllizar muiro a cftas os lovios , c na- reiros de quaiqucr parte, que fe poil'ao adquirir , como tambem a terra , e as alimpaduras das eftradas. He tam- e o fazer algumas covas nos luga reiros de quaiqucr parte, que fe poll tambem a terra , e as alimpaduras d bem conveniente o fazer algumas cov..o wv.o i,w^c..^>. ^..w. fc polTao recolher as aguas , que correm pelas ruas, por- que rodo o fcdimento , que nas melinas ic dcpofita , lie hum citrume de muita utilidade para as vinhas. § CCIL Terilio dito, que as vinhas fracas podem melhorar- fe afTim com os cihumes animaes , como com aquelles que podem fizer as llias vezcs , refta agora fazer algumas adverfencias fobre o ufo dos eftrumes animaes. I. Langando eftes nas terras magras maior quantidade do que convem , produzem hum tal calor , que as defecca , e confome o nutrimcnto das cepas ■■, II. Contem muitos inferos , e Ovos dos mcfmos , "dos quaes recobcm as cepas graviflimo dcterimento ; III. Ha ordinariamcn:e maior quantidade de vinho, mas de inferior qualidade. (i) Al>;uns rccommend.io que a terra , que houver de fer Un- fada' nas^ vinhas , dcve eftar antes hum anno cxpolla as ira- Riiencias d.i atmosferai porem na5 he neceflario , que preceda crte trabalho , porqne a dita terra, depo'.s dc lan9ada nas vinhas^ pjde jgua^mentc rcceber toJos os adJbos atmoifericos. EcOifOMICAS. 10$ § CCIII. Pcrem cefTao todos eftes inconvenientcs , fe os eflru- !nes animaes forem applicados com moderajao , e accom- modados a iiatureza da terra , e no caCo , que as vinhas adquirao hum tal vigor , que le polla recear que o vinho feja de inferior qualidade , evita-fe elte inconveiiiente ti- rando as cepas parte das fuas follias , porque faltando ef- «as , privao-ie da maior parte do fucco fuperfluo y que faz rebentar as uvas , promover a podridao , e degenerar os vinhos em gordos , e outras enferraidades. § CCIV. O mode como fe devem eftercar as vinhas com os cftrumes animaes confiile , ou em efpalhar eftes igualmente por tcdo o terreno , ou efcavar as videiras , e lanjar a cada huma das mefmas huma quantidade de efterco con- veniente. De qualquer dos modos a vinha melhora muito conlideravehnente , e paga muito bem a defpeza , que com a mefma tern feito o lavrador. § ccv. Como fegundo as obfervafoens de Duhamel , e Sauf- fure o eftrume augmenta o frio ao terreno quando faz geada , fegue-fe que o tempo mais conveniente para efpa- lhar nas vinhas os eftrumes animaes , he em Fevereiro , e nao no Outono para evitar , que o terreno fique fujeito ao damno da geada : fe jporem o Cliraa for tarn tempe- rado , que as vinhas nao foffiao o referido inconvenience , pode efpalliar-fe o efterco desde o principio de Outubro ate Marfo , naquellc tempo , que for mais comraodo ao lavrador. CA- 2o6 Memorias C A P I T U L O XV. Das Enxertias. § CCVI. AInda que os differentes modos dc eftrumar as vinhas podem contribuir muito para o feu meihoramento , com tudo i'e algumas das vidciras lao de ma cafla , e pouco accommodadas a natureza da terra, e clima , o lavr^dor lera deterioiado na t'alta de liuma grande parte da Ilia colliei- ta J e o vinho de inferior qualidade ; logo para que a dita parte das cepas produza maior quantidade de uvas, c melliores para o vinho , lie neceflario que fejao enxer- tadas. He elta liuma operajao muito difficultofa , e por ilTo deve fer feita por hum homcm exercitado , e nunca deve dar-fe de empreitada. § CCVII. He pois a enxertia huma operaqao que melhora mui- to as viniias , fazendo , que eftas produzao maior quanti- dade de vinho , e de melhor qualidade , e para tratar com ordem efta materia moltrarei I. qual he o tempo mais conveniente para faaer a enxertia ; II. as proprieda- des que dcvem ter os garfos ; III. os differentes modos de euxertar as cepas ; IV. como devem tratar-fe os en- xertos nos primeiros annos. § CCVIII. O tempo , em que fe deve fazer a enxertia , deve far logo que palTare.n os rigores do Inverno ; por6m antes que as vinhas co'nece.n a rebentar , porque fc a dita ope- rajao fe anticipar a ede tem^o determinado , ficarao os enxei-tos , ou garfos expoilos a injuria da geada , fe for de- EcoTsrOMiCAs. 207 depols , a grande abundancia do fucco fera a caufa por onde nao prendao os ditos enxertos ; alem difto deve fazer-le a enxertia antes que principle a correr o fucco , para haver tempo que fe Icque a extremidade fuperior do enxertOj e ie teche a paflagem ao mefmo fucco (i). § CCIX. Antes de referir os diiFerentes modos pelos quaes pode fazer-fe a enxertia , he neceffario faber as proprieda- des , que devem ter os garfos , as quaes fa 6 as feguintes : I. dcvem-fe efcoiher de huma cepa , que feja de boa caf- ta ; II. devem fer bem maduros , e rolijos • III. terao a medulla ( vulgarmente amego ) sa , e nao fungofa ; IV. devem ter os olhos proximos huns dos outros o mais que puder fer ; e no cafo de ferem diftantes , o garfo nao tera mais , que dois olhos , porque tendo hum maior com- primento , o movimento caufado pelos ventos , e chuvas he caufa de que feja fem efFeito femelhante operajao (2) ; V. OS fobreditos garfos ferao tirades de cepas novas , e vigorofas ; VI. da mefma vide nao convcm colher fenao dois garfos , porque os olhos das pontas fao ordinariamen- te eftereis ; VII. nao fe devem logo inrroduzir apenas fo- rem colhidos ( porque pegao com difficuldade ) , mas con- fervarem-fe cubertos por algum tempo. § ccx. Qiierendo trafportar os garfos para outro paiz, devem atar-fe em hum molho , e cubrirem-fe com huma efteira ; e lo> (1) Verier itaque ratio eft inferendi tepencibus jam diebus poft hieniem , cum et gemmas , et corricem naturaliter movent, nee frigus ingruir , quod pofiit , auc furculum infitum , aut plagam inferere : permiferim tam.en feftinantibus autumno vitem infoe- re ; quia non dillimilis eft ejus aeris qualius verna. Colum. lib. A. cap. 29. §. 4. ~'. "S ■ • - , (2) Colum. lib. 4. capv 2^. ^.5. 6, 2C8 M E M O R I A S c logo, que chcgarem a vinlia aonde had dc ter ufo ^ de- vem-l'c cnterri^r para que nao ibquem ; porem antes; de fazcr a enxertia , Icrao mergulhados na agua lomente aquellcs , que houvcrcm do lervir , pcrque nao lie con- vcuicnte , que fe demoieiii por muito tempo. § CCXI. Ha quatro. differentes modos dc cuxcrtar as viiilms j o I. he de cavallo ; o II. de horbulha \ o III. dc facada ; o IV. de buraco. A enxertia de cavnllo conlille ciu cf- cavar a cepa , e ierrar o tronco da melma naqueila parte, que fica debaixo da terra , e cortar todas as raizes , que a melhia tiver junto a luperficie. Depois fazrle huma fen- da com huma cunha de olio , ou pao muito rijo , que chegue quali ate ao no immediato de forma , que teniia de cumprimento duas poliegadas ^ porem le o no immediato eftiver muito dillante , convem apertar o tronco pela par- te debaixo com iium vimc , ou junco, para que a fenda nao feja maior do que Jie necellario (i). § CCXII. Os enxertos deverao cllar preparados , difpoftos cm forma de cunha , e mergulhados em hum vafo meio de agua j porem efte preparo fe fara na mefma manha , ou tarde em que fe iiouver de fazer a opera^ao , ou ao mef- mo tempo , que hum homem prepara os enxertos , ou gar- fos , outro . pode preparar a cepa aonde os fobreditos fe hao de introduzir : efces garfos com huma das fuas pontas fei- (i) Tcm',)er.uur ita furculus , lU calamo non abfimilis coag- mcnrcc fiirurani , fub qua nodus in vice dcMlJeratur , qui quad aliiget eam R'Turm , nee rimi.n p-iciatur ultra procedcre. Is no- d'.is eciam fi quacuor di^itis a refeflione abfucrir , illigari tamen earn prius q;iam viris findacur conveniec , ne cum fcalpro fadum fucrit iter furculo j p!u: jullo pla;;a hiec. Colum. lib, 4. C'^p. 29. 5._^8. £ garfos com hum raonte de terra do mefmo modo ^ que fe faz na ouira enxertia* Tom. 11. Dd § (i) Inferitur autcm vkis , vel refcifa , vel Integra perforata terebra : fed ilia freqiaentior , et pene omnibus agricolis cognita mcifio; hacc rarior j et paucis ufurpara. Colum. lib. 4. cap. i^. §.7. Reciditur virs plerumque fupra terram , nonnumi^uam tamen et infra quo loco magis folida eft , atque cnodis. Colutn. :lib. 4. cap. 29. §,8, Figuretur furculus in fpeciem cunei , fic .m ab ima parte acutus furculus, latere altero fit tenuior, atque altero plenior perque tcnuiorem infertus eo latere ardletur , quo ut plenior , et utrrnque conftringat fiffuram , nam nifi cortex conici flc applicatur , ut nuUo modo transluceat , nequit coa- ■lefcere. lib. 4- cap. 29. §. 10. Vinculi genus ad incifionem ^on unum eft , alii viminibus obftringunt , plurimi ligancjunc9j irbruitur cacumine tenus, Colum. lib.' 4. cap. zs. §. 7. ^. ECONOMICAS "2ir te modo de enxertar f6mente tera lugar quando as cepas fao muito velhas , porem que fe acliao em circumftancias de puderem fer langadas de cabeja , ou a camadas. § CCXVL O terceiro modo de enxertar he aquelle cliamado Tulgarmente de borbulha , ou de efcudo : pratica-fe do tnodo feguinte ; quando o olho , ou botao da vide come- ga a engroflar , tira-fe de forte , que traga huma pcquena porgao do ligno , ou madeira. Naquella vide , que fe per- tende enxertar abre-fe hum buraco da melma grandeza , e mete-fe o olho , ou botao , e para que fique bem uni- do molha-fe em gomma , a qual Ihe ferve de prifao , on ata-fe com hum fio feito de algumas fevras de linho. § CCXVII. O quarto modo de enxertar chamado vulgarmente de buraco , fendo bem executado he o mais feguro. Con- lifte pois efle em fazer no tronco da videira hum bura- co , que tenha o diametro da vide , que fe houver de introduzir , feito efte deve efcoJher-fe huma vide das ce- pas vizinhas , depois tira-fe o cortice , ou cafca daquel- la porfao de circumferencia da vide que houver de ficar dentro do tronco da cepa (i) , introduzida que feja a vide ata-fe , e cobrem-fe as junfturas com barro amalfado 'com efterco de vacca. Efte enxerto tem a vantagem de que nao fomente recebe o nutrimento da may , mas tambem Dd ii da- (i) In ilia aurem , qux fit per terebrationem , primum de Vicino fruftuofdlimam oportet confiderare vitem , ex qua velut traducem inhscrentem matri , palmitem attrahas , et per foramen tranfmirtas : hsec enim tutior , et certior eft incifio , quoniam et fi proximo vere non comprehendit , fequente certe , cum increvit , conjungi , et mox a matre reciditur , atque ita fuper- ficies infitae vitis ufque ad receptum furculum obtruncatur. Colum. lib. 4. cap, 2^. §.15. ill MtMORlAS daquclla cepa aonde fe fez o enxerto j porcm a vide p6-. de cortar-ie pallados dous annos. § CCXVIIL Quando porem nao houver hiima cepa vizlniia de toa carta , fe faia a enxertia por outio modo. Na cepa que fe pertcnde cnxertar faz-fe hum buraco , que chcgue ate a medulla fern paflhr a outra parte ; depois mete-ie o en- xerto tirando o cortice naquella parte , que fe houver de introduzir j feito ifto aperta-fe , e luta-fe por toda a cir- cumferencia. Efle methodo nao deixa de fer feguro j po- yem. o enxerto rebcnta muito mais tarde (i)» § CCXIX. Em quanto ao raodo conio devem tratar-fe os en- Xertos devcmos advertir , que depois de feita a enxertia por qualquer dos modos referidos deve haver cautella , para que nao fe fa^a movimento algum na cepa ; por ef- ta caufa he muito conveniente o prohibir toda a entrada na vinha , desde o tempo em que principia a rebentar ate que tenJia caJiido a flor. § ccxx. Quando dos enxertos tiverem rebcntado alguns ra- ittos , e cftes tiverem de cumprimento pouco mais , ou rnenos palmo e meio , como tambem ao mefmo tempo bro.ao muitos das raizes , e do tronco , todos elles devem cortar-fe com muita cautella , de forma que nao toquem o no- (i) Hujus traducis fi non eft facultas , turn detraduni vitt quam recentiHimum eligirur farmcntum , et leviter circumrafum ut cortex tantum detranatur , aptarur foramini , atque ita luto circumlinitur refcifla vitis , ut totus truncus alieni generis viti ferviat , quod quidem non fit in traduce , qui a materno fuf- ?inetur ubere dum innotefcat. Colum. lib. 4. cap. 2p. §. 14. k ECONOMICAS. ai3 b ncvo enxerto. Acs enxertos de cavallo no fim de Julho fe dara huma leve cava de forma, que nao fe ofFenda6 OS garfos , e quando os ramos eftiverem no eftado de puderem ler atados devem-fe brandamente levantar , e de- pois atarem-fe a huma , ou mais eflacas ( fe for neceflario ) para que nao fejao deilrocados pelos -yentos. § CCXXI. Em Setembro podera o terreno levar outra branda cava , cortando ao niefmo tempo todos os ramos , que liverem rebentado das raizes , e do tronco aonde fe fez a enxertia. No Outono convem alimpar os enxertos de todos OS pequenos raminhos , como tambem cortar todas as ligaduras , para que o fucco tenha huma paflagem mais defembarajada. No anno feguinte devem tratar-le os en- xertos com muita cautela. A poda defies deve fer feita em Mar§o , e nao no Outono , porque ficao fujeitos ao damno que Ihes podem caufar as geadas , muito principal- mente nos paizes mais frios , e ferao podados de forma , que fomente fe Ihes deixem tres oJhos , e ate ao quarto anno fera feita a poda com mais moderajao (i) . C A P I T U L O XVI. Do modo de lan^ar as videiras de cabe^a , e da mer- gulha. § CCXXII. OS eftrumes , e a enxertia de que temos fallado fa5 OS meios , ou cautelas , que o lavrador deve empre- gar para mclhorar as fuas vinhas , porem como neftas niorrem ordinariamente muitas videiras por varios acciden- tes (i) Putandum vero fic , ut ufque in quartum annum parcius impcrecur as cepas , que sxcedem a altura eonveniente, § CCXXXV. Acontece muitas vezcs , que as cepas por negligen- cia dos Proprietaries excedem a alrura conveniente , e re- iativa as dilTerentes fuua^^cens do terreno , e narureza do mefmo. Nefte cafo Te as ditas cepas ainda elliverem vi- gorofas , e o excelTo m6 for muito , podem rebaixar- le peJos poliegares deixados nos lugaies conipetentes. § CCXXXVI. Porem quando as cepas eftiverem riiuito altas , e pro- ximas a morrerem fe procedera do modo leguinte. No tempo coinpetente devem podar-fe , e efcavai-ie as cepas deixando poucas varas , ou iomente poliegares ; e depois no tronco das cepas em altura conveniente, e relativa ao fi- tio , e natureza da terra , le faz hum buiaco de pequeno diametro , que chegue ate a mtdulla : feita eila opera^ao Ee ii con- 220 .• M- E M O R I A S convem cftmmar , e cavar o terrcno , para que as videi- ras rcbcntcm com inais vigor. § CCXXXVII. Sc brotarcm algumas varas vigorofas aonde fe f'cz a fcrida , dellas dcvem dcixar-1'e aqiiellas com que poder a cepa , c ic cortara toda a parte I'uperior da mefma : fe porem as varas f6rera mais fracas , ficara com hum , cu dous poUegares : fe fomente brotar hum pcqueno , e del- gado ramollnlio , todo fe pode deixar , porque defte no anno feguinte brotao varas lufii:ientes para a conl'crvacao das cepas : porem a pratica introduzida nas Provincias da Beira , e Traz os Montes em femelhantes acafos , confifte: cm arredondar as videir.as para que das cicatrizes deltas- rebcntem novas varas : mas elle methodo nao deve fer, adoptado J porque fica huma fcrida dc grar.dc diametro muito fujeita as injurias do Sol , frio, e chuvas , e. ate. mais facilmente expoila a podridao. Das ferulas das cepas. § CCXXXVIII. Humas vezes por negligencia dos obreiros fe oifende Q_ troiico das cepas , e outras as raizes das mefmas. Nao ■ l)ode haver coula mais nociva as videiraa , porque por ef- tas feridas perde-fe o fucco nurriticio , e ticao mais fu- jeitas ao damno, que.lhes podc caufar a neve , e geada , c as raizes ofFendidas abforvem com muito menos forja o fucco nurriticio. O remedio , que le applica quando taes accidentes acontecem as cepas, confifte em cubrir o rronco , e raizes offendidas com terra miflurada com el- terco de cabras , ou de ovelhas , e dcpois cavar o terreno na circumfcrencia da ccpa. . ^/- E C O N O M I C A S. 2^1 EJlerilidade das Videiras. § CCXXXIX. Acontece frequentes vezes , que muitas cepas , e vi-- nhas nao produzem frufto algiim , ainda que ordiiiariamen- te fe oblervao eftas muito vigorofas. Eila eflerilidade- pode nafcer de muitas caufas , ou de ferem as videiras- de ma eafta , gu da- nanireza do terreno , ou de nao fer conveniente a fituafao do mefmo : no primeiro cafo deve fazer-fe a enxertia das Ibbrcditas videiras ; no fc- gundo corrigir a terra , c no terceiro nao convem appli- Gar outro remedio mais do que arrancar a vinha , e iub- ftituir o feu lugar com outras arvores , ou plantas accom-- modjdas ao clima , e natureza da terra. Dos Meteoros. § CCXL.. Os meteoros caufao graviflimo deterimento as vinliag^;. porque as chuvas abundantes , e frias cahindo nas cepas fern que eftas tenhao as varas maduras , fobrcvindo de- pois alguma geada , efta embara^a que as Ibbreditas varas cheguem a lua perfeira madureza. As cepas podadas quando ha frequentes chuvas, e geadas ficao muito de- terioradas , e algumas vezes morrem. E quando na Pri-- mavera vem alguma geada hum pouco mais forte , na6 fo caula gravifhmo damno a futura colheita , mas tambem ataca as cepas de tal forma que as faz morrer. § CCXLI. Os ventos principalmente o Sud-Oeft queima as fo- ihas das cepas , os novos pimpolhos , e o frudo que nai^ ce. A faraiva quando cahe em tempo que as uvas na6 ■ ef- %2\ M E M O R I A S eftao maduras as faz Icccar naquella parte, que fad to- cadas : cahindo no tempo da iloiclccncia dunjr.ue muito a qiiantidade do vinlio , e fcndo impcllida por hum ven- to inais force quebra as vides , e lan^a por terra o feu friifto. Todos ertes accidcntes nao fc podem eviiar, i^6 lira diminuir-fe havendo huma boa economia na cultura das vinhas , e huraa premeditada efcoUia na fituajao do teneno , e natureza do mefmo. Dj demaziada Luxuria ou vich das Cepas. § CCXLII. Alem de todos ellcs accidentes tambem as vinhas ef- tao. fujcitas a muitas enfcrmidadc^ , huma deltas he a de- inaziada luxuria das cepas , a qual confille em procluzi- rem eftas muitos ramos , e nenhum fius^lo : he occazio- nada efta enfermidade do muito , e exceflivo nutrimento , que as cepas tern reccbido. E acontece todas as vezcs,- que as mefmas nas terras fortes ticao com muito poucas varas. Ncfte cafo tcm mollrado a experiencia feita nas vinhas das tres Provincias do Norte , que o rcmedio mais conveniente confifte em carregar as videiras com liurrt, maior numcro de varas. Se porem odito rcmedio nao pro- duzir em algumas cepas o effeito dczcjado , recommenda Palladio , que ft.-ja6 efcavadas , e quefe efpaihe a roda do tronco area , ou cinza , ou pequenos pedaqos de pe-' dra (i) . (i) Locis caiidis , et aprlcis vices, qunc trutlu carcnr , fronde luxuri.-itu , et p.iuperkm focruum compenlanc ubcrr.ue tol orum , nine purare prelhus convcnier : frigidis vcro mcnfc I'ebruario. 5>i pertn.mcbic hoc vitium , circiim foiTas arena fliivianli j vel cLncre dcbebimus aggerare. Quidam lapides inferunc inter fle- xuofi radicum. Pall, in M. Nov. lib. 12. tir, (j. Economic as. ii^ Da Itericia. § GCXLIIL Efta enferiTiidade he aquella , que fe obiefva mais feequentes vezes nas vinhas de Portugal , eonhece-fe pois quando as videiras tern as vides muito fracas , e quando as folhas dcixando a fua verdura natural fe mudao cm amarelas , e fao de huma grandeza nmito menor do que llies convem. Efte genero de doenca fendo de quafi toda a vinha , precede de eilar o terrene exhauride dos fuccos nutriricios , e de fe carregarem as videiras com muitas- varas : neile cafo nao pode haver remedio mais util do que eftrumar o terrene , efcavar as cepas , e deixar-lhes muito poucas vaias , e mais turtas. § CCXLIV, Quando a fobredita doenya atacar fomente algumas v.ideiras , obfervando-fe a maior parte da vinha vigorofa, e com a fua natural verdura , he evidente que huma cau- la muito differente tem produzido efte eifcito , o qual pela abfervagao feita em algumas cepas fe conclue. fer nafcido de terem apodrecido as raizes principaes , ou de ferem cortadas pela negligencia dos obreiros : nefte cafo he me- Hior arrancar as cepas , e fupprir o feu lugar pela mer-' gulha das vizinhas , do que applicar-lhes algum remedio, porque a vide mergulhada brevemente fe faz videira , e* a cepa enferma per mais remedies , que Ihe fagao diffi* c.ukofamente torna a reftituir-fe ao feu antlgo vigor. Da cop J of a ejfufao do fucco na Prima'vera. § CCXLV. As videiras languidas , e as folhas das^jiiefmasmur- chas y 224 M E M B I A S chas lao finaes evidenrcs dcfta enfcrmidade , a qual nafce de liuma grande quantidadc de i'ucco que corrc unicamen- te pclas abLTturas da poda , fern fe efpalhar pelas varas da cepa. Os remcdios , que fe coftumao ordinaiiamcnte applicar nclla doenja , conlifte primeiramente em fazcr al- gumas fcridas nas raizes mais grofl'as da cepa , e untalas com fezes de azcite csfriado tendo tervido ate diminuir metade , e depois lancar neftes golpes vinagre forte : em fegundo lugar moftra tambem a experiencia fer convcni- ente cancgar as videiras com hum numero mruor de varas djixando-as tambem com maior comprimento , tudo para o fim que o fucco polfa efpalliar-fe mais. E no cafo que todos ciles remedios nao fejao baftantes, he conveniente cortar algumas raizes (i) . Eltas lao as enfermidades , que fc obfervao mais frcquentes vezes nas vinhas de Portugal. Ha outras , que atacao as cepas mais raras vezes , como fao a gomma das cepas , e a podridao das uvas apenas fahcm da florefcencia. Da Podridao, § CCXLVI. Em algumas vinhas apenas as uvas faliem da floref- cencia , logo apodrecem. Attribucm a caufa defta enfer- midade a grande quantidade do fucco nutriticio , o qual liifFoca o novo fruCflo, e o reduz a huma perfeita podri- dao. Coftumao curar efta enfcrmidade cobrindo o tronco das cepas com farinha amalfada com vinagre. Quando as uvas apodrecem por caufa da iiumidade, convem desfolhar as (i) Vites , qux lacrymarum nimict.nte tabefcunt , ec deploran- do vim' roboris fui avertunt a frui.'lu , trunco earum lacerato Grceci finum fieri jubcnt. Si hoc minus proderlt radicum robur pingue rcfcindi , ut afFerat medicinam vulnus imprelTum : tunc infulla amurca ad mediecatem decoda , et refrigcrara , plagae excifio pcrlinetur , et fub hac acetum acre fundatur. P.iilrd. vi\ M. Febr. lib. ^. tic. 50. E C 6 N O M I C A. S. 125" as videiras trinta dias antes da vindima , dc forma que fazendo-fe efte desfolbamento por vezes fiquem as uvas mais expoftas aos raios do Sol (i). Da Gonima^ § CCXLVIL He efla liiima extravafagiao do fucco ., que prlncipl- .•ando a fubir no pe da cepa , e nao tc-ido forja para che- <5dr a huma maior alrura fe cfpalha , e engrolFa no tron- !CO , e ve.ii a formar huma efpecie de Gomma. efta enfer- lii'dadt; qunndo ar.ica toda a Gcpa he tao incuravel , que obriga ao lavrador a arrancala : quando lomente for em J-iun ramo da mefraa deve cortar-fe efte , e depois untar a feri da coin azeite , oa outras quaefquer materias oleofas. CAPITULO XIX. Dos damnos , que caufao os aaimae^^ § CCXLVIIL COmo as vaccas , bols , cavallos , e jumentos fe por fte* gligencia dos lavradores entrao nas vinhas caufao mui- to damno ao frudto , e as varas , ainda mclmo depois da vindima , deve fer prohibida a entrada dos ditos -animaes ^ porque oSendem as cepas , e cortao muitas varas necef- farias para a fua confervajao. As cabras em qualquer tempo , que feja fao para as vin!ias os animaes mais no- civos , que fe podem encontrar , porque cortao as vides 5 fazcm muitas feridas nas cepas, e Ihes tirao o cortice, ou cafca. Tom. 11. Ff § (r) Vicis cujus frutlus hutnore pucrefcit , per latera pampinatv- da eft ante trigefimuni vindemiac dicm , et iola frons ilia lervan- da eft, quae in fummiracc pofira folem nimium defendit a vertice, Pall^. in JMenf. Septemb. lib. 10. tic. 18. 226 M E M O R I A S § CCXLIX. As rapofas , Icbrcs , e coclhos caufno nns vinhas fmm cftrago quail irreparavel , como tan-ib(.m o rato tericfte , porque coria as raizes das ccpas. Por clla cnula r-ao ccn- vcm plainar viiiJias em rerrenos cercados de ir.ontcs , niiu- to principalmcntc le concorrcm poucos proprleiarios a fa- zer a planta5a6 y. porque fendo tlla t'cita por muitos , e grande a exteniao do terreno pcvoado dc cepas, lie mui- to menos fenlivel o dctrimenLc. § CCL. Para acnutelar o damno , que os anliraes dcmcftlces fazem ras vinhas , dizcm alguns Ocnologidas que lie con-' venientc borri&r as videiras com agua dcntro da qua!" tenliao eftado por alguns dias ccuros de boi , porque o cheiro defta agua cmbaraca a paflagem dos Ibbreditos ani- oiacs lias viniias. § CCLL Entre os infciftos rs formigas crrtrmao rcer a? rai- 2CS das cepas 5 e muiras vezes penetrallas iite a medulla ; podc-!e dar rcmcdio a cile damno fazendo grar.dcs fo- gueiras nos fcrmiguciros , porque adquiiiiido a icrra hum grande ca.lor morrem as formiga?. § CCLIT. He tan'.fccm muito confideravcl o damno , que caufaa as' vclpas , e abelhas nas uvas quando principiao a amadu- icccr. Para.prevcnir cfte irconv.eniente ,.devciii-ie tGinni: al- gmr.as garrafas feiras de barro , ell. s tnchcm-fe atxi nic- ijide 'de agua com £lTucar,,c o gargah^ na parte iinecicr 5los ; I. porque nao fe unem rodos os proprietarios daquella vinhataria a lanjar fora ao mefmo tempo das fuas vinhas todas as larvas , ou lagarta ; II. aqueiles lavradores que fe lembrao occupar as mulheres nelle geneio de trabalho, nao mandao que eile feja repeti- do nas mefmas vinhas por mais dias fucceffivos ; III. fendo hum meio mais feguro queimar as larvas , que tern recolhido , efcolhem antes lanjalas nas eftradas donde muitas , ou quad todas tornao para as vinhas, Devo ul- timamente advertir que naquellas videiras aonde as folhas nao fe obiervao enrofcadas he melhor facudir as larvas , do que cortar as ditas folhas , porque fao ellas de gran- de neccilidade nas cepas no tempo em que fao cortadas , muito principalmente nas ladciras do Alto-Douro , aonde pcla intenfidade do calor , e pouca humidade do terreno as ECONO MICAS. 239 •as vldelras precifao muito do abrigo das fuas folhas , e de outios officios mais , que ellas fazem. § CCLXXIV. Alguns Oenologiftas lembrao-fe mais de tres meios que podem fervir para acautelar o damno , que caufao as larvas recoihidas na terra como fao I. efcavar as cepas , e lancar nas covas agua na qual tenhao eilado folhas de louro por doze, ou quinze dias ; II. quando cahem as fo- IJias da vinha , efpalliar no terreno as de nogueira , e enterrallas ate a profundidade de duas pollegadas , as quaes depois que tern apodrecido fazem fahir para fora as di- tas larvas ; III. lanjar na vinha efterco , no qual fe re- colhem as larvas quando fe transformao em Nimfas , de- pois de recoihidas queima-fe o efterco , e as cinzas ef- palhao-fe na mefma vinha. He mais fimples , e ralvez lera melhor quando fe efpalha o efterco mifturar-lhe cal viva , porque defte modo fem mais outro trabalho matao- fe OS inferos , e larvas recoihidas na terra. § CCLXXV. Os caracoes (i) tambem caufao grave damno as vl- nhas deftruindo-lhes os feus gomos , e por iftb o Pro- prietario deve empregar toda a diligencia para matar eftes vermes , e o tempo mais convcniente para os encontrar he de manlia pelo orvaHio , ou em tempo frefco. Porem todos OS Proprietaries devem empregar-ie ao mefmo tem- po nefte trabalho , porque pouco importa que por dili- gencia de hum lb fe matem cem ou duzentos deftes ini- •Hiigos , quando ficao tres , ou quatro mil nas vinhas im- mediatas. ' Toda a doutrina que tenho expofto na terceira par- te (i) Helix : Animal Umax , rtfta convalvis , Tplralis , fubdia- phana , fragllis ; apertura coardata intus , lun.axa iubiotunda , ie%- mento circuli dempto. Lin, Syft. Nar. pag. 1241. 14^ M E M O R I A S te dcfta Mcmoria pode reduzir-fe as fcguintes regras pr* ticas. Dos EJlrumes. R E G R A I. As vinhas , que a pezar dc ferem cultlvadas Ic ob- fervao muito fracas , e quafi reduzidas a ultima decaden- cia , nao podem fer reftituidas ao feu antigo vigor fenao por meio dos eftrumes. R E G R A II. As vinhas das ladeiras , nas quaes difficultofamente o lavrador pode acautellar , que as aguas do Inverno Ihes roubem huma porjao confideiavel da fua terra vegetal , fao aquellas que mais precifao de ferem eilrumadas. R E G R A III. Deve fer moderado o ufo dos eftrumes animaes , por- que fendo exccifivo o viuho he de inferior qualidade , e facihiiente dcgenera em gordo. R E G R A IV. He muito baftante , que os eftrumes animaes fejao lanjados nas vinhas de tres em tres annos. R E G R A V. Melhor fera , que os eftrumes animaes , antes de fe- rem langados nas vinhas , fejao mifturados camada por ca- mada com terra vegetal , ou outra qualquer accommoda- da a nitureza do terreno , e depois que tiver fermentado todo eftvi montao , tem o lavrador maior quantidade de cf- trume , e mais convenience para a vinha. RE« E C O N O M I C A S. '^4t R E G R A VI. Efterca^fe as vinhas com os cftrumes animaes, on efpalhando eftes igualmente por todo o tcrreno , ou ef- cavando as cepas , e lanjando a cada huma dellas huma porjao de ellerco. Por qualquer defies modos , ou pou aquelle que a experiencia moftrar mais util , pode o la^ vrador eltruniar as fuas vinhas. R E G R A VII. Formado h-um moTita'6 de lenha , e terra barrenta air ternando camada de huma com camada da outra , e ap- plicado o fogo pela parte debaixo de forma , que fc faj a arder toda a lenha , tern o lavrador , palfadas vinte e qua- tro horas , huma terra excellente para eflrumar as vinhas das terras foltas , e areentas , no cafo de ferera lituadas aonde feja applicavel efle methodo. R E G R A VIII. Os termojos , favas , hervilhas , nabos , e outra quaes- quer plantas icmeadas nas vinhas , e enterradas logo que chegarem a florefcencia fao os melhores eftrumes , que as ditas vinhas podem receber , e appiicaveis a qualquer iitia. R E G R A IX. As vinhas das ladeiras para onde correra as aguas da chuva das terras vizinhas , podem fer melhoradas fa- zendo-lhes foflbs , ou covas , mas com tal ordem , que as aguas trasbordadas de humas fejao recebidas , e con- fervadas em o'utras. Feita a evapora^ao da agua , fica a nata dos predios vizinhos , hum dos meliiores eftrumes, que as vinhas podem receber. 'Torn. 11. ' Uh RE- i4* Memorial R E G R A X. O aterramcnto lie hum meio pclo qual as vinhas muito fracas das ladciras podcm fer reltituidas ao feu an- tigo vigor, porem a terra nova deve fer lan^ada com tal medida j que as cepas nao liquem muito enterradas. R E G R A XL O matto enterrado nas vinhas das ladeiras , ferve de eftrume , fuftenta a terra , c he indifpenfavelmente necef- fario naqueljes fitios aonde por falta de pedra. o iavra- dor nao p6de fazer fucalcos , ou geias. Das Enxertias.. R E G R A XIL As cepas de ma cafta , e que nao forem proprias do fitio da vinha devem fer enxertadas. R E G R A XIIL A enxertia deve fer feita pafTado o Inverno , c an- tes que as videiras comecem a rebentar.. R E G R A XIV. Os garfos devem fer saos , maduros , tirados de ce- pas novas , e de boa cafta , os olhos proximos o mais que puder fer. Nao ferao mettidos na cepa apenas forem «olh:.los , nem de hunia vide convem tifar mais , que dous garfos. KE- E G IT o M 1 c A aft ,543 R E G R A XV. Os garfos tranfportados de huma vinha para^outra diftantc devetn li cubertos , e logo que chegarem a efta^, fer en.terrados , e coniervados ate fe fazer a enxertia ; porem antes tieita ferao mettidos algum tempo em agua. '•-■ r R E G R A XVL Ha quatro difFerentes modos de enxertar as vinhas, como I'ao de cavailo , borbulha , laccada , e buraco. R E G R A XVIL : Faz-fe a enxertia de cavailo efcryando a cepa, i? ferrando o tronco naquella parte > que fica debaixo da ter^ ra , fende-fe efte com huma cunha de olTo , cu pao muito rijo, ate quafi ao no immediato : os garfos que para ifto mefmo eftao preparados , mettem-fe na fenda por huma das pontas feita em forma de cunha dc maneira , que a calca do garfo iique em direitura com o da cepa , cobre-fe a fenda com barro amaflado com ellerco de vac«^ ca, e aperta-fe com junco. R E G R A XVIII. Quando o tronco eftiver carcomido , faz-fe a en* xertia nas vides ; deixao-fe eftas com quatro pollegadas de comprimento fobre o tronco , rachao-fe pelo meio , e nefta fenda mettem-fe os garfos de maneira , que a me- dulla ( vulgarmente amego ) e a cafca deftes fiquem mui- to unidos com os das vides , que fe enxertad , apertao^ fe , e cobrem-fe com terra de forma , qu€ fe deixem ds fora dous olhos em cada garfo. Hh ii RE- 244 .? M E M O R I A S R E G R A XIX. Enxerta-fe de borbuiha , tirando da vide hum ollio , ou botao , quando elle comeja a engroflar , e mettendo- o em huma fenda da mefma grandeza , que fe tern fei- to. antes naquella vide , que fe pertende enxertar , e pa.- raque o bota6 fique bem unido molha-le em gomma , ou. aperta-fc com algufls fios. de linho. R E G R A XX. A Enxertia de facada confide em dar a vide que fe pertende enxertar hum corte femeJhante aquellc , que fi taz quando fe apara huma penna , com outro igual fe prepara. o garfo : unem-fe muito eftas vides de forma , que por todas as partes' fique a cafca do garfo unida com a da vide : depois atao-fe do mefmo modo que fe faz na enxertia de borbuiha. R E G R A XXL --A enxertia de buraco confifte em fazer no tronco da- videira , que fe enxerta luim buraco , pelo qual pof- fa entrar huma vide das cepas vizinhas ; feito efte , tira-fe a cafca daquella parte , que.houver de ficar dentro do tron- co , e mettida que feja a vide , ata-fe , e cobrem-fe as jun- <>lura8 dc barro araailado com eilerco de vacca.. R E G R A XXII: Acabada a enxertia nao'^ convem fazer movimento al- giTiii na ccpa , por ella caufa devc prohibir-fe roda a en« tradi na vinha , desde o tempo cm que comeja a brotar, ate que tenha cahido a flor.. RE- E « o II o « I c A s. ^4$ R E G R A XXIII. O lavrador deve esladroar os novos enxertoi quan- ■do for neceflario , dar a alguns huma leve cava no fim de Julho , e Setembro , e atallos a huma , ou mais elta* cas para que nao iejao deftrogados pelos ventos, R E G R A XXIV. Os enxertos nos primeiros annos devem fer tratadbs com grande circumfpecjao j fendo podados com muita moderajao , e depois de pafTar o Inverno , cavados no |empo competeate , e esladroados quando for necelTarior Das Videiras lan^adas de cahe^a^ R E G R A XXV. O langiar huraas cepas de cabeja , ou acamallas, c mergulhar outras y he hum meio de que o lavrador fe fer* ve para fupprir a falta daquellas videiras > que por varios accidentes tern morrido^ R E G R A XXVI. Para lancar huma videira dc cabeja faz-fe huma co- va J que tenha pouco mais , ou: menos tres palmos de altura , e largura baftante para caberem as pontas , que houverem de ficar. Lanja-fe no fundo da cova terra da fuperficie , e podendo ler mifturada com algum efterco. Depois deftribuem-fe as pontas ( que ferao de duas at6 cinco ) em diftancia de quatro ou cinco palmos cada hu- ma. Enche-fe a cova de terra de fcSrma , que fique na fu:- perficie aqueila , que eftava no interior. RE- M4fi Memorial R E G R A XXVir. As videlnis , que houverem de fer kn^adas de ca- hc^:{y ou acamadas devem logo fer elcoUudas na vindi>. ma. R E G R A XXVIIL O tempo conveniente para cfta operajao he o Ou- toiio nas terras inagras , e Alar^o nas fones , e argilla- «eas, ou barrentas. R E G R A XXIX. Devem laiifar-fe as videiras dc cabe^a fomente para lupprir a falta daquellas cepas , que por alguns acciden- tes tern morrido , porem ha taes Proprietaries , que nao querem ver nas luas vinhas hum £6 palmo de terra fern cepas ; mas quanto fe enganad ! Ellas vinhas paflados poucos annos enfraquecem-fe de tal forma que nao pagao ^3 defpezas da cultura. Mergulha, R E G R A XXX. A mergulha tern o mefmo fim , que a operajad an- tecedente, porem he mais vantajola , porque os mergu* Ihoes em menos tempo fe faxem videiras , e no tempo que Jium obrciro lan^a liuma cepa de cabeja faz a mer- gulha -de dez , ou doze vides. R E G R A XXXL Confide efta operafao em mergulhar os ladroens j que nafcem na parte inferior das videiras , para o que ao pc deflas faz-fe huma cova , que nao tenna mais de -^ /I tres E" c a N o M I c A s. 247 tres palmos de altura , depois eftendem-fe , e unhao-fe os merguiligeus , e pratiea-fe o mel'mo , que na operajao antecedence. R E G R A XXXII. PafTado o primeiro anno , na curvatura , que adqul- re a vide quando fe mergulhou , faz-fe hum goipe pela parte de fima , que nao chegue ao meio da vide , para que as novas videiras comecem a fuftentar-fe com as iuas raizes. No anno feguinte pode ja cortar-fe toda a com-, municajao. Da Efcava. R E G R A XXXIIL A efcava contribue muito para a confervagao das ce- pas , mas para nao mulriplicar defpezas bafta que fomen* te fc faja de tres em tres annos. R E G R A XXXIV. O fim da efcava he.defcobrir , e cortar as raizes j que nafcem junto a fiiperficie da terra , para que o fucco fe encaminhe as mais profundas. R E G R A XXXV. Efcavao-fe as cepas abrindo-Ihes a roda huma cova y. que tejiha pouco mais ou menos hum palmo de altura; e cortando fora do tronco as pequenas raizes , que nal^ cem. no ellio, R E G R A XXXVI. He util a efcava nas viniias , porque nas covas Head as folhas das cepas , e com as aguas do Inverno cone- para as mefmas a nata dos predios vizinhos.. i/fi Memorias Accidentcs , e Enfermidades das vinhas. R E G R A XXXVII. As vidciras , que por negllgcncia dos lavrador^s ex- cedem a altura conveniente , e rclativa ao fitio do terre- ne , e natureza do mefmo devem fer rebaixadas pelos pollegares deixados nos lugares competentcs. R E G R A XXXVIII. Porem quando as cepas eftiverem muito altas , e quafi a morrer , devem fer efcavadas , e podadas deixando- llies poucas varas ; ou fomente depois no tronco em al- rura conveniente faz-le hum buraco , que chegue ate o meio. R E G R A XXXIX. Brotando deila ferlda algumas varas vigorofas ficara a cepa com aquellas , que poder, e fera corrada toda a parte da videira que ficar da ferida para fima. R E G R A XL. SenJo fracas as varas, que brotara6 da ferida , Hea- rd a videira com Juim , ou dous pollegares , e fe for iium pequeno ramofmho todo efte fe dcve cortar. R E G R A XLI. Curao-fe as feridas feitas por negligencia dos obrei- ros no tronco , e raizes das cepas cobrindo as partes of- fendidas com terra mifturada com efterco deovelhas, ou cabras , e cavando depois o terreno a roda da videira. RE- ECONOMICAS. 249 R E G R A XLII. A efterilidade da vinha nafce ou da ma cafta das vi- 'deiras , ou da natureza do terreiio , ou de nao fer conve- •niente o fitio ; no pnmeiro caib faz-fe a enxertia , no fegun- do prepara-fe o terreno , e no terceiro arranca-le a vinha. R E G R A XLIII. O damno que caufao as chuvas , neves , ventos , ,geada , e faraira nao pode totalmente acautelar-'fe , fo- mente ier menos fenfivel havendo huma boa economia na cultura das vinhas , e huma premeditada efcolha .na fitua- ^ao do terreno , e natureza do meimo. R E G R A XLIV. Quando fe bbfervao as ccpas tom hum exceflivo nu- mero de varas fern frudlo algum , nefte cafo convemdei- xar-lhes hum maior numero de varas , e nao fe alcangan- uo o fim dezejado devem fer efcavadas as ditss cepas , e langar-lhes a roda area , ou pequenos peda^os de pe- dra. R E G R A XLV. Quando quafi todas as videiras de que fe com poem a vinha tern as vldes rauito fracas , e as folhas amarellas he final que o terreno elH falto de fuccos , e que ficao as cepas com muitas varas , nefte cafo eftruma-fe a vi- nha , e deixao-fe menos varas , c mais curtas. R E G R A XLVI. Tendo origem a fobredita enfermidade da podridao das raizes principaes , ou de terem eftas fido cortadas por caufa da pouca cautella dos obreiros ., he melhor ar- Tom. IL li ran- 250 Memo bias rancar as cepas , e fupprir o feu Jugar pcia mergulha das vizinhas. R E G R A XLVII. A grandc effufi^o do fucco acautela-fe carregando as videints com lium maior nuinero de varas , e de maior compnmento j fazeiido aJgumas fciidas nas raizes mais groflas , e ate cortar algumas deftas fendo necellario. R E G R A XLVIIL Quando as uvas apodrecem apenas fahem da flor,, Gobre-le o tronco das cepas com rarinha amaJTada com vinagre. R E G R A XLIX. Na extra va fa fao do fucco Fendo no tronco princi- pal , nao ha outro reraedio fenao arrancar a cepa , fendo em hum ramo , ou Irrajo da videira corta-fe , e unta-fc a ferida com azeite. Danmo dos animaes ^ e meios de acautelar., R E G R A L. A entrada nas vinhas de alguns animaes domefticos como bois , cabras , cavallos , e jumentos deve fer ab- folutamente prohibida , ainda mefmo depois da vindima , porque offendem as cepas, e cortao muita^ varas nccef- larias para a fua confervajao. R E G R A LI. Lembrao alguns , que o lavrador p6de acautelar o damno que podem fazer os fobreditos animaes , borrifando a vJnha com agua dcntro da qual tenhao eftado couro* de boi por algum tempo« R E- ECONOMICAS Sfr R E G R A LII. O damno , que as formlgas caufao nas vinhas pode prevenir-fe fazendo grandes fogueiras nos formigueiros , porque com o calor que adquire a terra morrem eftes animaes. R E G R A LIII. Para acautelar o damno , que as abelhas , e vefpas fazem nas uvas , enchem-fe de agua ate metade algumas garrafas feitas de barro , e unta6-fe interiormente os gar- galos com mel , elles infedtos querendo-o comer entrao nas garrafas , e afFogao-fe. R E G R A LIV. Ha tres difFerentes efpecies de Pulgad , que fe obfer- vao com mais frequencia nas vinhas de Portugal y mais raras vezes porem fe encontrao o Befouro , Perilhao , e huma efpecie de Phalena ( vulgarmente borboleta ) que Linneo charaa ForsJcaleana. R E G R A LV. Todos eftes infe(5los , e as larvas , ou lagaita , que nafce dos feus ovos fazem grande eftrago nas vinhas. R E G R A LVI. Como muitos dos infeiflos deixao as videiras para comerem as favas , he util femear nas vinhas eftas plan- tas , e depois , que eftiverem povoadas dos infedos devem fer queimadas. li ii B^E- 25'* Memories R E G R A LVIl. Aindn que efte elFeito nao fcja alTim fempre deci- dido pcla expcriencia , he com tudo vantajolb o femear favas na? yinhas, porque he inuito menos J'enfivel o dam- no dos infeclos , como tr.mbcm leri , le os lavradores- adoptarem o coftuipc de fcmcarein uas viiihas diverias plantas , c enrerrallas logo que chegarem a ter flor. R E G R A LVIII. Como tambem alguns inferos preferem as folhas do alamo , e lalgueiro a outra qualquer pianta ; por iifo de- vem eftar proxinias das vinhas as ditas arvores , e fera conveniente, que com as melmas fcjao bordados os Rios,, e ribeiros , iios fitios de muita vinhataria. R E G R A LIX. Mr. de Fbindis diz que para lancar fora todo , e qualquer genero de infccflos , devcm borrifiir-le as vinhas com agua , na qual tenha eftado de inful'ao por quiuze dias meio carro de folhas de nogueira. R E G R A LX. He util feparar das cepas todo o cortice , ou cafca exterior, e que logo efta-feja queimada j porque defte modo acautela-fc o damno , que podem fazer os infeclos, que no tempo de Inverno vivem aninhados na dita calca. R E G R A LXI. O mclhor meio porque pode evitar-fe o eftrago que cauf.i a largarta nas vinhas, confide em vifitar todas as videiras pelo orvalho da manha , ou pelo maior calor do dia. ECONOMICAS. 253 dia , e facudllla em hum facco feito de propofito para illo mefmo , para depois de recolhida ler qiieimada. R E G R A LXII. Devem fer cortadas todas as folhas das videiras, que eftiverem enrofcadas , aquelJa parte dos caches , que fe obfervar damnificada , para depois fe queimar tudo R E G R _A LXIIL Efte remedio deve fer applicado ao mefmo tempo por todos OS Proprietaries da vinhataria , porque pouco importa que hum mate trezentos , ou quatrocentos defies inimigos , I'e concorrem muitos mil das vinhas vizinhas. R E G R A LXIV. Acautela-fe o darano , que faz a lagarta recolhida na terra eicavando as cepas \ e lanjando nas covas agua , na qual tenJiao eftado foihas de louro por doze , ou quin- ze dias. R E G R A LXV. As foihas de nogueira efpalhadas nas vinhas em tem- po competente , e enterradas ate a profundidade de duas pollegadas j tanto que apodrecem , fazem lahir para fora a lagarta recolhida na terra. R E G R A LXVr. He tambem util o efpalhar na vinha aJgum efterco , o qual deve fer queimado , logo que a efte fe tivex re- colhido a lagarta para pafTar para outro eftado. PAR- a^4 Memorial «*^^™^^^^'— — "— ■— ^"^ " ' ■ PARTE V. Dos differentes getieros de vhihas. CAPITULO XXII. Das Vinhas de enforcado , ou embarrado. § CCLXXV. PAra concluir o meu tratado de Oenologla refta-mc referir os diiFcrentes gencros dc vinhas , que ha etn Portugal , OS quaes mais gcralmente reduzo a dous , que fao vinlias altas , e baixas ; ao primeiro genero per- tencem as vinJias dc enforcado (i) , as latas , ou latadas , e as parreiras : no feguiido entrao I. as vinhas , que tetn as fileiras das cepas muito diftantes , e que collumao fer lavradas ; II. as vinhas , que fao empadas , e que podem fonenre fer cavadas ; III. as vinhas , que ficao unicamente com pollegares : e por fiin fallarei rambem das vinhas, que andao quafi rentes com a terra, arnda que eflas nao fao adoptadas em Portugal. § CCLXXVI. Propaga^ao, Princlpiando pelas vinhas de enforcado , exporei pri- meiramente as cautelJas , que o lavrador deve ter fobre a fua (i) Ha muitas deftas vinhas na Eftremadura , e Beira, ecu nerta as tenho obfervado em alguns fitios das Comarcas de Aveiro , Lamego , e Vifeu ; porcm na Provincia de Entre-Dou- ro , e Minho mais do que em outra quaUjuer , porquc em todos OS valles que »J' i yw »il»M."-^.^t~' ■ f'.wt'^mpmi OBSERVAGOES Feitas por crdem da Real Jcademia de Lishoa dcercs, do carvao de pedra , que fe encontra na Fregue- zia da Carvoeira^ Por Manoel Ferreira da Camara=. I N T R O D U C q A 6, M 178:^. Fortunate Jofe Barreto , Prior da Fregue- zia da Carvoeira , legua e meia diPcante da Villa de Torres-Vedras , abrindo hum pojo para haver de re- gar huma fazenda lua , chamada a Charueca , fituada ao- Efte da Freguezia tendo aprofundado a vinte palmos, en- controu debaixo de hum banco de faibro endurecido , a que precedia hum pequeno eftrado de argilla, huma camada de carvao de pedra pyritofo. Como algumas pyrites , que fe encontravao unidas com o carvao , erao de hum afpe(fto- brilhante e pezadas, humas cor de ouro , outras de pra- ta , conforme a dole de enxofre, que as havia minerali- zado , fe penfou haver-fe enconrrado huma rica mina deffes- metals : extrahio o Prior grande porjao , e para Lisboa trou- xe alguns pedacos , cujo exame cometteo a differentes pef- foas , e entre eftas a Simao Pires Sardinha , por via do- qual veio a Academia ter hum pedago defte carvao. Paifarao-fe feis annos , e em todo efce tempo a Aca- demia nao pode raandalio examinar , e ver fe daquelia mina , que parecia rica em enxofre , e carvao , podcria. vir algum bem a Na^ao. O pedaco que exiitia no Mufeo da Academia , lembrava ifto ; e he fem duvida efta liuma das grandcs vantagens que refultao de ajuntar debaixo: «isL iimn teiT;o os j^rodudos de qualquer Paiz ; com a rela- ^96 M E M O R I A S cao dos fitios, e lugarcs aondc le cncojitrao. Finahnente cm Sctcmbro do anno dc 1789. conllou dc nilm a Aca- demia o cxanie dcfta mina , dando-mc commiihio para da Ilia parte o liir fazer. O rclultado das minhas oblcr- vacoens , e expci iencias dd morivo a prefcntc Mcmoria. Dos ban cos de carrao , e fua riqucza. ENtrc as matcrias que fcrvem a combiiflad , vcm Jiuma que parcce ter Ikio primeiro aproveitada pelos Jiabi- tantes dos Paizes onde os vegctais lao raros : e em ver- dadc fc lanjarmos hum golpe de vifta fobrc os Paizes aonde Te encontra , e cxtrahe com proveito o carvao de pedra , acliallos-licmos dcfpovcados de vegetal? , de que a natureza os indemnizoii com aquella produc^ao. O fi- rio da Carvoeira , e llias vizinlian^MS abonao o meu enun- ciado. Os Jiabirantes delta Paroquia nao tern lenhas , i'e- nao trazidas de mais Jonge ; a me'"ma cepa , de que or- diuariamcnre le taz o carvao , alii he tao mefquinlia , que mal pagaria o trabalho de a fabricar j e pofto que o carvao de pedra fe encontre quail a luperficie da terra; todavia como Ihe nao conhecem a utilidade , e delle tern pouca neceflidade , tudo faz com que delprezem Jmns aquiJlo , que ourros eftimao em tanto. Logo que cheguel ao referldo fitlo da Carvoeira , procurei ao Pi-ior , c por acalb fora elle quern pela pri- mcira vez havia tirado o carva6 , o que eu Ignorava , co- mo tambem o fitlo. Delle apprendi tudo o que me pode- ria fervlr , ^ que folTe conducente ao meu iim. Apprcfcntou- me logo alguns rellos do carvao , que havla tirado para que eu o defenganalTe da qualldade daquclle mineral , fo- bre o que tlnha ouvldo a tanros : dilTe-lhc o que enten- dla , e palTando logo averiguar o cftado , em que eflava o poco , dllle-me que entulhado com a mclma terra que del- le le havia tirado , o que le fizcra com a cliuva, e tem- po. •Como nem elle , nem varies outros aue cntad con- lul- E C O H O M 1 C A S. 287 fultel , me derao noticia , de que na vizinlian^a spparecel- fe mais daquella materia , julguci que o caminho mais eurto para a cncontrar , era abrir o pofo , que jd Jiavia fido aberto ■■, o que conieguiria , ie o Invorno nao prin- cipialle tao violento , e I'e alguma agua que ja ie ha via eiicontrado nao impoinbiliraire qualquer trabalho. Durante a abertura do poco , vendo que ella fe im- poilibiiitava ,. recorri a novos raeios de encontrar o carvao , que de principio queria foflem acceliorios a meu traba- IJio. Examinei nas vizinhan^as os detrimcntos , e exca- vacoens feitas pelas aguas da chuva , e logo na diitan- cia de quinhentos paflos com pouca differenja , no cami- nho que vai ter a hum pcqueno lugar chamado a Panaf- queira , no meio de hum banco de argilla negra , obfer- vei pequenas camadas , ou ellrados de carva6> de pedra , ora de maior , ora de menor altura , nao excedendo a maior a quatro pollegadas. Obfervei mais que fendo efte banco de argilla quem formava a fuperficie da terra , cu- ja altura era ate ao fundo da excavagao de feis , fete, e algumas vezes de oito pes conforme a queda , e o im- pulfo das aguas, &c. , o carvao que eftava mais a fuper- ficie fendo de menor altura , era com tudo mais perfei- to , mais luzidio e brilhante na fua quebradura , que o inferior. Chegiiei a contar tres pequenos eftrados que fe- guiao a direc^ao dos montes vizinhos , e que todo o carvao tinlia tanto na fuperficie I'uperior , como inferior ocra de ferro , mifturada com argilla , ou barro que o continha. Recolhi pedajos em grande quantidade nefte fitio, dos quaes apprefentei amoftras a Academia , e como nao erao einpregnados de pyrites , efperei que a engroffarem os ban- cos pela convergencia , ou encontrarem-ie maiores mais abaixo , poder-fe-hia extrahir com conta o carvao ; e era o trabalho que havia para fazer. Favorecia a minha pri- meira fufpeita o nao ter ainda encontrado indicio algum de carvao no pogo , que de novo abria , cuja fituacao era quafi horizontal ;, e eu ja havia profundado ate oito 288 M F. M O R I A S oito pej--. Na6 tcndo todavia no ciirfo dc miiihas obfer- vayoes ncnhuma ourra que dcHruiflc ella , achci argu- mcntcs que rcfciirci , com que cfcorci a feguiidj. Recolhidas as ainoftras do carvao dcftefitio, conti- nuando a indag;ir fe apparccia cm outros , achei qucm me inculcalVc dilFcrcntcs iugarcs , ondo com cjftcito a flor da terra apparecia o carvao , a quo chamavao os liabitantcs da Frcguczia Azcvixe : doixei no enranto. cfte cxame para ao dcpois , porque Joaquim Pallyar , que neila Frc- guczia pollue duas fazcndas , me convidou a examinar huma mina , que com o dcftino dc tirar agua Jiavia feito em huma dcllas , a qual clH fituada nos mclmos mou- tes , e dircccao do firio da Panal'queira , que eu acabava de examinar ; chama-le efta fazenda o Cazalinho : acceiteii de tanto mcllior o convite , quanto era grande o dclcjo que tinha dc examinar o interior daqucllcs montes rer- ciarios , e ver Te em maior profundidadc cnconrrava ban- co mais rico j cxame que fcm efte ibccorro fazer pode- ra , fe tiveilc a verruma , ou fonda-montanha que me faltava. Augmentarao-fe minhas efperancas quando llie ouvi dizer , que da refcrida roina fc tinhao tirado alguns pe- dafos dc carvao. Armado eu , e elle dos inrtrumentos necefTarios para entrar dentro da mina , e extrahir o car- vao J com effcito entramos , e eu vcu referir tudo que obfervei. A mina corta , por Iiuma fcccao horizontal , hum pe- queno montc , cuja inclinacao nao exccdera o ajigulo de vinte e finco graos ; he compofto o monte de differentes eftrados regulares , como coftuma6 fer quail rodos , onde fe encontra o carvao : os eftrados fao de cos , pedra cal- carca af^as milhirada de huma area ncgra , e de muitas pcquenas conchas , cujo primciro afpedio lie de graniro ; eftas lao as camadas , que fe deixao ver na boca , e inte- rior da mina : por entre o banco de cos , e pedra cal- carea corre , fcguiado mais ou menos a dircccao do mon- te , o cllrado de carvao , que na maior grollura tern dcz , ate ECONOMICAS. 289 at^ doze pollegadas , e na menor quatro , o que em toda a mina fe oblerva fern interrupcao. Extrahi quantidade confideravel deftc banco , e os grandes pedajos que del- le trouxe a Academia , dcixao beni ver iua riqueza. Nao poderia eu decidir fe era efte hum eilrado dif- ference dos que havia vifto e obfervado na Panafqueira, fe no fundo da mina , onde eftava huma clara-boia , que teria de altura dezoito ou vinte pes , nao obfervaiTe os bancos fuperticiaes , que ja havia obfervado na Panafquei- ra ; regularidade efta que com probabilidade me fez con- jedurar , que nao he o banco , que na mina fe encontra o ultimo 5 e que pode ainda haver efperanca de fe en- contrar outro de maior riqueza mais abaixo. Nao forao eftes os unices morivos , que me otn"iga- rao a julgar poderem-fe encontrar bancos mais abundances em maior altura : a favor de minha fufpeita ellao os in- dicios de antigas minas de carvao, que nos montes fu- periores , e na dirccgao de Lefte a Oefte fe encontrao. Caminhando do Cafdinho , e da boca da mina para fi- ma , feguindo o rumo de Nort-Noroefte na fummidade dos montes mais vizinhos , os quaes como o da mina de agua de que hei fallado , formao huma como efcada para fubir a maior altura, em fitio onde provavelmente nao fe abriria poco algum , fenao com o lim de minerar, obfervei duas claras-boias de figura conica , que em razao de fua profundidade , recebiao as aguas da chuva du- rante o Inverno , as quaes , quando ellao cheas as claras- boias , fe vem lahir , e exgotar na bafe do mefmo monte por hum pequeno oriiicio , que provavelmente foi em outro tempo a boca da galleria , o que tanto mais pro- vavei parece , fe ouvir-mos aos que de longo tempo tem obfervado efle efgotadoiro, o qual deixa de lan^ar agua , logo que fe acaba a que fe tem depofitado nas claras- boias. Poder-fe-hia dizer ainda com probabilidade , que o nome da Carvoeira tivera origem deltas minas , que em outro tempo fe extrahirao. Ate aqui a obfervacaoj c experiencia me haviao feito Toyn. 11. Oo ver 290 M E M O F I A S ver que a fupcrficie do triangulo funiiado pelos trcs pon- tes conliecidos , o pogo do Prior , o lugar da Panalquci- ra , e o Cafalinho , I'em contar com os lades adjaccnies , era coda formada pclos ellrados rcgularcs que apparecein , e de que liei feito nien5:a6 , e nao rendo auida allim pro- va alguma contra a exrciiiao dcftcs bancos , nao contcn- te com o que ja havia oblcrvado , paffei a examinar os diperenrcs litios daqucllas vi/inliancas , onde apparcciao OS eftrados luperiorcs : I'ao ellcs o Calal chamado Rei- vufies ^ a Quinta d-d Nrqueira , e o iitio da 'Jamerea : o priineiro cm rumo de Lcs-Suefte , o fegundo a Lelle , o terceiro a Norocfte. Em todos eftes fitios fe ve a conti- nuajao dos eftrados de maior ou mcnor groflura , liumas vezes mais , outras menos a fupcrficie da terra, de ma- neira que junto a Qiiinta da Niqueira , c em grande parte de toda erta fuperticie conhecida , que formara hum trapezio de duas leguas quadradas pouco mais ou me- jnos , conviria fobre maneira a agricultura furribar o ter- rene, e aproveitar o carvao que le acha a flor da terra. Experie}icias feitas com carvao dos fitios afjlma re- \ Jeridos. DEpois de ter junto amoftras do carvao dos Jugares aflima apontados , nao podendo em razao do Inver- no , e de huma inflammijao de olhos que me fobrevcio profundar o poco do Prior , ate chegar ao carvao , palTei em primeiro lugar a examinar o carva6 pyritofo , que clie ainda coniervava , e a ver fe delle poderia cxtrahir-fe com conta o enxofre , que o Jiavia mineralizado , por fer efte o fim principal da Academia nefta commiflao , de- pois de bem ponderar quanto entre nos he precaria efta marerja , que a tantos e tao differentes ufos ferve, e prinr cipalmente ao fabrico da polvora. Por dous modos , que rigorofamente fallando fe re- duzem a hum fo, fe extrahe o enxofre das pyrites que o contem. O primeiro e mais ufado , lie pela dillillajao : o fe- ECONOM. ICAS. 291 o fegundo pcia fublimacao , e fo tern lugar , qiiando da mefma pyrites ie aproveitao difFerentes prodiic^tos de malor intereile, como os metais com ellas mineralizados &t,'. , que devem primeiramente fer oltuladas. For ambos dies tentei extrahir o enxofre. Tomei noventa e feis oitavas de pyrites carbonacea , introduzi-as cm huma retorta , a que ajuntei leu recipiente ; lutei a juntura com luto de cal , e claras de ovos : applicado o fogo a retorta , defen- volveo-fe huma quantidade confideravel de vapores, afsas denfos , de cor amarclla efcura , de clieiro fuffocativo , OS quaes fe nao puderao conter: paflando eftes pelo luto, com que havia tapado a juntura do recipiente , o fizerao da c6r de Jium bom verde. Acabada a operagao , encon- trarao-fe dentro do recipiente os produ(il:os feguintes. Huma ileugma branca _, que rerveo , ajuntando-fe- Ilie acido vitriolico. Hum oleo efpelTo , procedido da miftura do oleo , ou bitume do carvao com o enxofre , o qual em tudo fe aflemeliiava ao b.ilfamo de enxofre , formado pela combinajao do enxofre com o azeite commum. O collo da retorta continha huma porgao defle oleo, ou balfamo mais efpeilb , fobre o qual fe formou hu- ma muita pequena incruilacao de enxofre no fim da operajao , mas que fe conhecia fomente pela cor , por- que o cheiro, e mais propriedades , erao as do balfamo. O refiduo que ficou dentro da retorta , perdeo o tergo de feu pezo , e a parte mais carbonacea ao con- tadlo do ar inflammou-fe como hum verdadeiro pyro- , foro. Os producTtos da fublimacao , forao os mefmos que os que fe virao no collo da retorta. Do expofto J fe ve que fendo o fogo o meio mais commodo e proveitofo que temos de feparar o enxofre, feparando efte ao mefmo tem.po o oleo do carvao de pe- dra , o qual em razao da giande affinidade que tern com o enxofre , mifturando-fe com elle , difficultozamente fe pode feparar. For tanto pcuco ou nada fe pode efperar Oo ii da 29- M E M O K I A S rla utilidade , que da cxtraccjio do cnxofre pode rcfultar; villas as cxpcricncias allima rcforidas : mas como o car- va6 pyritolb nao apparecc (enao em hum 16 Jugar , llndo alias maior a utilididc , que da extraccao cio mel'mo car- vao para cs diffcientes ulos pode relultar , razao parccc que o confidercmcs debaixo dcfte ponro de villa , porque ainda nao cilao acabadas as eiperieucias que daqui em diante lb dcvem rclcrir. Como OS Mineralogillas dillinguem as difFerentes qualidades de carvao , vejamos a quaes deltas fe devcm icduzir as efpecies , ou variedades , que no litio da Car- vccira fe encontrao. Segundo o iyllema de Valerio , ne- nhiima outia dcfcripjao mais apropriada Ihe achamos , que a delcripta no gcnero 6°. variedade pnmcira , L/- thanlrax ligneus. ,, Eft genuinum lignum vegetabile fuis )) libris circiilis conccntricis, nodis coi tice facile dignofcibile, „ quod pctroleo ell penctratum. ,, A variedade quarta Li- thrantax jlfjllh na6 dcixa de competir ao que le acha na Panafqueira a flor da terra. O carvao pyritoib pcrience aos petrificados , ordem fegunda , genero 62. efpecie ij, variedade fegunda. Vegetabile fojjite bituminofum ligni. Lignum fo(Jile bituminofum , torpore peregrina petrclco , feu afphaito impregnata vegctabilia. Linneo comprehcn- de todas eilas variedades na efpecie fete , genero 21. da ordem fegunda das minas Bifumen fchijlofum. Segundo o fyftenia de Kirwan o carvao pyritofo he o defcripto na vari«dade quarta das fubftancias inliammaveis, efpecie nona, e o que nao he pyritofo, parte compete a variedade pri- meira e fegunda , parte a teiceira. A facilidade com que qualquer corpo fe inflamma : o maior grao de calor que da combullao refulta : a pu- reza , e fimplicidade do mefmo corpo : em fim a facil applicajao de hum fo corpo inllammavel a todos e quaef- quer ufos , fao em gerai os caradleres de huma boa fubftan- cia inflammavel. As expericncias que vou rtferir conven- cerao a qualquer que nab attendcndo a caracl:eres exterio- res, confiderar os objed:os como cllcs fab, e nab comq pa- ECONOMICAS. 29^ parecem , que o carvao do fltio da carvoeira , poflo que elle nao tenha o inelmo afpedio , que o melhor que de Inglaterra nos vein , produz tcdavia os effeiros de huma boa fubftancia inflammavel , e que a ilia applica^ao he mais geval , que a dos carvoes mais carregados de partes bituminolas. Ainda eftando na Carvoeira level a cala de hum Fei- relro huma porcao do carvao mais inferior , que ha via extrahido : pedi-lhe quizefl'e forjar , e caldear com eJie algumas obras , das que tinha entre maos. Duvidou efte a principio que com elle caldeafle o ferro ; cedeo porem depois da' fua duvida , vcudo que nao fo a caldea^ao fe fez mais breve , m.as que o ferro fe nao efcorificava mais , do que fe houvefle fido caldeado com o carvao de fepa , ou fobro. lifta experiencia me fez Icmbrar a confrontacao dos differentes carvoes , e vcndo que por meio da forja a def- igualdade do calor produzido devida a irregularidade do folle poder-me-hia induzir a erro j no Laboratorio da Real Academia em forno de Baume , em que o accelfo de ar he lempre igual , fiz as feguintes experiencias. To- mei de carvao de fobro ■^^S^ pol. cub. que vem a ier quafi I de pe cubico y que pezavao 64 onjas , ?.s quaes introduzidas no forno de Baunni derao pelo thermometro de Wedgwood 26 graos de cn'or. Porcao igual do carvao da Carvoeira , que pezava 104 oncas , deo pelo mefmo thermometro 44 graos de calor. A inflammajad foi violenta em relagao a do fcbro , e a charnma moflrava que o carvao nao continha porcao confideravel de enxofre ; e pofto que o cheiro fofle an- tes de fe inflammar atftivo , com tudo depois diffipou-fe todo. Outra porcao igual de carvao ordinario de Ingla- terra que pezara 192 oncas, nao fe inflammou vivamente a pezar de muito trabaiho ; porque fazendo-fe grumgfo prohibio o acc>:lTo do ar em razao do qual fe faz a iu- flammajao , e alfun o calor apenas chegou a 15 graos. Das experiencias referidas intiro eu : I. Que 294 M E M O R r A s I. Que o carvao do fitio da Carvocira he capaz para o ufo das forjas , e modificajao dos metais iem pcrda delle?. II. Que o Artifta que dclle ufar , fendo a compra feita pelo volume , e nao pelo pezo ganhara 69 j por 100 ; em relajao ao carvao de lobro. III. Que nao fendo o carvao de Inglaterra capaz de incendiar-lc cm todos os fornos , poder-fe-ba fervir Tem- pre do da Carvoeira. IV. Qiie he com tudo mais util emprcgalo naquellcs ufos , em que os Artiftas nao fao expoftos aos vapores dos carvoes incendiados , por caufa do acido fulphurofu que fe produz pelo enxofrc que concern. ME- ECONOMICAS. 295" M E M O R I A Accrca da cuhi:ra , e utilidnde dos Caftanhciros tia Caviarca de Fortakgre. PoR JoAQuiM Pedro Fragoso de Sequeira. CAPITULO I. Das utilidades dos Cafinnheiros, § I. ACuItura de huma arvore , que dcfle a madeira ne- celTaria para a conftrucjao dos edificios da Provin- cia do Alcm-Tejo , e da Corre , feria hum meio de grandes utilidades , e riquczas para o nollb paiz. Qi Cailanheiros da Comarca de Portalegre nos arredores del- ta Cidade , nos de Alegretc , Marvao , e Caftello de Vide podem dar eftas utilidades , e outras mais , melho- rando fua cultura , c augmentando-a nas terras incultas , como fe pode fazer. Tratarei pois de todas eftas utilidades , e da cultura dos mefmos caftanheiios, fegundo a expe- riencia , e obfervacao de alguns annos me tern enfinado. § II. No termo da Villa de Alegrere lia aJguns foutos manfos , em Portalegre, Marvao, e Caftello de Vide ha foutos manfos, e bravos. Os foutos de Portalegre , Mar- vao , e Caftello de Vide , que occuparao mais de huma legua de terra quadrada , dao madeiras para toda a Pro- vincia , e para Lisboa : e por certo que a caftanha da Comarca de Portalegre he a melhor , que entra em Lis~ boa. Eifaqui j-'ois remos hum ramo de agricultura impor- tance J e que Jie o fundamento de outro de commercio in- 1^6 Al E M O R I A S ir.icrior da Najao. Nao ha duvida fcr die util, vcjamos como I'c podc augmcntar. § III. Nos baldios da Sena de Anonclic-s vizinhos a Alegrcte no tcrmo dcfta Villa , e nas rcnaiiias de Porraic- gre , Marvao, e Callello de Vide Jiaverao liiimas tres Ic- guas quadradas dc terras , ou totalmente incuhas , ou aonJe apenas le cultiva de feis , ou do oito cm oito an- 1103 ulgiim nigo , c que ou nao prodiizem partus , ou alguns mui fracos para cabras , e gado vaciim. Se cdas terras fe povoarem todas de caftanhciros bravos , e man- ibs , augmentar-fc-ha com dies die ramo dc agriculcura , e commercio , e per confequencia a populacao , forcas , e riqucza do P.^.iz. § IV. Vejamos fe feria melhor o rcduzir efla tcr.a a cultura de trigo : fobre o que fe deve fabcr , que iiem toda ella o produziria , e ainda no calb , de que toda cila le feineafl'ej e produzifl'e , feria mais util a cultura dos caltanlieiros. O fcguinte excmplo he prova difto ; quin- ze alqueires de terra cm femeadura de trigo , que fcm- pre aqui he de inferior qualidade , rendem meia femeiite, e nao le podem femcar fcnao de feis em feis annos : logo tcmos que efla terra no fim de dezoito annos tem ren- dido annualmente hum alqucire e quarta de tiigo , que vcndido a quatrocentos rcis , fao quinhcntos reis an- nuaes , que no fim dos dezoito annos fozem hum pro- dud:o de 9(^000 rcis , o qual produdo he mcnor , quan- do as terras fe femeiao de oito em oito annos. Mas fe elta mefma porjao de terra for cultivada de callanheiros , a fua madeira rendera no fim dos dezoito annos 220(^000 reis , e ifto nao falando no rendimcnto da alimpajao , e desbailes. Daqui fe pode concluir , o quanto cllc ramo de cultura he preferivel ao do trigo , c o quanto p6de render a Comarca , e ao eflado. Vejamos agora as mais utilidades , que ddle podem refultar. § V. He vcrdade , que os terrenos povoados de fou- tos bravos nao da6 outra cafla de fruto , que prefentemente fe aproveite : porque como aflbmbrao , e tomao muito a tcr- ECONOMICAS. • 197 a terra , im{jedciii a boa criacn6 dos pallos ; mas corn tudo nao deixao de produzir ajguns , que I'c podem apro- veitar com ovelhas , e bols. Eibcs melmos animaes apro- veitarao muito com a cailanha brava , que nui;ca a de- veram conier 03 porcos, pois efces ccmcndo-a toda , impc- dirao a produccao da fementeira mtural , e rnclhio ar- raocarao alguns caftanheirinhos naicidos do caftanhds , que Ihes elcaparao. As ovelhas , e carnciros , que pat- tad annualmente neftes fitios , dao a melhor la da Pro- vincia, e os bois a melhor caine , e lao os mais cor- p^lentos : afllm o tenho viflo , criando Huns, e outros. § VI. Vejamos agora ie os fbutos manfos darao as mcfmas , ou maiores utilidadcs. He vcrdadc , que e!les nao tomao tanto as terras , por llies fer neccflauio eflaiem. em diftancia proporcionada , a creiccrem rodando muito : porque eitando baftos , fo crefcein para (ima , e nao ro- dando , da® pouca caftanha. Tambem neftes na-6 fe fazeni OS cortes tarn frequentemente , como hos bravos : nao io porque Ihes Jie necellario muito tempo para engroiTarem a termo de dar taboas , mas per lenao perder o fruto da caftanlia. Dao porem de trinta cm trinta annos cortes de madeira de maior valor , que os bravos , da-o o pro- dutflo annual da caftanha , deixao a terra capaz de fe femear de feis , em ieis annos , e rnuitos paflos , que mul- tiplicando-fe artiticialmente , fullentarao hum grande nu- mero de ovelJias , bois , c beftas. § VII. Vejamos tambem o mo , que fe faz , e pode fazer deftas madeiras , e que vanrngens tern fob re as outras. Nao fe pode duvidar, que as madeiras de grande dura- jao , que fao juntamenre pouco pezadas , e incapazes de fe incendiarem , fcjao as meihores , e mais convenientes pa« ra a conflruc^ao dos edilicios , nao fo da Provincia do Alem-Tejo , porem mui principalmente para os de Lis- boa. Tcdos fabem , que as madeiras de pinho, de que he a edificafao de Lisboa , na6 fo fao mais porofas , e por iffo menos fortes , que as de caflanheiro , mas eftao cheas de pez , que he huma refina mui inflammavel , e que Tom. 11, Pp as 298 Memo r i a s as faz mais pezadas , c por illb ellas fao menos dura- veis , e correm o pcrigo , dele inccndiarem , como del- grafadamentc o molba a cxpcricjicia em Lisboa. Toda a Pfovincia do Alem-Tejo faz ulb da madeira de cal- tanlio , e na6 ha memoria , de ter Jiavido hum incendio cm calas , que renha proccdido do lume cahido Ibbre a madeira : e muiras vezes le tern viito , que ella refifte ao fbgo moderado de qualquer outra iublbncia. He logo fern duvida , que efta carta de madeira le deve preferir para o ulb da edilicajao de Lisboa. Nao pode dar me- Eores utilidades , ulando-i'e para as diffcrentcs officinas in- teriores dos navios , as quiies Te colKmiao fazer de ma- deira de pinlio , e que tern alem da qualidade de ferem menos diiraveis , e mais pezadas , o incoiiveniente de da- rem pelo commum a materia , e occaliao aos laflimoibs incendios , acontccidos muitas vcze« , e que quali fempre fao procedidos de huma pequena failca que cahio do fi- garro , da chamine , ou do candeeiro , e que toeando nao fo no breu , mas no melmo pez da madeira , fe inflamma , e queima tudo. § VIII. Acontece a todas as madeiras , que nao tern refina , e fao hum pouco mais folidss , que as que a tem , o nao fe inflammarem , fem hum grande fogo exterior : de maneira que fe Ibbre huma taboa de carvalho , azinho , fobro , ou caftanho cahe huma , ou muitas brazas de carvaoj eftas nao levantao incendio, mas lb vao confu- mindo a parte , fobrc que cftao , cm quanto Ihes dura o fogo , e acabado elle deixao huma cova. A experien- cia moltra iilo todos os dias no Alem-Tejo , onde muitas calas de cozinha , e de fogao tem fobrados de taboas de caftanho. E o que mais he o lar efta feito fobre o ta- boado, compondo-fe de hum folo de tijolo alfcntado em cal , giiarnccido regiilarmente com huma cinra de madei- ra , qae fegura os ladrilhos , e muitas vezes he tam pe- qujno, que continuamcnte I'altao brazas para o fobrado. Rizem-fe njftes lares grandes lumes de lenhas de azinho , fobro , ou carvalho , que nem de noite fe apagao , por- quc 03 ccnfcrvaoj cubi-indc-os dc cinza. § ECOKOMICAS 29<^ § IX. A dura9a6 defta madeira he tanta , que os paos , que fervem no emmadeiramento dos telhados , e iobra- dos durao mais de cem annos , e alguns ha , qua cicio durao ate duzentos , c mais. Na Igreja Catliedral de Por- talcgre ha retabulos de madeira de cailanho , e pintuias em taboas do mefmo, que fe confervao , e promettem muita dura^ao , lendo aili poilos quando fe edificou o Templo no governo do Senhor Rei D. Joao III. Parece muitas vezes , que cftes paos cftao podres , mas apenas tern por fora huma , que he a primeira camada , ou annel corrompido , eftando o redo fern leiao. § X. Efla putrefacgao acontece commummente nos paos redondos eiripregados nos telhados , Ibbrados , ou ou- tros u-lbs , e nos Jados de algumas taboas , que confervao a camada, que cllava immediatamente debaixo da cafca. Obicrva-fe pois , que* a madeira redonda deipois de mui- tos annos tern perdido por fora huma parte , que apo- drece a maneira de cafca , e o refto fica fao , e bom , capaz de muita duraf ao. Todos , os que tem conhecimen- to da Fyiica das plantas , fabcm , que o cio , ou fubftan- cia vegetante , que nutre a arvore , e forma fua madeira , vai fazendo differentes camadas todos os annos , humas fobre outras , que todas fe obfervao no corte das madeiras , e por onde fe eonhecem os annos das arvores. Ora he certo , que quando ie corta a madeira , nao tem fua ultima camada ainda tornado tanto vigor, e dureza , como as interiores : porque efla fubftancia, que a principio he geiatinofa , a femelhan^a dos oifos dos animaes , fe vai como elles , endurecendo com o tempo. Se pois ella nao efta em abloluto eftado de perfeijao , e expofta imme- diatamente a atmosfera , necellariamente fe ha de deftruir, ficando illefas as outras camadas. § XI. Durao igualmente eftas madeiras no madeira- mento das latadas , para o que fervem muito em Portale- gre. E he fern duvida , que ellas fazem os fobrados , e portas das cafas , mais fortes , e duraveis , que as de pi- nho : e que fao preferiveis nelle ufo as madeiras de fora , Pp ii por ^OO • M E M O R I A S por icrcm mcnos pczadas , que el las. A madeira dos cafta- nlieiros tambcm he excellente para as difTcrcntcs maqumas das hibricas , e muitas outras obras. Os antigos fizerao dclla grande ulb , e a recommendno em feus efcritos. § XII. He pois jufto y que examinemos a qualidadc de clima J c terra , cm que ella arvore produz , e que vejamos fe i'ao defta naturcza os terrenos mcncionados : pera del- pois ie mollrarcm as mi n lias obfervajoes praticas a rcf- pcito da iua cultura na Comarca de Portalegre. C A P I T U L O II. Da terra , e clima proprias para os Cajlanbeiros^ § L OS caftanheiros fo produzem em terras arcentas , o Jugares frios- , e montuolbs : por cuja razao as nofTas Provincias do Norte as tern em abundancia : e na Pro- vincia do AJem-Tejo fe criao na parte montuofa , e a mais fria da Comarca de Portalegre. Todos- os baldios , de que fallamos , i'ao de terras arsnofas , frias , e mon- Tuofas. Todos OS Elfcritores antigos das coufas rufticas , concordao em dizer , que os caftanheiros fo produzem em terras areentas , e paizes frios : cque com effcito a experiencia nos moftra fer verdadc , pois tal he a na- turcza dos terrenos J que em Portugal produzem os caf- tanheiro?. § II. Segue-fe agora o dizer alguma coufa , do que te- Tiho obfervado acerca do modo de preparar a terra paraa cii'tura dos callanliciros. Qiiafi todas as terras inculras deflas ferras mcncionadas eftao povoadas de joina , tojo, fargajo , e fetes , cujas plantas devem fer primeiramen- te anancadas , para a terra fe poder lavrar. He pois ne- cedario nas partes onde o matto efta mui cerrado , o ro- falo , e qu:ima!o , e defpois arrancar fuas raizes. As raizes da joina tern o ufo dc darem boa lenJia , c bom car- ECONOMICAS. ^oi carva6 , e o mato de tojo , e fargajo podem tambem reduzir-fe a eflrumes , fazcndo ddks montcs nas pafTa- gens , onde fe moao. Efta diligencia devera fazer-fe pel- lo verao , e outono para logo no inverno fe dar a terra o primeiro ferro , defpois do qiial fe devem cortar to- dos OS £etos , que tiverem renalcido , pafTada a primeira roja : pois eftes , deixando-os crefcer , impedem a fe- menreira de qualquer grao , porque multiplicao muito , e afFogao as planras. Ella terra defpois de afTim Javrada , e limpa dos fetos efta capaz de fe femear de milho miu- do peios fins de Maio, ou principios de Junho feguinte. Tambem nos valles , ou outras partes fe pcdcrao femear melancias, feijoens brancos , e pretos , aboboras , e outros generos mais. Deve-fe aqui advertir , que feria muito util , o obrigar os lavradores a cultivarem o milho grol'- fo da Beira , que he de melhor qualidadc , que o que fe coftuma femsar pelas hortas defta Com area : elle alem de dar menos grao , neceffita de agua ,. aquelle nao fo da mais grao , mas cria-fe fern agua, E ncllcs termos fua cultura he importante nas terras a/Iim arroteadas. Os produiftos pois defta fementeira , que principalmente con- liftem nos graos , e palha , ja recompenfao de alguma maneira o trabalho do agricuhor , dando-lhe generos para fe manter com feus domellicos , e gados. §■ III. Efta colheita deixa a terra preparada , para a fe- menteira do trigo , e caftanhas. Talv^ez ja a feara do trigo, com a outra colheita recompenfe inteiramente ao lavrador as defpezas , que fez na cultura das terras. O trigo gal- lego , e o barbella , he o que produz melhor neftes ter- renes : e por tanto nao le deve ahi femear outro. A fementeira das caftanhas nao impede a do trigo , nem a do trigo a das caftanhas : tambem a ceifa do trigo jiao deftroe os novos caftanheiros , pois como eftes eftao mui pequenos ao tempo da ceifa , p6de-fe ella fazer , fern OS cortar. Paflados dous annos defpois defta fe- menteira ja OS caftanheiros tern crefcido baftante , e igualmente a terra produzido algum ma.no : pelo qu£ o agri- goi M E M O R r A s o agriciiltor deve proccder a nova lavoiira , tendo a cau- tela dc que le nao arranquem , ou cftraguem os caftanhei- ros , e que o matro, que fe queimar, os nao queime tam- bem : e afllm tirara oucra colheita de trigo. § IV. Como a rementeira dos caftanhciros Jia de fer feira a ivgo direito , c nao IVm ordem como a do trigo , Icra mui tacil , c convenicnte ao lavrador o rojar , e cavar a enxadao a terra proxima aos caltanlieirinJios : porque o arado neccflariamente os prejudicara. Allim cultivao-le tne- Jhor , c ficao livres de todo o perigo. E quando a terra Icja tarn fraca , que nao poffa aos dous annos dar outra colheita de trigo , entao efte trabalho deve-fe neccflaria- mente fazer , alimpando os caftanlieiros , e cavando-os por hum , e outro lado , para nao perdcr , ou atrazar a fua criacao. E tambem efta mefma lavoura ie p6de apro- veitar com os paftos artlficiaes. § V. Paflada eila idade da iegunda lavoura , e colhei- ta , entao Ja as terras , que le deilinarem para Ibutos bra- vos , nao poderao fer Javradas , fem que os caftanheiros pa- def ao : pelo que fe deve por termo a lavoura. Nao acon- tecera o mefmo as terras , que fe deilinao para os foutos manfos : pois cOmo paflados os quatro annos ja fe devem arrancar os caftanheiros , que nao hao de ficar , e fe ha de regular a povoacao do arvoredo , fica a terra em ter- mos de fe lavrar dc finco em finco annos ate que os caf- tanheiros a airombrem toda : e afTim podcra o lavrador tirar fmco , ou feis colheitas de graos. § VI. Os caftanheiros refervados para manfos , pode- ra6 aos dez annos eftar ja capazes de fe enxertar , e aos vintc e finco ja darao baftante novidade de caftanha , e os brafos aos dezefete darao hum corte dc madeira. Eftes def- pois de cortados darao aos feis annos o interclfc da alimpa« f ao , aos dez , ou onze o desbafte , e aos dezefete o fe- gundo c6rte. Donde fe ve , que os bravos dao mais cedo utilidade , que os manfos : porem efta difFerenja fica def- contada nas fearas , e paftos que dao as terras daquelles. Quaqdo dies chcgao a aflbtnbrar a terra ,, hecerto, que pri- E C O N O M I C A S. l^o^ privao ao lavrador do beneficio da cultura dos graos , porem fupprem efta falta com a caftanha , que elle vende, come , e da aos feus porccs , bellas , e aves. Em fim as mefmas terras ficao produzindo admiraveis paftos. § VII. He de muita importancia o fazer huma femen- teira de paftos artificiaes nas terras , que pela ultima vcz fe Javrao para os caftanheiros bravos : porque alem do intercfle dc fua primeira novidade, fe ccnlegue o multiplicar aquel- je prado , fazendc-o natural. Nas terras dos foutos man- fos fera ainda mais util efte cuidado , que as vezes fe podera repetir. § VIII. Pelo que toca ao modo de femear as caftanhas , ifto fe deve fazer , deitando-as nos regos do arado ao mefmo tempo , em que fe femeia o trigo , licando a duas , e na diftancia de hum pe humas das outras : nao fo para que o fouto fique logo bem povoado , mas para acaute- lar, que nao fique defpovoado , pelas que apodrecerem , e OS ratos , e lefmas comerem. Se bem que ellas i"e podem livrar dos ratos pelo modo que fe aponta na Memoria das jdzitiheiras paragrafo 17. E ainda que a terra femea- da fe deftine para foutos manfos , com tudo fempre fe deverao femear defte modo : para acautelar os inconve- niences propoftos 5 e porque os caftanheiros , que fe hou- verem de arrancar defta terra , fervem para a tranfplan- ta^ao : e mefmo porque quando fe cuver de fazer a ef- coJha dos que hao de ficar , podem ficar os melhores. § IX. Os Efcritores antigos , falJando da fementeira dos caftanheiros , dizem quali ifto mefm.o : porem nao crcio , que fe devao feguir em tudo : ao menos nao he tudo applicavel a nos. Plinio diz , que efta fementeira fe deve fazer das caftanhas mais groftas : nifto concoidao todos , e concordo eu : pois he certo , que eftas fao as melhores , e que , por terem mais lubftancia nutrien- te, produzirao melhores caftanheiros. Diz mais Plinio, que fe devem deitar na terra finco juntas , com o que cu me nao poftb accommodar ; porque, fe todiis nalcerem prejudicarao humas as outras, e nao fe podeiao desbai- lar . 304 M E M O R I A S tar (em mini. Pelo que pertcnco no tempo d^ femcn- reira , acomfellia clle , que le deve cfli fazer dcsdc No- vcmbro 216 Fevereiro ; porque naqiiellc iciiipo lie que clUa calic.u. Ellas entie nos , quando chega o meado de Dezcmbro , ja icin caliido todas ( o que talvez nao acon- tcja na Italia ) c por ilTo clle mc parecc o tempo mais a propollto , tambem para aprovcitar a femeiueira das cartanlias com a do rrigo. Bern cntciidido , que nao fe fazendo as fementeiras juntas , entao fe podera fazcr a icmenteira ate ao Natal , pois ate a elle tempo fe con- lervao as caftanhas pclos Ibutos. O celebre Ruelio no feu tratado da Natureza das plant as liv. i. cap. 61, di^ , que ellas fc podem femear por todo o Inverno , o que rambem podera praticar-fe cntre nos fern inconvenlcnte. Pailadio diz , que as caftanhas fe femeem em Novcm- bro, e Dezembro , e mefmo em Fevereiro , e que para efte fiiii fe cfcolli:^6 as maiorcs , mais frefcas , e maduras : e prefere a fementeira de Novembro , nao i6 porque evi- ra o traballio de as guardar , e ter com ellas o cuidado de as preparar , para fe conlervarem fem corrupjao. Eu tambem o figo , nao fo porque el!e tern razao , mas pela conveniencia de unir as duas fementeiras. § X. Deve-fe ter muito cuidado em acautelar cftas fe- menteiras de llies cliegarem os porcos \ porque el.'es as po- dera fazer inutels , follaiido , e comendo as caftanhas. Igualmente fe devem guardar dos rapazes , e outras pel- foas , que ao tempo de nafcerem os caftanlieiros os ar- rancao , para comer a cailanha. Tambem defpois de naf- cerem os .cailanheiros , nao deverao paftar nos feus terre- nes OS bois , cabras , e ovelhas , em quanto nao paffar a fua frondefcencia : porque eftes animaes goilao muito das folhas dos caftanlieiros , e roem feus olhos : e ifto fcra perder a fementeira , e fazer inutil a cultura , redu- zindo-a a pafto de femelhantes animaes. E devera fem- pre haver ella cautela no tempo da frondefcencia , ate que as plantas tenhao feis , ou fete annos : porque ja del- ta idade por diante eftara6 em termos , de le def-. fenderem dos animaes feus inimigos. § ECONOMIGAS. 305" § XI. Refta agora fobre efte ponto , referlr tres obfer- vacocs , bem dignas de attengao. Primeira obferva^ao. Ad- virta-fe , que o que dilTe acerca de exringuir as feteiras , lo- go que fe comejao a cultivar as terras, he de fumma impor- tancia , nao fo para a boa criacao dos graos , que ie houverem de fcmear, mas para a criajao dos mefmos caf- taiiheiros. Os fetos coitumao ter muitas raizes , que occu- pao a terra por baixo a maneira que as moutas o fazem por fima ; e por iflb tomando fua fubftancia , impedem a vegetajao dos caftanlieiros. Mas fendo elles extinguidos pel©--modo referido de os cortar , todas as vezes , que fe renovao , nao fo nao impedem a criagao das fearas , e callanheiros , mas as fuas raizes , apodrecendo debaixo da terra a ellrumao maravilhoTamente , com grande be- neficio dos mefmos caftanheircs. Eu teniio obfervado , que OS caftan heiros' enchem com fuas raizes as cavida- des , que deixarao as raizes dos fetos , que fe reduzira6 a humus : e tenho achado eftas cavidades cheas de raizes de caftanheiros no mais vigorofo eftado de vegetagao. Daqui fe ve pois , o quanto he importante o trabalho de rocar as feteiras. § XII. Ufa-fe na Comarca dc Portalegre de hum inf- • trumento , para rocar as feteiras , chamado faianca. He efte hum.a lingua de ferro curva com dois cortes lateraes , e feu engafte onde fe Ihe poe o cabo , do comprimen- to de huns quatro palmos. Hum hom.em com cfte inf- trumento faz grande fervico por dia numa feteira , dan- do com elle nos fetos a hum e outro lado. § XIII. Segunda obfervajao. As terras que tiverem fi- do bem preparadas para a fementeira dos caftanheiros , e €ftes bem defendidos antes , e defpois de nafcerem , ja aos dezefete annos dar?.6 o primeiro corte de madeira. Ifto o provo com huma obfervajao ; hum caftanheiro nalcido , e criado em terra inculta de huma quinta de meu Pai junto a Portalegre deo aos dezefete annos tarn boa ma- deira , como os que fe criao de cepas. O pao , que efte caftanheiro criou , tinha quarenta e quatro palmos de Tom. II. Qg com- 906 M E M O R I A S Comprimcnto , que derao hum pdo de vintc e quatro palmos para emiiiadeirar , e do rcllo dois toros de ripa. E lie tambem gnuuic prova difto , o ver ,* que os cal- tanhciros nafcidos pclas vinhas , crefcw-ni de mancira , que lie nccelTario anancalos aos quatro annos : pois ja cntao cilao tarn grandes , que aiTonibrao as parreiras. E certo que le alii os deixallcm creieer , dariao boa ma- deira antes dos dczefete annos. § XIV. I'erceira oblcrvacno. A terra, que Icvar dez alqueires de trlgo em Icmcadura , fendo fenicada de caila- nlias para caftin^Mes , render^ acs dezelete am:os cem mil reis , e talvez mais , e ja no iegundo corre rendera de feiicentos para fima : pois cada hum dos caftanheiros novos , que t'oi cortado a primeira vez , c que entao dco hum lo pao , Ibrma huma cepa , que da muitos. E ae- crefceni em fim na fegunda idadc o intcrcire da aiira- pagao , e do desbafte. C A P I T U L O III. Da plantacao dos Cajianheiros. § I- O Tempo de fazer a plantacao dos caftanheiros he de- pots de paflar a fua frondelcencia , a quai pelo S. Andre tern ja inteiramente acabado. Desde entao ate ao fim de Marjo fe podem por os caftanheiros, bem fabido, que a poftura nas terras , que de Liverno coftumao ala- gar-fe , ie deve gunrdar para Marjo ^ porque cftas aguas jiao fajao apodrccer as raizes das plantas , fe as puzer- mos no principio do Inverno. A poftura dos caftanheiros de terras feccas devera fer feita no principio do Inverno, para que quando vier o Verao , elles ja lenhao lanjado raizes novas , e tornado forqas capazes de refiftir aosi calores. § II. Deve-fe ter muito emvifta; oprejuizo, que os ECONOMICAS. ^507 gelos dao aos caftanheiros em fua poilura. Se eftcs pojs fe arrancarcm eiu tempo cle gcadas , e as apanharem nas raizes antes da poftura , fera infallivel fua mortc. Tam- bem OS caitanheiros depois de poflos correrao o mefmo rifco , por o gelo pcnetrar a terra branda de fuas covas , e Ihes tocar as raizes. Igualmente perigarao , porque Ibu troiaco aballado com a aheracao da mudanca , e com a tronchadura , fentira grandemente os gelos. Eifaqui huns inconvenientes , em que ninguem attcnta , e que dao graves; perjuizcs aos cuitores em fuas pcfturas. O reme- dit) do pnmeiro m?l confide , em nao txpor as arvores arrancaLias a geada. Os caftaniiciros nas covas iivrao do pcrigo \ cub indo eflas em loda dc feu tronco com baf- tante matto. Os croncos Iivrao, cubrindo-os tambem com matto , ate ferem p'lalTadas as geadas ; operacoes todas de pouca defpeza , e trabalho , e que dao grande convenien- cia. § III. As covas , onde fe hao de por os caftanheiros , deverao tcr huns quatro , ou finco palmos de fundo , em terras frefcas : nas mais feccas deverao ter feis paimos de fundo ; para que o demafiado caJor nao penetre ate as raizes das plantas , e as arruine. Eftas covas de- vem ter fido feitas muitos tempos antes da poftura dos caftanheiros : de maneira que , as dos que fe houverem de por em Margo , devem fer feitas em Novembro , e Dezembro , e as dos que fe houverem de por lego des- pois da frondefcencia ^ devem J'er feitas no Verao. De- vem tambem eftas covas ter a maior largura polllvel , e antes que nellas fe ponhao ieus caftanheiros , fe devera a terra do fundo cavar ate a prcfundidade de palmo e meio , ou dous palm.os , fem que fe tire para fora efta terra bolida , mas pondc-fe fobre elJa a arvore. A razao de tudo ifto he bem clara : todos fabem , que as plan- tas por via de fuas raizes tirao da terra os fuccos necef- farios para a vegetajao : que eftas raizes enfraquecem com a alterajao da poftura : e que fe acharem a terra mui dura , nao a poderao penetrar , nera unir-fe com Qg ii el- ^o8 M E M O R I A S clla , nem por iflb t